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MNU completa 45 anos: grupo potencializou a resistência negra na ditadura

Integrantes da Marcha do Movimento Negro Unificado, em São Paulo, em 1979 – Imagem: Folhapress

O MNU (Movimento Negro Unificado) completa 45 anos. A data é marcada pelo histórico ato público realizado em 7 de julho de 1978 nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo. Ali, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, como se chamava naquele momento, ampliava os espaços da luta política produzindo novas estratégias de enfrentamento ao racismo brasileiro.

Celebrar a trajetória aguerrida do MNU é recobrar sentidos sobre nossas experiências de vida e embates numa sociedade onde o racismo – e suas interseções com machismo, LGBTfobia e transfobia, por exemplo – está colocado como operador de relações socioculturais e políticas que toma de assalto nossos corpos, saberes, sonhos, afetos e autoestima. Um conjunto de mecanismos que excluem, segregam, violam e matam gente negra e indígena neste país.

Todavia, os movimentos negros – e aqui falando especialmente do MNU – nos ensinam sobre outras formas de enxergar e intervir no mundo em que vivemos. Essas entidades com seus personagens sociais nos mostram possibilidades de existir de forma aquilombada, enfrentando os mecanismos de destruição da vida da nossa gente no Brasil.

Ali se firmou uma ampla agenda de lutas para a população negra e o MNU assumia um lugar relevante no fortalecimento das lutas de diversas organizações e entidades negras em todo o Brasil. De norte a sul, diversas organizações negras (antigas e novas) foram ampliando sua autonomia, ganhando identidade, refinando suas intervenções políticas, engajando novos sujeitos na luta por direitos.

Importante ressaltar que as experiências do MNU não podem ser lidas numa chave de excepcionalidade, ainda que seja inquestionável sua importância no cenário de reorganização de coletivos negros durante a ditadura militar e nos tempos que se seguiram quando de seu fim, denunciando sistematicamente o racismo e pautando estratégias essenciais de reparação histórica e de defesa dos direitos da população negra brasileira.

Ampliando cenários da luta por cidadania: entidades negras na Amazônia
Em 1988, o Iser (Instituto de Estudos da Religião) publicou um Catálogo de Entidades Negras no Brasil onde indicava a existência de quase 400 organizações. Sua distribuição espacial era irregular, mas é importante notar que só não existia registro de organização negra em três estados do país.
Os movimentos negros ao redor do Brasil catalisam aspectos da vida política, social e cultural de diferentes parcelas da população negra (preta e parda) nas suas respectivas regiões, espelhando elementos locais da identidade sociocultural dessas entidades negras.

Olhar para a Amazônia é justificado porque ainda existe uma leitura equivocada sobre a região quanto à densidade e importância da presença negra ali.
Dois anos mais novo que o MNU, o Cedenpa (Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará) é uma das organizações negras mais conhecidas da Amazônia brasileira. Fundado em 10 de agosto de 1980, a entidade completará, em breve, 43 anos de compromissos com a construção da cidadania da população negra do Pará, na cidade e no campo, onde tem atuado, de modo particular, em defesa dos direitos quilombolas.

O Centro de Estudos retoma e ressignifica uma importante dimensão social de Belém: a presença e o protagonismo da gente negra na capital paraense. Importante lembrar que, desde fins do século XIX, projetos de cidade eugenistas se empenharam em apagar o povo negro (pretos e pardos) das áreas centrais de Belém, empurrando-os para zonas periféricas e inviabilizando expressiva parcela da população, cujas práticas culturais e sociabilidades são tomadas como expressões folclóricas de um passado natimorto.

E o Cedenpa se projeta aqui como importante articulador de ações, projetos e agendas da população negra paraense, engajado na ampliação da visibilidade da presença negra em diferentes dimensões da vida na região, no fortalecimento da autoestima coletiva e, principalmente, na luta pela cidadania da gente negra por meio da construção de políticas públicas nessa perspectiva. Também participa de vários coletivos e entidades que atuam de modo sistemático na mesma direção, entre eles, a Articulação de Organizações de Mulheres Negras Brasileiras e a Coalizão Negra por Direitos.

Em outra dimensão, vale destacar a organização e participação do Axé Dudu, bloco afro vinculado à entidade, nos desfiles de carnaval em Belém a partir de 1987, revelando estratégias de inserção social, valorização e politização das manifestações culturais negras enquanto um dos instrumentos de denúncia e enfrentamento do racismo mobilizados pela instituição. Como registrava o jornal O Liberal, de 01 de fevereiro de 1989: “quando o Axé Dudu sai pelas ruas, os integrantes do bloco querem é despertar o orgulho dos negros pela sua raça”. Afinal, a autovalorização do ser negro e a compreensão de sua realidade/condição social estavam – e estão – nas diretrizes dessa entidade paraense.

A potência do Cedenpa está espelhada também na figura de duas mulheres negras que fundaram a entidade em Belém: Nilma Bentes e Zélia Amador de Deus, cujo ativismo e articulação político-institucional vem ampliando canais de visibilidade quanto ao debate étnico-racial na sociedade paraense e brasileira.

Descomunais distâncias amazônicas não são suficientes para impedir diálogos da luta da gente negra. Em Manaus, capital do Amazonas, o Moan (Movimento Alma Negra) foi fundado logo depois do MNU, em 9 de maio de 1980, pela iniciativa de Nestor Nascimento, reconhecido ativista, advogado, jornalista e pertencente ao Quilombo Urbano do Santo Benedito, comunidade certificada pela Fundação Palmares, tendo se constituído em uma figura paradigmática para representar a luta negra no Amazonas por cidadania.

A conjuntura em que essas duas entidades se institucionalizaram deve ser tomada em perspectiva, mas é preciso dizer que essa simultaneidade não pode ser lida apenas como uma repercussão derivada do ato em São Paulo. Mas também como uma resultante do amadurecimento de trajetórias de uma guerra sem fim que já atravessava gerações de gente comprometida com esse debate.

Enquanto o Cedenpa, no Pará, vinha de um diálogo político relevante com o Cimi (Conselho Indigenista Missionário); no Amazonas, o Moan, criado dentro da Universidade Federal do Amazonas, reunia diferentes grupos de intelectuais e ativistas culturais, de formação e atuação variadas (advogados, jornalistas, atores, estudantes universitários, capoeiristas, entre outros), em uma única entidade. Dito de outro modo, suas trajetórias institucionais se alinham, mas não se subordinam.

Um ditado africano diz: “Quando as teias de aranha se juntam, elas podem amarrar um leão”. Quando as organizações negras e suas diferentes teias se unem, em convergência, elas provocam mudanças significativas no curso da nossa História. É sobre isso que assentamos nossas esperanças renovadas na luta cotidiana por cidadania.

*Benedito Emílio Ribeiro é professor substituto da Faculdade de História, Campus Bragança, da Universidade Federal do Pará (UFPA). É Mestre em Diversidade Sociocultural pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), membro da Rede de Historiadoras Negras e Historiadores Negros (RHN), do GT Os Índios na História e do GT Emancipações e Pós-Abolição, da Associação Nacional de História – ANPUH.

Fonte: Patricia Alves Melo colunista do UOL e Benedito Emílio Ribeiro *

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