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‘Bebia água do gado e dormia com ratos. Hoje ajudo gente na mesma situação’

O agricultor Marinaldo Soares, de 51 anos, natural de Pindaré Mirim, no interior do Maranhão, foi resgatado por duas vezes do trabalho em condições análogas à escravidão. O segundo resgate foi de uma fazenda no interior do Pará onde plantava capim para alimentar gado.

Ele conta que matava a sede com água poluída, a mesma servida ao gado, dormia em uma casa abandonada ao lado de morcegos, ratos e cobras e estava preso a uma dívida eterna, que só crescia a cada R$ 13 cobrados por um pedaço de carne salgada servida no almoço.

O resgate aconteceu após um dos escravizados fingir estar doente e conseguir sair da fazenda com o pretexto de ir ao médico. Ele procurou a polícia, fez a denúncia e Marinaldo, junto com outros trabalhadores, viram a sua agonia ter um fim. “Eu achava que tinha que passar por isso porque era preto e pobre. Mas depois que fui resgatado, descobri o meu direito”, diz ele a Ecoa.

O primeiro patrão, segundo Marinaldo, foi condenado a pagar pelo serviço que ele e os demais resgatados prestaram, mas não foi condenado pelas práticas análogas à escravidão. O segundo, autuado em flagrante, não foi preso. Levou uma multa e também foi condenado a pagar os valores devidos aos trabalhadores.

Foi a descoberta de seus direitos que motivou o agricultor a iniciar, em 2013, um trabalho voluntário como agente de combate à escravidão no Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos Carmem Bascarenhas (CDVDHCB), sediado no Maranhão.

“Quando eu vi que eles me ajudaram a ser resgatado, eu fiquei muito comovido e quis ajudar outras pessoas”, recorda. O primeiro desafio foi a regulamentação de salários de 18 garis, que estavam atrasados havia quatro meses.

Salários de garis

À época, lembra Marinaldo, um novo prefeito havia acabado de assumir a gestão e se recusou a pagar os salários atrasados. “Ele disse que não tinha obrigação porque quem devia era o prefeito anterior. Tinham garis com quatro e até cinco meses atrasados”, completa.

Com o apoio da equipe do Centro de Defesa, que contava com um advogado, foi movida uma ação junto ao Ministério Público do Trabalho e os salários atrasados foram pagos. “Desde esse tempo eu comecei a prestar serviço para a comunidade, dando alertas, realizando reuniões sobre trabalho escravo”, conta.

As duras experiências vividas pelo agricultor durante o período em que trabalhou em condições análogas às de escravidão serviram para que ele trouxesse alertas detalhados sobre os riscos de ser escravizado.

No último emprego, na fazenda paraense, Marinaldo recorda que o local de trabalho ficava muito distante da estrada, o que dificultava o pedido de socorro. Segundo ele, o grupo de trabalhadores foi dividido em subgrupos de cinco pessoas, provavelmente para evitar a organização de fugas. As ameaças e intimidações eram constantes.

“Aqui [Pindaré Mirim] é muito ruim de serviço, por isso as pessoas viajam para trabalhar fora. Eu alerto as pessoas que não se deve viajar para um lugar sem saber exatamente como é e sem avisar a família”, conta ele.

Denúncia ao Ministério Público

Marinaldo relembra outro caso marcante na sua trajetória. Quando virou uma referência para receber denúncias, um agricultor que vinha sendo escravizado em uma fazenda, localizada na estrada de Alto Alegre, área rural de Pindaré Mirim, o procurou descrevendo uma situação na fazenda onde trabalhava e tinha conseguido pedir demissão.

“Ele disse que o pessoal dormia em um curral, no meio da lama e do cocô de vaca. A comida era só feijão, feito com sal e água, e arroz”, explica. Ainda segundo Marinaldo, a denúncia dava conta de que os trabalhadores estavam sem receber pagamento, mas quando perguntaram ao fazendeiro, ele respondeu que já havia passado o pagamento para o empreiteiro.

O agricultor conta que formulou a denúncia no Ministério Público do Trabalho e um grupo móvel da Polícia Federal entrou na fazenda, comprovou a situação de escravidão e resgatou os trabalhadores. Os dois homens resgatados vivem hoje no estado de Santa Catarina.

Reconhecimento

Após este episódio, o nome de Marinaldo correu a região e ele ficou mais conhecido. Em 2015, foi indicado para receber o Prêmio Nacional dos Direitos Humanos do Ministério da Justiça, em reconhecimento à sua atuação no combate ao trabalho análogo à escravidão.

Naquele ano, o então Ministro da Justiça Alexandre Moraes entregou o troféu em suas mãos. “Eu nem acreditava [que ia ganhar] quando me chamaram para receber esse prêmio. Para mim, foi um prazer muito grande saber que eu estava sendo visto como um defensor dos direitos humanos.”

Na avaliação de Marinaldo, os últimos quatro anos foram de retrocesso. “Piorou muito a escravidão. Agora, eu estou vendo algumas coisas serem feitas, mas é preciso fazer mais, porque para o trabalho escravo deixar de existir é preciso que mais gente se importe”.

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Fonte: Ecoa/UOL

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