O Índice de Confiança Social, medido anualmente pelo Ipsos-Ipec, mostra que as relações familiares sofreram abalos na última e agitada década.
Embora a família siga como o grupo social em que as pessoas mais confiam, a nota caiu 11 pontos desde 2010. Numa escala de 0 a 100, a confiança na própria família caiu de 91 (em 2010) para 80 (em 2026).
Convidada especial desta edição, a cientista política Camila Rocha afirma que as apostas online ajudam a ampliar a desconfiança dentro de casa.
Segundo ela, o impacto das bets na confiança se agrava quando a aposta vira um hábito escondido e, em algum momento, começa a aparecer no orçamento da casa. Como a prática pode acontecer no celular, a família tem dificuldade de perceber o tamanho do problema.
Quando uma das pessoas da família começa a apostar, muitas vezes o faz escondido. Isso pesa no orçamento familiar e se torna perceptível em algum momento. Aí começa a gerar essa crise de desconfiança dentro de casa.
“De repente a pessoa tá apostando, vai trazer uma dívida enorme pra gente, a gente não sabe. É uma coisa muito difícil de você conseguir saber, porque é uma coisa que você faz no celular”, disse Camila Rocha.
Bilenky destacou recortes de gênero no índice de confiança. Na média, mulheres disseram confiar menos nos outros do que homens.
“As mulheres confiam menos do que os homens. Nos amigos, elas confiam 61% e os homens, 64%. Nos vizinhos, elas confiam 53% e eles 57%. E nos brasileiros de modo geral, elas confiam 49% e eles confiam 57%. É uma diferença grande”, diz Bilenky.
Camila Rocha, pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), mencionou uma grande pesquisa feita pelo Instituto Clarice que será divulgada fazendo uma radiografia da relação das mulheres com as bets.
“As mulheres, que formam uma parte expressiva das pessoas que apostam hoje no Brasil online, elas geralmente falam muito da pandemia como um momento em que elas tiveram perdas importantes. Para muitas delas, tem essa tentativa de reaver o que foi perdido durante a pandemia. Tem uma coisa de você tentar ter um extra para cuidar dos seus filhos, para fazer uma coisa especial, um bolo de aniversário, uma saída em família, um passeio.”
A cientista política afirma que o efeito pode vir acompanhado de culpa e de um ambiente mais tenso dentro de casa. O estresse se soma a outras fraturas recentes nos laços familiares, como a radicalização política e os efeitos da convivência intensa durante a pandemia.
“Elas vão se sentindo mal, mas não conseguem parar. E aí vão vendo que os laços familiares vão se esgarçando.”
Fonte: podcast A Hora no UOL