Dívidas e destruição: as cicatrizes deixadas pelas bets no Brasil
Escondida na escadaria do prédio onde morava, Joana*, 41, dizia à família que estava no emprego e aos colegas que cuidava do filho doente em casa. Na verdade, apostava no Aviator, jogo de cassino online.
No começo jogava R$ 100, R$ 200. Depois vieram as apostas maiores, e logo, a conta negativa. Houve dias em que Joana ganhou R$ 360 mil e quitou dívidas. Mas voltou a jogar, cada vez mais alto.
Foram oito meses até perceber que havia perdido o controle. Ao parar, Joana tinha jogado fora R$ 1,7 milhão, acumulado dívidas com agiotas, perdido o casamento e o emprego.
Ficou 41 dias internada em uma clínica, acompanhada por um psiquiatra especializado em dependência. Hoje, comemora um ano, seis meses e dez dias sem jogar.
A história de Joana é exemplo extremo de uma realidade guardada no bolso de milhões de brasileiros, de todas as classes sociais.
Desde o dia 25 de setembro, a exploração, a oferta e a publicidade de apostas esportivas e jogos online de quota fixa estão proibidas por medida provisória no Brasil.
A decisão promete conter o endividamento em massa da população —um problema que cresceu de forma impressionante nos últimos anos.
Um dossiê produzido pelo IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) e publicado em dezembro de 2025 apontou que o vício em apostas online fez o Brasil perder R$ 38,8 bilhões; R$ 30 bilhões estavam diretamente relacionados à perda de qualidade de vida, depressão e tratamentos médicos.
A proibição das bets legais, no entanto, não tem o poder de apagar o rastro de endividamento, colapso familiar e adoecimento mental.
Nos últimos 12 meses, as buscas no Google pelos termos “como parar de apostar” e “como parar de jogar no tigrinho”, entre outros semelhantes, subiram 5.000%.
Para quem cruzou a linha do entretenimento, a proibição pode tirar as plataformas autorizadas da jogada, mas não o desejo de apostar —nem a dependência.

Quando parar não basta
Depois da internação, Joana procurou os Jogadores Anônimos (JA), programa de recuperação baseado em 12 passos, semelhante ao Alcoólicos Anônimos (AA).
As reuniões são gratuitas e sigilosas. Os participantes compartilham experiências, dificuldades e estratégias para permanecer longe das apostas.
Desde agosto, o UOL tem acompanhado algumas dessas reuniões em São Paulo. O salão acomoda até 50 pessoas. Sobre uma mesa, uma toalha traz a regra do grupo: “Quem você vê aqui, o que você ouve aqui, quando você sair daqui; deixe que fique aqui”.
A proibição recente das bets não esvaziou a sala. De ombros baixos e olhando para o chão, Genivaldo*, 34, fala sobre a noite em que percebeu que o dinheiro das apostas já não era mais seu.
Em 2022, trabalhando como segurança à noite, viu um colega ganhar R$ 1.000 em poucas horas no jogo do Tigrinho. O salário dos dois era de R$ 1.600.
Aquilo chamou sua atenção. Começou com R$ 10, depois mais R$ 30 e fechou a noite com um ganho de R$ 300. Mas não sacou.
“Agora eu sei que estava com problema desde o início, porque continuei jogando para tentar fazer mais dinheiro.”
Hoje, Genivaldo compromete quase tudo que ganha (cerca de R$ 3.000) pagando a dívida que contraiu por causa das apostas.
A lembrança que mais o constrange, porém, não é financeira. Foi quando pegou dinheiro emprestado da mãe, aposentada, e não pagou o que devia, como havia prometido. Jogou para perder mais.

R$ 80 mil, um salário inteiro e a ausência
Bruna*, 31, vendedora, é mãe de um adolescente de 15 anos. Colocou o salário inteiro, cerca de R$ 2.000, nas apostas. Jogava modalidades como o jogo do ratinho e da caveirinha, variações do Tigrinho. Pegava dinheiro emprestado para continuar apostando. Estima ter deixado cerca de R$ 80 mil no jogo.
Mas o dinheiro não foi a única perda. Enquanto apostava, diz que se desprendia da realidade. O filho mora com o pai. Mesmo quando o recebia em casa, Bruna conta que não conseguia estar verdadeiramente presente. A tela ocupava o espaço que deveria ser preenchido pela conversa, pela atenção, pela convivência.
O jogo começa, em muitos relatos, como uma tentativa de ganhar dinheiro. Aos poucos, pode passar a reorganizar a vida da pessoa ao redor dele.
Uma casa de apostas que cabia no bolso
Até agosto, pouco antes do veto federal, mais de 1,3 milhão de brasileiros haviam solicitado a autoexclusão de seus CPFs na plataforma gov.br, segundo o Ministério da Justiça. A ferramenta permitia bloquear o acesso às bets por um período ou por prazo indeterminado.
A aposta havia deixado de exigir deslocamento, dinheiro vivo ou mesmo um estabelecimento específico. Estava disponível onde houvesse conexão de celular, a principal porta de entrada: 98,7% dos acessos às plataformas ocorreram por esses aparelhos.
Homens apareciam mais nas apostas esportivas; mulheres tinham participação proporcionalmente maior em modalidades como cassino e bingo. A diferença, porém, não era absoluta, e as mulheres já representavam parcela expressiva (quase 40%) dos apostadores esportivos no Brasil.
O mercado ilegal é uma das incertezas da nova fase sob o regime de proibição.
Estimativas do Instituto Brasileiro do Jogo Responsável apontam que as bets ilegais respondiam por cerca de 40% do mercado antes da proibição. Esse dado, porém, é uma estimativa do próprio setor e deve ser lido com essa ressalva.
A medida provisória estabelece que os sites autorizados e clandestinos de apostas devem sair completamente do ar a partir de 6 de outubro.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública, em força-tarefa com o Ministério da Fazenda, anunciou que, até 1º de outubro, havia solicitado ao Ciberlab/Senasp a derrubada de 10.435 sites que exploram apostas ilegais no país.
A operação ainda notificou para remoção imediata 186 aplicativos de jogo nas lojas da Apple e do Google, além da exclusão de 300 páginas do Facebook e 90 perfis de Instagram usados na divulgação ilegal. Google, Meta, YouTube, X, Telegram, TikTok, Kwai e Discord também foram notificadas sobre a retirada da publicidade relacionada às bets.
Quando a aposta vira doença
O transtorno do jogo (ludopatia) é reconhecido como uma condição de saúde mental pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
No SUS, entre janeiro de 2018 e maio de 2025, foram registrados 10.553 atendimentos relacionados aos códigos F63.0 e Z72.6 (relacionados ao tema).
O Ministério da Saúde, que apontou um crescimento de mais de 1.100% na procura por esses atendimentos no período de 2018 a 2024, indica que há subnotificação e baixa procura por atendimento específico, já que os problemas relacionados ao jogo muitas vezes aparecem associados a outros transtornos mentais.
A psiquiatra Camila Espinola enxerga o vício em jogos como a ponta do iceberg. “É só a parte que está aflorada e gritando, mas a doença de base precisa ser identificada e tratada.”
Segundo ela, há casos associados a outros transtornos psiquiátricos, como transtorno bipolar e TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade). A busca por grupos de apoio não elimina a necessidade de tratamento.
O neurologista Wuilker Knoner Campos explica que a dependência envolve os circuitos cerebrais relacionados à recompensa e ao controle dos impulsos.
“O cérebro passa a dar um valor exagerado à aposta e perde a eficiência em frear esses impulsos.” Não se trata simplesmente de uma questão de força de vontade.
A recuperação é possível, segundo o especialista. Durante o tratamento, a chamada neuroplasticidade permite modificar associações entre gatilhos e comportamento. A ideia é enfraquecer a ligação automática entre determinada situação e a necessidade de apostar.
Dados do Ambulatório do Jogo do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP, pioneiro no tratamento da ludopatia no Brasil, mostram que 80% das pessoas que buscam o serviço já apresentaram ideação suicida em decorrência do colapso provocado pelo vício.
Atualmente, cerca de 65% das pessoas que buscam tratamento no ambulatório do HC-USP são motivadas especificamente pela dependência em apostas online.

O fantasma depois da tela
Para quem nunca desenvolveu dependência, tirar as apostas de quota fixa da tela pode significar o fim de um aplicativo ou de uma rotina de entretenimento. Para quem perdeu o controle, é outra coisa.
Joana precisou construir barreiras antes mesmo da proibição. Genivaldo ainda precisa contar sua história na sala dos Jogadores Anônimos. Bruna tenta recuperar o tempo em que não conseguiu estar presente para o filho.
As plataformas saíram da tela por força de lei. Mas o desejo de apostar, as dívidas acumuladas e as profundas consequências deixadas por anos de jogo não saem junto com o sinal de internet.
Do lado de fora da sala do JA, o mundo das apostas muda suas regras. Lá dentro, a batalha pela recuperação continua exatamente a mesma.
Fonte: TAB no UOL