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Deputada descobre ser autista aos 47: ‘Mascarei sintomas e já quis morrer’

A deputada estadual Andréa Werner (PSB-SP), 47, cresceu recebendo cutucões embaixo da mesa. Ela e uma amiga de adolescência tinham um código para alertá-la toda vez que falava demais. A pecha de “garota estranha” e “sem noção” —bem como a obsessão por objetos e assuntos— a levou a desenvolver problemas de autoestima que se transformaram em depressão. Com medo de estigma, mascarou sintomas. Evangélica, rezava a Deus para morrer. Considerava a vida uma experiência “horrível”.

Já adulta, mesmo tendo gabaritado os testes de superdotação e altas habilidades, a jornalista nascida em Belo Horizonte (MG) não conseguia se fixar nos empregos. O feedback era sempre o mesmo: dificuldade de socialização.

Em 2010, quando seu filho recebeu diagnóstico de autismo, Werner começou a estudar a condição. Criou um blog, que logo se tornou um instituto, e escreveu livros para falar de sua experiência como mãe. Virou uma referência no assunto e, com a bandeira da inclusão, foi eleita para a Assembleia Legislativa de São Paulo com 88.772 votos.

Com diagnóstico de TDHA (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade) depois de adulta, Werner sentia que havia pontas soltas em sua história que precisava investigar. No início deste ano, ela procurou uma clínica de São Bernardo do Campo (SP) especializada em diagnósticos em adultos. A investigação resultou em um relatório de 29 páginas e apontou o que pessoas próximas já desconfiavam: ela também era autista.

O diagnóstico serviu como chave de compreensão para diversas passagens de sua vida das quais ainda carrega marcas profundas.

Em entrevista a Universa, a deputada falou pela primeira vez sobre o percurso até o diagnóstico.

Universa: Como foi o seu processo até receber o diagnóstico de autismo?

Andréa Werner: O processo durou mais ou menos seis meses. Começou no início do ano. Foram pelo menos 13 consultas com psicólogos e psiquiatras. Entrevistaram os meus pais, meu marido, amigos. Isso tudo gerou um relatório de 29 páginas. É difícil identificar transtornos do desenvolvimento em adultos, principalmente quando a gente fala de grau um de suporte, que antes era chamado de “autismo leve”, que é o meu caso. As mulheres, principalmente, costumam mascarar os sintomas.

O que mais te chamou atenção no relatório?

O relato dos meus pais. Minha mãe falou que eles me consideravam uma criança “avoada”. Eles me chamavam e eu não ouvia. E isso é um sinal clássico de autismo. Eu adorava andar descalça. Meu filho também só andava descalço quando era pequeno. Eu gostava de brincar de argila, era aficcionada pela mesma bota e não tinha muita noção do perigo. Isso é muito característico.

Que sinais a levaram a procurar o diagnóstico?

Minhas amigas me diziam: “Andréa, você já percebeu que você tem rigidez? Que toda vez que a gente vai a Brasília você quer comer no mesmo restaurante, fica no mesmo hotel e senta na mesma cadeira do avião? Você já percebeu que se balança?” Eu brigava quando alguém me dizia que eu me balançava. Um dia me filmaram, para eu poder acreditar. Comecei a lembrar de algumas coisas da minha infância e as coisas começaram a fazer um pouco mais de sentido. Teve uma vez que eu vi meu filho deitado no chão, bem encostadinho na parede, e falei: “Ele está fazendo isso porque a parede é geladinha”. Eu fazia isso quando era criança.

E em relação ao passado? O que o diagnóstico te ajudou a compreender?

Tem uma coisa que é unânime para todos os autistas, e é a história da minha vida: as pessoas se afastam e não entendemos o porquê. Eu sofria bullying. Na igreja evangélica em que cresci, uma “amiga”, bem entre aspas, me falava: “Olha, o fulano não gosta de você porque você é sem noção. Então, quando você começar a falar coisas nada a ver, eu vou falar assim ‘Andréa, e o Guilherme?’. Vai ser o nosso código”. Uma vez a gente estava na porta da igreja, eu estava feliz, conversando com alguém, e aí do nada, ela vira e fala: “E o Guilherme?” Eu congelei completamente. Não tinha noção do que eu tinha falado de errado. As pessoas acham que os problemas de comunicação de autistas são falar pouco ou não falar. Mas para alguns é falar demais.

Você tinha hiperfocos?

Sim. Teve uma época em que eu queria fazer aniversário para meu cachorro, aí eu só falava disso. Eu pedia dinheiro para o meu pai, fazia a sacolinha de lembrancinha e o hiperfoco era no aniversário. Atualmente é estudar sobre neurodiversidade. É mais difícil perceber traços de autismo em mulheres.

Por quê?

Tem questões culturais. Também fui diagnosticada com superdotação e altas habilidades e isso, segundo a psicóloga, ajudou na questão do mascaramento. Eu não sabia que era autista, mas sabia que tinha alguma coisa. Sempre tive essa questão de inadequação e cresci recebendo cutucão embaixo da mesa. Uma característica de meninas autistas é que elas arrumam uma amiga e começam a imitar. Para mim essa pessoa era minha irmã. Ela sempre foi meu modelo da feminilidade. Ela era tímida, falava baixinho, e sempre fui a pessoa que não sabia modular o tom de voz. Então, quando eu fiquei cansada de receber cotovelada, comecei a imitar a minha irmã. No relatório, meu pai disse que teve uma época em que eu esperava a minha irmã se vestir para eu me vestir e poder sair. Na adolescência, meu pé cresceu e ficou maior que o da minha irmã. Devo ter ficado uns dois anos usando sapato apertado no pé porque eu não admitia calçar mais que a minha irmã. Eu queria modular socialmente o comportamento da minha irmã, mas falhei miseravelmente.

Essa sensação de “fracasso” era uma constante para pessoas com grau de suporte 1, não?

Porque, embora mais leve, é também o grupo mais propenso à depressão e ao suicídio. Sim. Teve uma época, na adolescência, que tive depressão. No final dos anos 80, início dos anos 90, era um estigma enorme. E eu tinha tantas questões de autoestima que naquela época lembro de uma vez minha mãe falar: “Se você não parar com isso, vou te levar a uma psicóloga”. Era quase falar “vou te levar para o manicômio”. Foi um choque tão grande que comecei a disfarçar melhor minhas questões. Frequentei a igreja desde pequena e sabia que suicídio era pecado. Então, com todo esse senso de inadequação, achava viver horrível, ficava orando, pedia a Deus para morrer, porque não podia me matar.

Como foi a reação das pessoas quando você falou sobre o diagnóstico?

Algumas pessoas não esboçaram nenhuma surpresa. Elas apontavam sinais em mim. Eu jurava que fazia contato visual. Até que comecei a receber feedbacks de que o meu contato visual é horrível com pessoas que acabei de conhecer ou não tenho intimidade.

Isso causou que tipo de constrangimento?

Antes de ser deputada, e antes do diagnóstico do meu filho, eu trabalhava em uma multinacional. Entrei por um programa de trainee difícil de passar. E constantemente recebia feedbacks negativos, principalmente na questão da atitude e do relacionamento interpessoal. Lembro do meu chefe dizendo que eu não podia sair para almoçar só com as pessoas de quem eu gostava. Tinha que fazer um social. E isso pra uma pessoa autista é a morte, você ter que fingir e forçar situações com quem você não tem afinidade. Eu tenho muita dificuldade de mentir. Se você me pegar de surpresa, vou engasgar. Então a minha maior dificuldade nas empresas era isso: essa modulação do comportamento que tem a ver com fingir aquilo que você não é ou aquilo que você não quer fazer.

E isso no mundo corporativo é precioso. É assim que você é promovido. Um dos feedbacks dizia que eu era séria, ficava de cara fechada, e as pessoas tinham medo de se aproximar de mim. De certa forma falar sobre isso é bom porque agora as pessoas vão saber que não sou mal humorada. Se faço cara feia é porque tenho dificuldade de modular as minhas expressões faciais de acordo com o contexto.

Os espaços de convívio social estão hoje mais preparados para lidar com pessoas autistas?

O espaço de acolhimento para pessoas autistas é bem ruim. Aprendi a ler precocemente, sozinha. E, mesmo tendo altas habilidades e superdotação, repeti a oitava série. Naquela época, a psicofobia em torno desse tipo de coisa era tão gigantesca que não sei se para minha autoestima teria sido melhor ou pior saber desse diagnóstico antes. Hoje a gente está caminhando a passos bem lentos. Meu filho está super bem incluído em uma escola pública regular. Ele tem uma acompanhante dentro da escola, tem uma professora de educação especial. Mas é exceção. Normalmente falta tudo.

Para a maioria das pessoas, o próprio acesso ao diagnóstico é difícil. Quem tem diagnóstico de autismo grau um no Brasil é privilegiado. Não é barato.

E no SUS?

Conversei sobre isso com o ministro Sílvio de Almeida, dos Direitos Humanos. Contei para ele em primeira mão sobre o meu diagnóstico e falei que a gente precisa trabalhar para mudar esse cenário no SUS, para ter mais médicos qualificados para fazerem esse diagnóstico, porque passou da hora de o diagnóstico ser direito e não mais privilégio.

Qual a importância de ter um diagnóstico depois de adulto?

Quando se diagnostica uma criança, estamos pensando no futuro, em sua autonomia. Quando diagnosticam um adulto, eles vão tratar o passado, porque são pessoas que sofreram com inadequação e tiveram a autoestima destruída sem saber o motivo. Então você vai tentar curar esse passado através do diagnóstico. Quando vim para São Paulo, passei no concurso de trainee mais concorrido para ser demitida dois anos e meio depois, ouvindo o RH dizer que talvez eu fosse um erro de seleção. Também fui demitida de uma empresa depois que voltei da licença-maternidade.

Foram pequenos massacres que sofri ao longo da vida por questões relacionadas ao autismo e ao TDAH. Parece que encaixou tudo. Eu conheço muitos autistas que estão dentro de grandes multinacionais e que não falam que são autistas porque têm medo de sofrer o que sofri há 20 anos. Esse discurso de que somos todos iguais é horroroso. Somos iguais em direitos, mas as pessoas são diferentes. As mulheres autistas estão mais propensas a sofrer violência sexual, porque acreditam mais nas pessoas, desconfiam menos porque têm menos leitura social.

Como você contou a notícia do seu diagnóstico para seu filho?

O autismo é uma questão genética. Se eu tivesse casado com outra pessoa e eu tivesse tido um filho neurotípico, provavelmente nunca descobriria que era autista. Fiz questão de sentar com ele e falar: “A mamãe descobriu que é autista igual você. E é por isso que você é autista, porque saiu da barriga da mamãe”. Ele não fala, mas entende tudo. Ficou com um sorrisinho ótimo na cara. Agora ele se sente menos sozinho dentro da própria casa.

Fonte: Universa/UOL

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