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Medo de ser acusado de assédio tem deixado homens nervosos no trabalho?

Um alto executivo britânico, demitido em maio depois de ser acusado de assédio sexual, disse que os homens estão “cada vez mais nervosos de trabalhar com mulheres”.

Segundo ele, “as pessoas estão dizendo que serão muito cautelosas no futuro sobre como interagir com as mulheres no mundo dos negócios”.

Esse alerta tão generoso (contém ironia) foi feito por John Allan, um homem branco de 74 anos, que perdeu os cargos de comando de duas das maiores empresas do Reino Unido, a rede de supermercados Tesco e a construtora Barratt Developments.

Nenhuma delas reconheceu a má conduta de seu presidente. Ao contrário, tomaram essa difícil decisão de afastá-lo apenas porque o jornal “The Guardian” publicou, há pouco mais de um mês, acusações de quatro mulheres. Duas delas disseram ter sido tocadas pelo chefe, e outras duas
apontaram comentários inapropriados sobre suas aparências.

O executivo não gostou da decisão, resultado de “denúncias infundadas e anônimas”, e se queixou de ter sido “atirado para baixo do ônibus”, porque as empresas “precisavam ser vistas fazendo algo”.

Conversei com a publicitária Nana Lima, co-fundadora da consultoria Think Eva, de igualdade de gênero no mundo corporativo, sobre essa reação do agora ex-presidente da Tesco. Ela comentou que “o privilégio masculino é tão presente que o próprio agressor se sente a vítima quando as denúncias de assédio vêm a público”.

“Uma fala como essa, vinda de um homem em posição de liderança, reforça o que a gente chama de ciclo do assédio: o agressor sai impune e com a reputação dele intocada, mas a vítima, além de todo o prejuízo emocional e profissional, ainda tem o trauma invalidado ou tem que escutar que destruiu a carreira do agressor”, afirma Nana.

Sobre o “nervosismo” masculino, ela comenta que “parece que a gente está falando com crianças”.

“Se essa constatação é verdadeira e os homens estão realmente preocupados em trabalhar, conviver, mentorar mulheres por possíveis denúncias de assédio, isso só reforça a necessidade de as empresas capacitarem todos os funcionários sobre o que é assédio e o que é consentimento”, explica.

Com o aumento de denúncias que temos acompanhado, diz Nana, os prejuízos passarão a ir além do impacto sobre os envolvidos: “Estamos falando de prejuízo institucional, social e reputacional, de crise de imagem.”

O caso britânico mostra que Nana tem razão: as empresas agem quando percebem o prejuízo para a marca. Quando o assédio ameaça os lucros, a violência de gênero deixa de ser tolerada.

Os homens estão nervosos, sim, mas só por se verem diante da necessidade de compartilhar funções, salários e, quem sabe, privilégios com mulheres que não aceitam mais ficar no lugar que eles acham que merecemos.

Fazer comentários sobre a aparência de uma funcionária é lembrá-la que, antes de ser avaliada pelo seu trabalho, ela será analisada por seu corpo e pelo modo como se veste.

Quando um homem tenta tocar numa subordinada, ele faz com que ela fique acuada, sem reação, intimidada e com medo. Se ela disser “sim” a uma interação sexual, esse consentimento não é dado de forma livre. E, portanto, não é válido. O homem que comete assédio sexual em uma empresa sabe disso. Só finge que não.

Fonte: Universa/UOL

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