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A cientista improvável: Ela foi faxineira e segurança antes de se tornar uma das investigadoras mais importantes do país

Valdirene Ambiel só tinha visto pessoas mortas em velórios. Eram familiares e estavam devidamente preparados para o sepultamento, dentro de um caixão, com flores em volta do corpo. Mas lidar com o cadáver de um desconhecido, sobre uma mesa, aquilo nunca tinha lhe acontecido. Por isso, estava com medo. “Talvez eu saia correndo”, disse ao colega de trabalho.

“Pensa que é um livro”, sussurrou o homem, ao chegar à sala do Museu de Arte Sacra, em São Paulo, onde avistaram um corpo preservado. Ela gostou da frase. Abstraiu o caráter possivelmente mórbido da cena e se empenhou em “ler” as informações fornecidas pelo morto. “Alguém que já teve uma vida como a minha e não está mais aqui para se defender”, narraria, 15 anos depois, ao relembrar os primeiros dias de sua bem-sucedida carreira de cientista.

Reconhecida internacionalmente pelo trabalho de aproximação facial do imperador dom Pedro I e das imperatrizes Leopoldina e Amélia –resultado da tese de doutorado defendida na Faculdade de Medicina da USP– Valdirene Ambiel tem uma trajetória incomum na ciência, em que proliferam as histórias de prodígios precoces. Ela abandonou os estudos aos 16, na oitava série, e só conseguiu concluir a faculdade perto dos 40, após enfrentar uma depressão e realizar trabalhos variados para pagar as contas, de guarda-costas a faxineira.

Fã de Grace Kelly

Valdirene tinha apenas sete meses quando perdeu a mãe, Zenaide, em decorrência de um câncer. Foi criada pelo pai, Alfredo, que trabalhava como motorista de caminhão de entrega de botijão de gás. “Não me faltou carinho”, ela afirma. Parte do afeto vinha do tio materno, Allan Kardec.

Mas em 1979, quando Valdirene tinha 8 anos, Kardec desapareceu. Nunca se soube o que aconteceu com ele. A menina viu a avó –que já havia enterrado a filha Zenaide– definhar em busca de informações sobre o filho. Ao vazio da mãe –“não me lembro da voz nem do toque dela”–, ela somaria a ausência do tio.

Na escola, acumulava reprovações. Sonhava em seguir carreira militar. Quando completou 15 anos, ingressou na escola de equitação para civis do Regimento de Polícia Montada 9 de julho, da Polícia Militar de São Paulo. No ano seguinte, farta da escola, abandonou os estudos e conseguiu um emprego como recepcionista do Consulado de Mônaco.

Para ela –fã das corridas de Fórmula 1 e da atriz e princesa Grace Kelly–, o consulado parecia um sonho. Todos os meses, guardava uma quantia do salário para investir num curso de automobilismo. Quando finalmente juntou o valor necessário, matriculou-se na escola de pilotagem do autódromo de Interlagos. Dirigia um carro montado com motor de Escort e câmbio de Del Rey sonhando com a ocasião em que pudesse colocar as mãos numa Ferrari.

Mas, sem patrocínio, precisou largar o automobilismo. Usou os conhecimentos adquiridos no curso para trabalhar como motorista no consulado — função que acumulava com a de guarda-costas, após fazer um curso de segurança no qual aprendeu, entre outras lições, a atirar.

O sonho de entrar para a Polícia Militar

Valdirene deixou o trabalho no consulado, em 1994, para investir no antigo sonho de seguir carreira militar. Ingressou na escola de educação física da PM e representou a entidade em competições de atletismo, corrida e natação, sempre como civil. Para prestar o concurso para a corporação, precisava concluir os estudos.

Como abandonara a escola na oitava série, antes de concluir o então primeiro grau (atual ensino fundamental II), precisou fazer um supletivo que contemplava desde a quinta série. Sem dinheiro para pagar pelas aulas, fez apenas as provas. Conseguiu o diploma, mas não foi aprovada no concurso — embora tivesse bom desempenho nas provas de conhecimentos e exames médicos, foi reprovada no psicológico.

Tentou uma segunda vez. E uma terceira. Continuava a ser eliminada quando as demais fases haviam sido superadas com êxito. Perguntava o que tinha de errado com ela. Ouvia que não tinha o perfil para a vaga. “Sempre fui meio biruta”, brinca. Na sexta reprovação, desistiu do sonho. “Foi terrível”, ela recorda. “Além do desgaste natural, pesou também a minha idade”. Valdirene estava, na ocasião, perto dos 30 anos.

O fascínio pela história

Então voltou a trabalhar como segurança e motorista particular. Atuou em lojas e salões de beleza e foi motorista de um executivo de uma grande empresa. Em 2002, fez vestibular para educação física em uma faculdade particular. Foi aprovada, mas não conseguiu aliar o trabalho aos estudos. Abandonou a sala de aula pela segunda vez e passou a viver de bicos. Passeava com cachorros, passava roupa e limpava a casa dos vizinhos. “Fazia qualquer coisa para me sustentar”, recorda-se.

Enterrar sucessivos sonhos –o automobilismo, o serviço militar, a carreira de atleta– fez Valdirene afundar-se numa depressão profunda. Decidiu, então, atuar como vocacionada –primeira fase de formação de uma freira– no hospital Santa Marcelina, na zona leste de São Paulo. Passou nove meses frequentando o convento, período em que conseguiu se sentir melhor emocionalmente; e ao fim do qual se convenceu de não ter vocação religiosa.

Conseguiu um emprego como auxiliar de serviços gerais no gabinete de um deputado estadual. Atuava como motorista, atendia quem procurava o parlamentar na Assembleia Legislativa, fazia tudo o que estivesse ao seu alcance — e, para isso, recebia como pagamento pouco mais de um salário mínimo.

Foi nessa época que Valdirene voltou a considerar a ideia de retomar os estudos. Lembrou que, embora não fosse uma aluna exemplar na escola, era reconhecida, pelos professores de história, como brilhante. Gostava de Mônaco por causa dos filmes — ou seja, das histórias — interpretadas por Grace Kelly. Mais do que os entusiasmava-se ante a ideia de que haviam sido criadas na Grécia.

Acima de tudo, lembrou-se dos passeios feitos na infância, ao lado do pai, para o parque da independência, em São Paulo, em cuja Cripta Imperial estão os restos mortais do imperador Pedro 1º e de suas esposas (a primeira e a segunda), as imperatrizes Leopoldina e Amélia. De todos os passeios que fez com o pai na infância, foram esses os que guardou na memória.

“Fã incondicional”

Valdirene prestou vestibular para história na USP, mas não passou. O deputado com quem trabalhava ofereceu-se para pagar as mensalidades de um curso numa universidade particular. Afirmou, porém, que a ajuda seria suspensa caso as notas dela fossem inferiores a sete. Assim, ela concluiu a faculdade de história no Centro Universitário Assunção como uma das melhores alunas da turma. Como trabalho final de conclusão de curso, escreveu sobre a imperatriz Leopoldina.

Ainda na graduação, matriculou-se como aluna especial de uma disciplina de arqueologia oferecida pela USP no Museu de Arqueologia e Etnologia da universidade. Foi quando descobriu que amava vasculhar vestígios. Assim, conseguiu um emprego como auxiliar de pesquisas no Mosteiro da Luz — o que a levou a analisar o corpo preservado no Museu de Arte Sacra. O corpo que, para ela, seria um livro.

Dali a dois anos, seria aprovada para cursar o mestrado na USP. Em 2013, defendeu a dissertação, com êxito. Foi a primeira pesquisadora a estudar os restos mortais da família imperial brasileira. Tratou-se de um trabalho minucioso no qual –com a autorização da família– ela manuseou os chamados remanescentes humanos de personagens centrais da história do Brasil e de Portugal. Por causa das pesquisas, Valdirene Ambiel ganhou respeito entre cientistas e historiadores.

Um deles é o escritor Laurentino Gomes, autor das trilogias “Escravidão” e “1808”, “1822” e “1889”. “Sabia-se, com base em relatos da época, que o imperador Pedro 1º era, além de um marido infiel, um homem violento e cruel nas relações com a mulher, a imperatriz Leopoldina. Numa certa ocasião, a teria agredido fisicamente, quando ela estava grávida, dando-lhe um pontapé que a fez rolar escadas abaixo no Palácio de São Cristóvão, no Rio de Janeiro”, relata Gomes.

Ele prossegue: “Segundo rumores nunca confirmados, Leopoldina teria quebrado um fêmur e esta seria a causa de sua morte, algumas semanas mais tarde. Ao analisar os restos mortais da imperatriz, Valdirene Ambiel demonstrou que Leopoldina nunca teve um fêmur quebrado. Isso em nada melhora a imagem e a reputação de dom Pedro como um homem abusivo, mas ajusta a compreensão do fato histórico”, afirma o escritor.

“Tenho enorme admiração por Valdirene. Usa pesquisa de ponta, com tecnologia avançada, já muito comum em outros países, mas ainda uma novidade no Brasil. E faz tudo isso sem alarde, mantendo um perfil relativamente discreto, até mesmo humilde, sem a arrogância e a pretensão que dominam certos círculos acadêmicos”, diz Laurentino Gomes. “Sou fã incondicional dela”.

Em março deste ano, Valdirene Ambiel, aos 51, defendeu a tese de doutorado na Faculdade de Medicina da USP. Voltou a debruçar-se sobre os restos mortais —ou os livros, como na analogia relacionada aos mortos de que tanto gosta— da família imperial. Com o apoio de cerca de 20 mil imagens de tomografia computadorizada e registros médicos, foi capaz de realizar a aproximação visual de dom Pedro 1º e das imperatrizes Leopoldina e Amélia.

Por causa do trabalho, concedeu uma série de entrevistas à imprensa. Leu, em comentários de redes sociais e sites de notícias, alguém questionar a importância das suas descobertas.

Então lembrou do tio Allan Kardec, que desapareceu quando ela tinha 8 anos. Aprimorada, a tecnologia de reaproximação facial pode ajudar famílias a descobrir se determinados restos mortais são de seus desaparecidos.

“Quero encontrar respostas”, ela diz. “Talvez, ao optar pelo estudo científico da morte, eu esteja movida pelas ausências”. Do tio, da mãe e do sentido para a vida — que ela, depois de tantos zigue-zagues, parece ter encontrado.

Fonte: Universa/UOL

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