
A esperança de que a tecnologia libertaria o ser humano do excesso de trabalho nunca se realizou, avalia o escritor e professor Fábio Fernandes, um dos maiores especialistas do país em ficção científica, em entrevista ao DEU TILT, o podcast do UOL para os humanos por trás das máquinas.
Para Fernandes, a expectativa era toda nossa, afinal o discurso de que a tecnologia traria eficiência e liberdade parte de quem domina os meios de produção. E isso ocorre desde a Revolução Industrial, quando os donos das tecnologias passaram a buscar mais produtividade e controle, e não a redução da carga de trabalho.
“Perfeitamente sou capaz de dizer exatamente o momento que isso aconteceu. Revolução industrial. Josiah Wedgwood, final do século 18, na primeira linha de produção em série de cerâmica. O dono da tecnologia, o empregador, diz assim, ‘eu quero colocar cada vez mais pessoas trabalhando cada vez mais’. Em momento nenhum houve uma declaração de alguma dessas pessoas dizendo, ‘estou fazendo isso para que o trabalhador trabalhe menos’. Não!“, Fábio Fernandes.
Na prática, diz Fernandes, a tecnologia virou infraestrutura invisível, organizada por algoritmos que impõem um ritmo de trabalho contínuo e cada vez mais acelerado.
“A tecnologia deixa de ser só uma ferramenta para virar uma infraestrutura do poder, de modo que ela é invisível, sem rosto, sem cara, e faz aquilo que há de humano nas relações seja completamente invisibilizado e a gente simplesmente tenha que aceitar: ‘Olha, é aquilo'”, explica.
E isso tem consequências. Trabalho remoto e das plataformas digitais, por exemplo, não só intensificaram a pressão como fez dos trabalhadores disponíveis o tempo inteiro.
“Você tem o WhatsApp, está disponível 24 por 7. O chefe te procura, ‘ah, isso aqui é urgente’. E você aceita, porque tem medo de ser demitido. A gente vive numa cultura que leva a gente a normalizar isso. E a quantidade de gente que defende isso é impressionante”, afirma o professor.
Outro desdobramento é a ideia de que todo tempo livre deve ser produtivo. Reforçada pelas redes sociais, a cultura contemporânea exige produtividade até no tempo livre.
“Você vê influenciadores, o LinkedIn dando aquela vaga sensação de que, se você não fizer algo com o seu tempo ocioso, você é um inútil para a sociedade. Não é só o trabalho, é a sinalização de virtude. Você tem que fazer uma coisa diferente, uma coisa nova, você tem que conhecer um lugar novo, você tem que ir naquele restaurante que o café é legal. Tem que performar o tempo todo. Isso cobra um problema muito grande de saúde mental”, diz.
Fernandes ressalta que, apesar do potencial das máquinas para aliviar tarefas, o tempo liberado é rapidamente preenchido por outras obrigações, muitas vezes impostas pela própria cultura. Exemplo é a máquina de lavar. Ao facilitar o serviço, liberou tempo para mais trabalho doméstico, quase sempre recaindo sobre os ombros das mulheres. “A pessoa que, aparentemente, se liberta disso pelo uso da máquina é levada pela cultura a continuar trabalhando.”, resume.
Ainda assim, Fernandes reforça que o desafio não está nas máquinas, mas em como a sociedade regula e distribui tempo e trabalho, sobretudo diante de tantas novidades tecnológicas.
“Não dá para ‘desinventar’. E eu defendo essas invenções. De vez em quando a gente está muito cansado, mas você acha que eu vou parar tudo e ficar só ouvindo disco de vinil, vou ficar só vendo televisão? Não. Eu adorei quando chegou o CD, o DVD, os canais de streaming. Gosto muito do livro digital, mas leio tanto em Kindle quanto em papel. Ao longo dos anos, fui buscando estratégias para equilibrar isso”, comenta.
Para o escritor, a lógica da intensificação do trabalho guiada pelo consumo de tecnologia é global, independente do sistema político.
“Eu estive na China um ano e meio atrás, dando uma oficina de ficção científica para os estudantes universitários. E a China, mesmo sendo comunista e tendo um partido só, ela tem uma cultura do consumo que é idêntica à do Ocidente nesse sentido. Os jovens universitários chineses não diferem dos nossos jovens universitários. É uma cultura que tomou parte do mundo inteiro, não uma coisa que pertence a este ou aquele lado do espectro político“, Fábio Fernandes.
O caminho, defende o escritor, é buscar estratégias para equilibrar o ritmo acelerado para evitar que ganhos de eficiência virem apenas mais pressão.
“Essa é uma realidade com a qual a gente tem que lidar e vai ter que criar estratégias nos próximos anos“, conclui.