Vamos continuar chegando ao 2º semestre exaustos?
Recentemente, como integrante do Conselho de uma organização, fiz esta pergunta em uma reunião em que estava colocada a questão sobre como seria possível crescer e ser mais relevante.
Eu perguntei “precisa mesmo crescer? Será que não é mais importante pensar na saúde da organização? Em ser mais abundante? Será que precisamos ser mais relevantes? O que é relevância neste mundo em que tudo virou espuma?”.
E tenho sido por aí porta-voz deste tipo de questão. Na minha pesquisa sobre aceleração social do tempo, dialogo com um pensador alemão chamado Hartmut Rosa, que afirma que o crescimento econômico, o desenvolvimento tecnológico e a aceleração caminham de mãos dadas. Um funciona como motor e validador do outro. Integram o mesmo projeto, digamos assim; uma mesma visão do que é desenvolvimento.
Mas tenho trazido aqui também vozes que questionam este desenvolvimento. O filósofo quilombola Nêgo Bispo, por exemplo, nem gostava de usar este termo. Ele preferia falar em “reenvolvimento”.
O ambientalista indígena Ailton Krenak também nos provoca a pensar nos modos de vida que elegemos para guiarem nossa concepção de futuro, evolução e avanço, ancorados na ideia de progresso. Quando escreveu “Ideias para adiar o fim do mundo” e “A vida não é útil”, ele conta que todos os dias, em alguns lugares, esse fim já aconteceu “ontem, hoje cedo, vai acontecer depois de amanhã”.
Na virada para o segundo semestre, é comum a gente rever as rotas, refazer planos e pensar como será o segundo semestre. Em conversas que tive estas últimas semanas com amigas queridas e pessoas próximas, ouvi muito ‘imagina como vai ser o segundo semestre?’, tomando como referência o primeiro, que foi corrido, cansativo, exaustivo. Sendo que todos nós sabemos que ano de Copa e eleição as coisas são ainda mais aceleradas.
Pois é. E é a partir destas constatações que eu fico me perguntando: o que falta acontecer para a gente começar a agir diante do que se apresenta com tanta nitidez diante de nós? Este esgotamento coletivo, este adoecimento generalizado.
Claro que não sou ingênua e sei que o descanso de uns se dá por conta do trabalho ininterrupto de outros. Mas sigo acreditando na importância desta voz que se ergue para questionar: precisamos mesmo de mais? Precisamos mesmo crescer? Precisamos mesmo deste tipo de progresso que nos trouxe até aqui a este custo altíssimo?
Final de semana passado, mergulhei em leituras que me inspiram a pensar nas chamadas “alternativas sistêmicas”. E compartilho com vocês uma delas: o decrescimento. Trago aqui alguns trechos do verbete sobre este projeto contido na obra Pluriverso, um dicionário do pós-desenvolvimento (Elefante, 2021).
Os autores Federico Demaría e Serge Latouche explicam que “de modo geral, o projeto de Decrescimento desafia a hegemonia do crescimento e exige uma redução redistributiva, liderada democraticamente, da produção e do consumo nos países industrializados, como meio de alcançar a sustentabilidade ambiental, a justiça social e o bem-estar”.
Geralmente, eles contam, a ideia está associada à noção de que aquilo que é menor pode ser bonito. No entanto, a ênfase não deve ser apenas no “menos” mas também no “diferente”.
No texto, eles explicam que “o objetivo do decrescimento é escapar de uma sociedade absorvida pelo fetichismo do crescimento. “Compartilhamento”, “simplicidade”, “convivência”, “cuidado” e “bens comuns” são manifestações primordiais de como esta sociedade pode ser vista”.
O livro também resgata a origem do termo: inicialmente proposto pelo ecologista político André Gorz em 1972, e foi usado em 1979 no título da tradução francesa dos ensaios de Nicholas Georgescu-Roegen. Ativistas ambientais franceses recuperaram o decrescimento e o lançaram, em 2001, como slogan provocativo para repolitizar o ambientalismo.
Outras alternativas sistêmicas (e este livro explora algumas delas) podem indicar horizontes de outras existências possíveis que não sejam baseadas nesta ideia única de crescimento, avanço e progresso.
Desacelerar, neste contexto, é se perguntar quando a velocidade faz sentido e quando ela não faz, mas corremos, porque estamos no automático. Sair do automático é também se perguntar se estas ideias estabelecidas são as únicas; e se a bússola que construímos para nos orientar como humanidade está indicando um caminho único, monocultural.
Se parece que chegamos a um limite humano e planetário, por que não investigar e experimentar outras formas de viver?
Fonte: Michelle Prazeres colunista de VivaBem no UOL
