Existe uma boa e uma má notícia para os interessados em se candidatar a um trabalho temporário neste fim de ano: o número de vagas no varejo brasileiro vai subir 10% em relação a 2025, segundo levantamento realizado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a empresa de pesquisas OfferWise. Serão 130 mil vagas, frente às 118 mil do ano anterior.
O problema é que a média do salário mensal bruto oferecido será 7% menor: R$ 1.805, frente aos R$ 1.943 pagos em 2025. Considerando a inflação do período, corrigida pelo IPCA, a queda na remuneração é ainda maior, da ordem de 11%.
Segundo Daniel Sakamoto, gerente executivo da CNDL, a redução será compensada por um aumento na oferta de benefícios: 72% das empresas pretendem conceder vale-transporte, auxílio-alimentação e comissionamento este ano, entre outros atrativos. Em 2025, 56% das empresas tinham a mesma disposição.
“A oferta de benefícios veio mais forte, na tentativa de reter funcionários, especialmente diante de um cenário macroeconômico desafiador, que dificulta o aumento de salário”, Daniel Sakamoto, gerente executivo da CNDL.
O varejo enfrenta uma falta crônica de mão de obra nos últimos anos, com déficit em torno de 15%. O maior grupo varejista do Brasil, o Carrefour, fechou uma parceria com o governo federal para empregar egressos do programa Bolsa Família, a fim de tentar preencher as vagas. Desde 2023, foram contratadas cerca de 140 mil pessoas inscritas no Cadastro Único (CadÚnico).
“Se os salários forem maiores, a chance de conseguir contratar aumenta. Mas o varejo vive um momento de pragmatismo financeiro. Todo mundo está alavancado [operando com dinheiro emprestado], a taxa de juros está a dois dígitos há mais de quatro anos. O empresário está fazendo cada vez mais conta e chegando à conclusão que não pode pagar mais, mas consegue oferecer algum tipo de benefício”, diz.
Em busca das melhores vagas
Do outro lado do balcão, a vida também não está fácil. Regina (nome fictício), 34 anos, foi diagnosticada com ansiedade e depressão no ano passado. Obteve uma licença de 14 dias do trabalho como atendente de uma grande rede de vestuário feminino. Aproveitou para procurar uma nova colocação. Na rede, era obrigada a bater a meta de 10 cartões de loja vendidos por dia – ganhava R$ 0,50 por cada um. A cobrança a deixava ansiosa. Estava há dois anos na empresa, depois de ter deixado de ser frentista em um posto de combustíveis, onde também era cobrada por metas de venda de gasolina aditivada.
Hoje é funcionária de uma grande rede de supermercados, onde atua como fiscal de loja. “Aqui é bem tranquilo, não tem desvio de função, tem vale-alimentação e plano de saúde”, diz ela, que acha que os benefícios compensam, em parte, a escala 6×1 – seis dias trabalhados para um de folga, que deve mudar para o regime 5×2, conforme a nova legislação que aguarda para ser votada no plenário do Senado. “Para a gente que é dona de casa, 6×1 é muito cansativo, não tem tempo para nada”, diz.
Sem trabalhadores e com rotatividade
Com uma taxa de desemprego em torno de 5% no Brasil, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as placas de “temos vagas” nas portas dos mais diversos estabelecimentos se multiplicam pelo país. “Já deixei de abrir loja porque faltava açougueiro”, diz Pedro Lourenço de Oliveira, o Pedrinho, como é conhecido, presidente da rede Supermercados BH, quarta maior rede do varejo alimentar do país.
Com cerca de 450 lojas em Minas Gerais e no Espírito Santo, o empresário viu seu déficit de vagas subir de 4.000 em maio para os atuais 6.000 postos em aberto. “Falta gente em todos os setores da loja”, afirma Pedrinho, que também é dono da SAF (Sociedade Anônima de Futebol) que administra o Cruzeiro.
No mercado capixaba, a rede adotou a escala de segunda a sábado, com folga fixa aos domingos, atendendo à convenção coletiva de trabalho do varejo no Espírito Santo. “Seria bom para todos se toda loja fechasse aos domingos”, diz ele, que ainda não começou a implantar, por conta própria, uma escala 5×2.
Na Plurix, 11ª maior rede de varejo alimentar do país, dona de bandeiras regionais como Amigão, Superpão, Compre Mais e Avenida, com lojas no interior de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina, a contratação também ficou mais crítica este ano. “O nosso turnover passou de 50% no início do ano para 70% agora”, diz Jorge Faiçal, presidente da Plurix, referindo-se à taxa de rotatividade na empresa – a cada 10 pessoas contratadas, sete deixam o emprego todo ano.
Para tentar contornar a situação, a Plurix está implantando a escala 5×2. “Por volta de 50% do nosso pessoal já trabalha neste esquema”, diz Faiçal, que pretende ser mais seletivo nas contratações temporárias deste fim de ano. “As vendas do varejo estão bem baixas, o cliente está endividado, fazendo tradedown [escolha por marcas mais baratas], abandonando categorias. É um cenário muito difícil para aumento de contratações”, diz ele, que soma 18 mil colaboradores em lojas e centros de distribuição.
Digitalização é alternativa
Outra alternativa empregada pela Plurix é aumentar o número de caixas de autoatendimento, os “self checkouts”. “É uma tentativa de diminuir um pouco a insatisfação do cliente com as longas filas”, diz Faiçal.
Para Sakamoto, da CNDL, a crescente digitalização do varejo está ajudando a compensar em parte a falta de mão de obra. “Mesmo no varejo fast-food vemos cada vez mais totens de autoatendimento. A automação vem substituindo funções mais repetitivas e operacionais, como a de caixa”, afirma. “A boa notícia é que o custo da transformação digital está cada vez menor”.
O novo perfil geracional responde pela falta de interesse em trabalhar no varejo, diz o gerente da CNDL. “São vagas de entrada, com salários pouco atrativos, que em tese seriam direcionadas para os mais jovens. Mas hoje eles querem relações de trabalho mais flexíveis, com jornadas e horários alternativos. O varejo, porém, especialmente o de shopping, exige horários pré-determinados, até às 22h e aos finais de semana”, lembra.
Das 130 mil vagas previstas previstas para este ano, 50% serão de contratos temporários, de olho no aumento das vendas previsto para Black Friday e Natal, enquanto 39% serão contratações imediatas por tempo indeterminado – ou seja, já para se tornarem efetivos. Outros 11% dos entrevistados não especificaram o regime.
A pesquisa ouviu, por telefone, 510 empresários de todos os portes, dos setores de comércio varejista e serviços, de todas as regiões do Brasil, capitais e interior. O levantamento foi feito entre 24 de junho e 24 de julho de 2026. A margem de erro é de 4,3 pontos percentuais e o intervalo de confiança é de 95%.