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Jovem da periferia de SP detecta 9 asteroides e aguarda confirmação da Nasa

“Todo mundo gosta de olhar para o céu, sabe?”, diz Ana Beatriz Rodrigues, 18 anos. “A diferença é que eu aprendi a estudá-lo”. E muito bem. Ano passado, ela foi uma das homenageadas pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil após detectar 9 asteroides. Precisou fazer uma rifa para conseguir ir ao evento, que aconteceu em Brasília.

Se a NASA, parceira do projeto, confirmar as descobertas, o que deve acontecer até o fim de 2023, Ana receberá outros prêmios. E poderá dar nome às suas descobertas, ela já decidiu como se será: CPSMEM – Cursinho Popular São Mateus Em Movimento, onde estudou com tantos outros jovens sonhadores feito ela é.

Nascida e crescida em São Mateus, periferia da zona leste de São Paulo, a filha do Márcio e da Maria Gildete, percebeu no ensino médio que fazia mais que achar bonito aquele céu todo do seu bairro. Queria os seus porquês. “De olhar pra ele eu sempre gostei, desde criança. Mas estudar mesmo foi no primeiro ano, quando os professores me incentivaram”. Aqueles encontros que mudam tudo.

O primeiro foi com Artur Luciano, seu professor de Física que logo foi para a coordenação da escola. Chegou aquela tristeza de ver embora alguém que incentivava a classe a ter um olhar diferente e encantado para uma matéria que muita gente acha tão difícil. Alguns, até chata. Mas aí veio o João Trencher, e Ana ganhou uma poderosa dupla de incentivadores.

“Eles viam um talento em mim. Me colocavam em cursos de Física e eu pensava o que fazia ali, sem perceber que aos poucos me apaixonava por tudo aquilo”, relembra. Foi de curso em curso, e foram 38 deles até o dia da nossa conversa, que Ana Beatriz navegou pelas mais diferentes áreas, até entender onde o seu coração batia mais e melhor. Até se encontrar, um dia, com os asteroides que descobriu. Ou, oficialmente, detectou.

Sobre o incentivo que recebeu, o convite à curiosidade que ganhou em sala, Ana sabe bem que nem todas as professoras e professores conseguem fazer isso. E que nem de longe é culpa ou responsabilidade de quem tem turmas e mais turmas, todos os dias, para dar conta. Falta ao país, ela defende, um projeto de educação que valorize quem anda sobrecarregado demais, com quase nenhum apoio e reconhecimento. Sobre quem recai todo tipo de cobrança, como se o problema da educação brasileira não fosse estrutural.

“Por exemplo, o meu professor Arthur dava aula em várias escolas ao mesmo tempo. Ele precisava fazer isso. Agora, imagine como era corrido sair de uma, não ter tempo nem de respirar, e já ter que correr para a outra?”, se indigna. “Então, tem muitas coisas que a gente tem que pensar bem antes de falar que um professor precisa valorizar mais o aluno, sabe?”.

Ana sabe bem que adoram resumir uma história como a sua ao encontro de uma aluna esforçada com professores dedicados. Explica, as coisas não são tão simples, nem tão simplistas, assim. Só quem não entende a realidade do país faz um resumo tão raso de quem consegue acessar espaços como os que vem acessando.

“Tenho muitos amigos que desistiram da escola por não terem o que comer em casa”, desabafa. “Quando a professora pediu a um colega que não parasse os estudos, que pensasse no futuro, ele respondeu: mas eu tô com fome agora e aqui não tem merenda. O que eu devo fazer? Dói e arrepia escutar isso”, diz emocionada.

Com a família de Ana Beatriz aconteceu algo parecido, algum tempo atrás. O que prova que não avançamos quase nada, em tanto tempo, rumo à uma educação verdadeiramente de qualidade às periferias e favelas brasileiras. Aos empobrecidos.

“Meu pai teve que largar a escola muito novinho porque meu avô morreu e ele tinha que sustentar a casa. Já a minha mãe não pôde avançar nos estudos para cuidar da casa da sua família. Os dois são meu total exemplo, entende? Dizem o tempo todo que minha irmã e eu vamos estudar, porque eles não tiveram essa oportunidade”.

Essa é uma história sobre quem descobriu asteroides, e sobre quem nem teve a chance de saber que poderia descobrir algum, um dia.

‘Falta gente na Ciência, mas não falta gente rica na Ciência’

As lágrimas de felicidade ao descobrir que havia passado no vestibular da UNICAMP há poucas semanas confundiram o pai. A notícia chegou pelo celular, Ana conta.

“Depois de umas três horas nem acreditando que aquele momento havia chegado, eu sai correndo e o abracei. E ele já começou dizendo que eu devia relaxar, que dá próxima daria certo, que a vida é assim mesmo e eu tentando explicar que havia conseguido”. Agora é engraçado, mas na hora foi uma multidão de emoções sem muito nome.

Ana Beatriz foi aprovada em cinco universidades. Escolheu o céu e os estudos em Física em Campinas, na UNICAMP. Para conseguir passar num dos vestibulares mais disputados do país, contou com as aulas da Uneafro Brasil. A rede de pré vestibular comunitário atende gratuitamente 2.100 jovens pobres e negros todos os anos, em 42 núcleos de estudos. Um deles foi justamente na escola em que Ana estudava, o Cursinho Popular São Mateus Em Movimento.

Quando conversamos, Ana corria com um trabalho temporário de sexta a domingo para conseguir levantar dinheiro para não apenas ir à universidade, mas conseguir se manter por lá. Não é nem um pouco barato, ela explica.

“É muito desesperador você conseguir passar em um vestibular tão importante e talvez não conseguir entrar na faculdade por conta da falta de condições básicas. Isso dói não só no ensino superior, dói no ensino médio, quando você às vezes tem que largar tudo para sustentar a sua família”. Como o exemplo que ela contou antes, e muitos outros.

Não são poucas as barreiras para que alguns consigam, pelo menos, sair do mesmo ponto de largada de tantos outros. Não deveria ser assim, se educação é um direito básico de toda e qualquer pessoa. “Falta gente na Ciência, mas não falta gente rica na Ciência”, finaliza a futura cientista. **

Fonte: Ecoa/UOL

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