Pesquisa PoderData aponta inversão em relação ao ano passado após escalada tarifária dos Estados Unidos
A maioria dos brasileiros passou a defender um fortalecimento das relações comerciais entre o Brasil e a China em detrimento dos Estados Unidos. Pesquisa PoderData divulgada nesta sexta-feira (24) revela que 52% dos eleitores consideram que o país deve estreitar seus laços comerciais com o gigante asiático, enquanto 35% preferem uma maior aproximação com os norte-americanos. Outros 13% não souberam responder ou preferiram não opinar.
O levantamento registra uma mudança significativa na percepção da população em comparação com o mesmo período do ano passado. Em 2025, quando a mesma pergunta foi feita aos entrevistados, 59% defendiam maior proximidade comercial com os Estados Unidos, contra 32% que apontavam a China como principal parceiro estratégico. Em apenas um ano, os percentuais praticamente se inverteram.
A pesquisa foi realizada entre os dias 18 e 20 de julho, com 2.500 entrevistados em 147 municípios das 27 unidades da Federação. As entrevistas foram feitas por telefone, incluindo celulares e linhas fixas. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
A mudança ocorre em meio ao agravamento das tensões comerciais entre Brasília e Washington desde o retorno de Donald Trump à Presidência dos Estados Unidos. Ao longo dos últimos meses, o governo norte-americano anunciou sucessivas medidas tarifárias contra produtos brasileiros, ampliando o desgaste diplomático entre os dois países.
O primeiro grande movimento ocorreu em julho de 2025, quando Trump determinou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, justificando a medida com críticas ao tratamento dado pelo Supremo Tribunal Federal ao ex-presidente Jair Bolsonaro no processo relacionado à tentativa de golpe de Estado. Embora parte da sobretaxa tenha sido posteriormente revertida, as relações comerciais permaneceram tensionadas.
Em junho deste ano, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) voltou a anunciar novas restrições, propondo uma tarifa de 25% sobre uma ampla lista de produtos brasileiros com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana, alegando supostas práticas comerciais consideradas desleais.
O tarifaço foi confirmado em julho e, poucos dias depois da realização da pesquisa, Washington anunciou ainda uma nova sobretaxa de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob a alegação de falhas no combate ao trabalho forçado nas cadeias produtivas. Em diversos setores, essa nova cobrança passou a se somar às tarifas já existentes.
Em resposta às medidas, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva intensificou o discurso em defesa da soberania nacional e afirmou que utilizará os mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica para responder às barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, Brasília aprofundou a aproximação econômica e diplomática com Pequim. Desde o início do terceiro mandato de Lula, o presidente realizou duas visitas oficiais à China, enquanto o presidente chinês também esteve no Brasil em encontros bilaterais voltados à ampliação de investimentos e do comércio entre os dois países.
Esse movimento já produz reflexos nas exportações brasileiras. Segundo dados citados pelo levantamento, durante o segundo semestre de 2025 as vendas brasileiras para a China cresceram 28,6% em relação ao mesmo período do ano anterior, compensando parcialmente a queda de 25,1% registrada nas exportações destinadas aos Estados Unidos após o início das restrições tarifárias.
Nordeste lidera preferência pela China
A pesquisa mostra que a preferência pela China aparece em praticamente todas as regiões brasileiras, embora com intensidades diferentes.
No Nordeste, o apoio ao fortalecimento das relações comerciais com o país asiático alcança 60%, enquanto apenas 28% defendem maior aproximação com os Estados Unidos.
No Sudeste, principal polo econômico do país, 51% preferem ampliar as relações com a China, contra 35% que optam pelos norte-americanos.
No Sul, a vantagem também favorece Pequim: 47% apoiam maior integração comercial com a China, enquanto 40% preferem os Estados Unidos.
No Norte, a disputa aparece mais equilibrada, mas a China mantém vantagem numérica, com 46% das preferências, diante de 42% favoráveis aos EUA.
A única região em que há empate técnico é o Centro-Oeste. Ali, 46% defendem maior aproximação comercial com os Estados Unidos, enquanto 45% optam pela China, diferença que fica dentro da margem de erro da pesquisa.
Preferência varia conforme avaliação do governo Lula
O levantamento também cruzou as respostas com a avaliação do presidente Lula.
Entre os entrevistados que aprovam o desempenho pessoal do presidente, a preferência pela China chega a 58%, enquanto 29% defendem maior aproximação com os Estados Unidos.
Já entre aqueles que desaprovam Lula, os percentuais ficam tecnicamente empatados: 45% preferem estreitar relações com a China e 42% optam pelos EUA.
Os dados também indicam diferenças de acordo com a renda. Entre os brasileiros que recebem até dois salários mínimos, 55% defendem maior integração comercial com a China. Já entre os entrevistados com renda superior a cinco salários mínimos, os Estados Unidos aparecem numericamente à frente, com 44% das preferências, contra 42% favoráveis à China, resultado igualmente dentro da margem de erro.
Por gênero, homens e mulheres apresentam exatamente o mesmo percentual de preferência pela China: 52%.
A pesquisa revela, assim, uma mudança importante na percepção da opinião pública brasileira sobre os principais parceiros comerciais do país. Em um cenário marcado por disputas tarifárias, tensões diplomáticas e reconfiguração das cadeias globais de comércio, a China passa a ser vista pela maioria dos entrevistados como o parceiro econômico mais estratégico para o Brasil, invertendo um quadro que, há apenas um ano, favorecia amplamente os Estados Unidos.
Fonte: TVT News