Sindicato dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio e em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Empresas de Serviços Contábeis de Campinas e Região

A quem interessa o nosso baixo interesse nas assembleias legislativas?

+Escutei de uma amiga que de todas as esferas de poder constituídas, a dimensão estadual é a que menos está em nosso radar. E que isso é preocupante. E que deveríamos prestar mais atenção ao que acontece nos estados. Fez sentido.

Se a Câmara dos Vereadores atravessa o dia a dia das cidades com as suas decisões e a dos deputados federais faz o mesmo nas redes e na imprensa com suas pautas, existe uma espécie de limbo relacional com as assembleias legislativas. Só viram notícia em escândalos de grandes proporções, isso quando viram. O Brasil tem mais de 1.000 parlamentares estaduais e distritais.

Não fosse uma reportagem da Adriana Ferraz aqui no UOL, mal saberíamos que 97% da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) disputa algum cargo nesta eleição. Passaria batido que desde o começo do processo eleitoral, as sessões por lá, que são o feijão com arroz de uma atuação parlamentar, duram menos de um minuto. Quando acontecem.

Em 15 de setembro, por exemplo, toda a estrutura da Alesp foi mobilizada para 28 segundos de reunião. A pauta daquele dia listava 845 itens. Eu fiz as contas, não se preocupe: são 30 assuntos por segundo. Nem o Flash daria conta. Ficou espantada?

Segundo a reportagem, Eduardo Suplicy (PT), mesmo em campanha pela reeleição, é o mais assíduo da casa neste período. Mais que isso. Presidiu oito sessões em que, somente ele, registrou presença. Você não leu errado: de 94 parlamentares, apenas Suplicy compareceu. O salário de um deputado estadual é de R$ 34,5 mil. Como aponta a matéria da Adriana, existem diversos mecanismos que impedem o desconto.

A informação é tão inacreditável, que eu corri para conferir com os meus próprios olhos. Os vídeos são públicos, disponibilizados pela casa. Tem coisa que eu só acredito vendo. Eu vendo que a cena realmente aconteceu: não acredito. Foi inevitável não me lembrar de uma cena com o senador Caxias.

Caxias era um dos personagens da novela O Rei do Gado, que foi ao ar pela TV Globo em 1996. Idealista, buscava se manter fiel aos seus princípios e crenças numa estrutura política corrompida e em meio a tensões em suas relações pessoais que nasceram dos posicionamentos públicos. Enquanto lutava pela reforma agrária, o senador tinha como grande amigo um fazendeiro poderoso. Numa cena marcante, Caxias discursa para um congresso completamente vazio, cobrando compromisso com o interesse público à frente dos pessoais. A cena virou conversa no país. Hoje, meme.

Segue vivo um movimento de desqualificação, deslegitimação e enfraquecimento das instituições. Não é um acaso, é um projeto. É o seu esvaziamento intencional e simbólico que permite que, aos poucos, elas possam ser sequestradas pelo autoritarismo que vende frases prontas para desafios complexos. Repactuar as instituições e melhorá-las é uma tarefa coletiva. A indignação de ver tanto dinheiro público desperdiçado precisa gerar boas ideias de melhoria. Não o afastamento ou abandono dos espaços de participação.

Para que transformações positivas aconteçam a você e a quem está ao seu redor, a sociedade precisa de instituições fortes, valores democráticos e de representantes verdadeiramente comprometidos com a construção do bem comum. Para todos os seres ao mesmo tempo. Não existe caminho fora da política. A boa política, enraizada na defesa das instituições democráticas, na participação popular, na transparência e na garantia de direitos, é o caminho.

Fonte: Tony Marlon colunista de Ecoa no UOL

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