Artigos de menuUltimas notícias

O que acontece no seu corpo quando você deixa de sair de casa e se isola

Imagem: Arte UOL

Se você nada sofreu com o isolamento social forçado pela pandemia porque o seu modelo de vida ideal é não ter de sair de casa e socializar o menos possível, saiba que esse comportamento já foi equiparado ao tabagismo, ou seja, um fator de risco associado ao aparecimento de doenças e à morte precoce.

Viver sozinho e com pouco ou nenhum laço social tem sido cada vez mais comum, e a sugestão das autoridades sanitárias de todo o mundo é que os médicos estejam atentos a esse fenômeno.

Afinal, ele é considerado um sinal de alerta para a presença de problemas socioeconômicos, estilo de vida pouco saudável, redução do bem-estar mental, dificuldade de acesso a serviços de saúde, etc.

25% da população dos Estados Unidos com mais de 65 anos vive em situação de isolamento social; a prevalência da solidão é de 22% a 47%.

Cerca de 11 milhões de pessoas moravam sozinhas no Brasil em 2021 (a maioria homens); 60% do grupo feminino tinha 60 anos ou mais.

Entre os jovens, a geração Z (nascidos no final da década de 1990 até 2010) é a mais isolada.
Dados da Universidade de Harvard.

Não confunda!
Isolamento social e solidão são coisas distintas.

O primeiro é definido como a baixa frequência de contato social com pessoas da família, amigos, membros da mesma comunidade ou grupo religioso.

Já a segunda é um estado emocional descrito como uma percepção subjetiva de tristeza, dor e vazio pela falta de proximidade e interação com outras pessoas. Em outras palavras, é ter menor conexão social do que o desejado.

Sim, é possível ter uma vida relativamente isolada e não se sentir sozinho. Um exemplo é a busca pelo isolamento com o objetivo de reflexão e autoconhecimento.

A essa iniciativa se dá o nome de solitude, que se associa a um sentimento positivo de prazer e fortalecimento da autoestima.

O que você ganha com isso
Seja voluntária ou involuntariamente, a falta excessiva de interação social pode ter como consequência variadas mudanças fisiológicas que abrangem o sistema nervoso central e o cardiovascular, a resposta ao estresse e processos inflamatórios, a qualidade do sono, o padrão das excreções de hormônios como o cortisol, bem como as defesas do organismo.

Embora ainda não exista comprovação da relação de causa e efeito, todas essas alterações têm sido associadas ao aparecimento de determinados quadros, destacando-se:

Doenças cardiovasculares
Depressão
Adoção de comportamentos nocivos à saúde
Mudanças no padrão do sono

Você trabalha contra a saúde do coração

As evidências científicas mais robustas se referem à conexão entre o isolamento e a solidão e doenças cardiovasculares, em especial o infarto e a hipertensão, além de altas taxas de internação relacionadas a esses quadros.

Pessoas nessas condições têm 30% a mais de risco de ter infarto ou AVC (Acidente Vascular Cerebral) e de eles serem fatais.

Para os que já têm doença coronariana ou tiveram um AVC, as consequências da doença são piores.

50% das pessoas que têm laços sociais sobrevivem a um episódio de infarto, independente de serem homem ou mulher (provavelmente porque o socorro é mais rápido).

O isolamento social durante a infância tem sido associado a riscos de obesidade, hipertensão e aumento da glicemia.

Você identifica mudanças no seu humor
Ao limitar contatos sociais, reduzem-se as chances de ter relacionamentos de qualidade. Estes são reconhecidos como fatores de proteção contra sintomas depressivos e a depressão, inclusive no período do pós-parto.

A depressão pode levar ao isolamento social, e este colabora para o aparecimento dela.

Sentir-se desconectado dos outros já foi associado ao maior risco para suicídio e sua ideação, o que pode ser agravado em grupos de pessoas com doenças como a esclerose múltipla, por exemplo.

Doenças neurológicas como demências e Alzheimer também estão relacionadas.

Você simplesmente ignora os hábitos saudáveis
Quanto mais tempo se passa em casa, maior é a possibilidade de fazer escolhas nocivas à saúde.

Sem o confronto do círculo familiar ou dos amigos, as pessoas (incluindo os jovens) tendem a abusar do álcool, do tabaco, adotam dietas pouco saudáveis, deixam de aderir a tratamentos médicos e, sobretudo, adotam comportamentos sedentários.

Deixar de sair e se movimentar com regularidade prejudica as articulações e a saúde óssea, especialmente a feminina.

Os ossos do fêmur e de todas as regiões ligadas ao quadril podem perder suas densidades mais rapidamente, ou seja, as quantidades de minerais que garantem que eles se mantenham fortes.

Com a saúde dos ossos prejudicada e sem o devido suporte muscular, o risco de quedas e fraturas só aumenta.

Um dos primeiros sintomas observados são as dores. A do joelho é bastante comum entre homens e mulheres.

Para aplacar a dor de todos os tipos, a tendência é abusar da automedicação com analgésicos e antiinflamatórios.

Você já não consegue descansar como antes
Sedentarismo, que uma pessoa socialmente isolada já está mais prediposta a sofrer, tem relação com a baixa qualidade do sono e a sensação de cansaço.

Soma-se a isso a possível maior exposição às mídias digitais —já que não tem ninguém para conversar—, o que também pode tirar o sono em pessoas mais sensíveis.

Dados da Associação Brasileira do Sono mostram que mesmo a atividade física de baixa intensidade melhora sintomas diurnos e noturnos da insônia.

Um estudo recente publicado na revista on-line BMC Public Health concluiu que, independentemente do sexo, quanto maior for o tempo de sedentarismo, mais forte é a associação com a baixa qualidade do sono e os sintomas relacionados: sonolência no dia seguinte e sensação de cansaço constante.

Grupos mais suscetíveis

Jovens no final da adolescência e idosos, mas também indivíduos socialmente vulneráveis, tais como:

Grupos étnicos
Pessoas com deficiência ou com visão/audição limitadas
Imigrantes
Minorias sexuais e de gênero

Por que as pessoas se isolam?
Ele pode ser involuntário, como foi a experiência da pandemia [e cujos efeitos na saúde física e mental os especialistas acreditam que perdurarão ainda por anos], mas pode também decorrer da presença de situações como:

Doenças como a depressão, ou limitantes que dificultam ou impeçam interações e deslocamentos;

Uso de determinados medicamentos;

Problemas financeiros;

Desemprego;

Aposentadoria;

Idade avançada;

Cuidados dispensados a algum familiar

Na juventude, o excesso do uso das mídias sociais e o pouco engajamento em atividades e encontros presenciais significativas têm sido relacionados.

Benefícios de sair mais de casa
Ter laços sociais é uma necessidade humana básica e essencial para a sobrevivência. Investir neles tem como resultado o bem-estar social, físico e mental:

50% a mais de chance de longevidade
Melhora do sistema de defesa do corpo
Recuperação mais rápida das enfermidades
Redução de episódios de depressão e ansiedade
Mais autoestima, empatia, confiança e solidariedade

Saiba por onde começar
Se está difícil dar o primeiro passo para estar mais conectado socialmente, considere colocar em prática as seguintes medidas:

Retome o contato com pessoas que já conhece e que também possam estar mais isoladas (indivíduos que perderam o emprego, se aposentaram, ou acabaram de ter um bebê, etc.)

Pesquise sobre a existência de algum grupo que se dedique a práticas de seu interesse, como leitura, coleções, caminhada, algum tipo de esporte.

Visite feiras livres ou de artesanato, mesmo que seja pelo prazer do passeio.

Procure por trabalhos voluntários em escolas, bibliotecas, hospitais ou comunidades religiosas.

Prefira contatos pessoais. Embora o uso racional das mídias sociais possa facilitar a sensação de conexão, a ideia é equilibrar as horas passadas online com atividades presenciais.

Conecte-se por meio dos alimentos. Em vez de pedir comida pelo aplicativo, arrisque-se na cozinha e convide alguém para alguma das refeições ou um piquenique. Fez porções a mais? Aproveite para compartilhar com os vizinhos!

Use as mídias sociais de forma positiva. O uso prolongado e o desencadeamento de comparações sociais têm sido relacionados à ansiedade e à depressão.

Fontes: Luiz Scocca, psiquiatra pelo Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), membro da APA (Associação Americana de Psiquiatria); José Rivaldo Lima Coelho, profissional de educação física do HUWC (Hospital Universitário Walter Cantídio) e da Maternidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC), que integram o Complexo Hospitalar da UFC (Universidade Federal do Ceará), sob gestão da Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares); Miriam Altman, psicanalista de crianças e adolescentes da SBPSP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo), mestre em envelhecimento pela USP; e Yuri Busin, psicólogo, mestre e doutor em neurociência do comportamento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, tem pós-graduação em psicologia positiva e terapia cognitivo-comportamental pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). É fundador do Diálogo Positivo.

Fonte: VivaBem/UOL

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *