Quando tudo é urgente, nada é urgente: precisa mesmo responder correndo?
Esta é mais uma da série “já parou para reparar?”. E como temos vivido no automático, paramos pouco para reparar em coisas que não deveríamos normalizar.
Minha implicância de hoje é com a urgência generalizada em responder mensagens de conversadores instantâneos, tipo WhatsApp.
Já parou para reparar que este modo de comunicação é assíncrono? Ou seja: você manda a mensagem para a pessoa e a pessoa responde no tempo da disponibilidade dela. A forma de comunicação pressupõe isso.
Se a gente quer falar “ao mesmo tempo” com a pessoa, existem formas síncronas de comunicação, como a chamada telefônica ou por vídeo.
Eu às vezes tenho a impressão de que a gente nem sabia que existiam estas duas palavras: síncrono e assíncrono. Pelo menos por aqui, comecei a usá-las com mais frequência depois da pandemia, quando ficou mais comum a gente ter que falar “esta reunião será presencial”, porque o remoto virou padrão; e também de nomear o trabalho quando ele acontece de forma simultânea (síncrono) ou com cada pessoa contribuindo da sua maneira e no seu ritmo (assíncrono).
A pandemia foi um marco no “desempacotamento” de algumas coisas: por aqui, a aula podia ser dada “ao vivo” (síncrona), mas assistida depois (no assíncrono), por exemplo; e o mesmo aconteceu com reuniões, que ficam gravadas e a pessoa acessa o conteúdo.
Lembro de ter esta conversa com meus alunos na época: quem acessa o conteúdo da aula não está “assistindo aula”, porque a aula é estar com o corpo no mesmo tempo e espaço partilhados (mesmo que com mediação tecnológica, por circunstância, como exigência do momento). Quem via a aula depois estava acessando conteúdo de aula, mas não estava na aula, entende?
E falo sobre isso para falar destas temporalidades que foram sendo produzidas e, de uma forma meio “natural”, fomos aderindo a elas.
O e-mail é uma forma de comunicação assíncrona. A gente manda a mensagem e a pessoa do outro lado responde quando possível. Ao longo dos anos, fomos acelerando estas formas de comunicação ao ponto de elas se tornarem quase sequenciais. Hoje, 50% dos e-mails do mundo são respondidos em até 2 horas.
O WhatsApp – um dos mais usados aplicativos de conversação – é assíncrono também.
Apesar disso, fomos aos poucos nos apropriando desta ferramenta com outra noção de tempo: o imediatismo. E a própria ferramenta dispõe de recursos para incentivar seu uso intensivo: as marcações de “enviada” e “lida” e as famigeradas notificações.
As notificações surgiram, como o nome sugere, para nos contar que temos novas mensagens aguardando resposta. Hoje, elas são motivo de ansiedade generalizada. Em vez de um recurso de organização, viramos reféns delas.
Visualizar e demorar para responder virou sinônimo de descaso; gera desprestígio. E responder rapidamente virou performance. “Fulano responde super rápido!”. Quem nunca ouviu uma destas em tom elogioso?
Vejam: não estou aqui tratando de ghosting, mas de uma demora razoável para retornar uma mensagem que se pressupõe assíncrona; feita por um meio de comunicação que não é “ao vivo”.
Acontece que por termos nos tornado allways on (conectados 24 horas por dia, 7 dias por semana – no Brasil, 96% dos usuários brasileiros acessam o WhatsApp todos os dias), fomos também criando estes mecanismos de coação para a comunicação ininterrupta e permanente.
É evidente que existem mensagens urgentes, mas quando tudo é urgente, nada é urgente, concorda?
O ideal seria termos condição de olhar as mensagens, avaliar a real urgência nas respostas e combinar retornos mais demorados para aquilo que não é tão urgente ou prioritário. Mas a maior parte de nós não consegue fazer isso. Preferimos responder de qualquer jeito do que demorar. Aqui, aparece um sintoma de nossa doença de aceleração: mesmo quando podemos escolher, escolhemos velocidade em detrimento de qualidade.
Claro que é possível responder com agilidade e qualidade. Assim como a demora não significa necessariamente qualidade; e também é possível demorar e isso não ser necessariamente descaso.
Meu ponto aqui é: normalizamos a pressa como regra e atribuímos a isso um sentido positivo, quando é humanamente impossível responder diversas mensagens ao mesmo tempo e com imediatismo e fazer isso com presença e atenção plenas. Este excesso de troca não é comunicação.
Às vezes, não temos escolha. Este tem sido um ponto que trago de forma recorrente aqui na coluna: em contextos desiguais, precisamos pensar quem pode e quem não pode desacelerar. E especialmente quem trabalha com demandas realmente urgentes ou que exigem prontidão, não tem muito o que fazer.
Mas para todos os casos, se aplica a ideia de que desacelerar não é ser devagar. É se perguntar quando esta velocidade faz sentido e quando ela não faz, mas estamos correndo, porque estamos no automático.
Quando é uma escolha possível, sair do automático pode ser ter o cuidado de avisar a pessoa “vou te responder mais tarde para responder melhor”. Ou – quando você é quem manda a mensagem – sinalizar “isso não é urgente. Tome seu tempo para responder”.
Isso, porque a urgência na resposta das mensagens foi virando um desses “contratos de tempo” sobre os quais a gente não fala e que vão se naturalizando e se tornam violentos. Assim como começamos acelerando áudios e agora, queremos acelerar as pessoas, começamos habilitando notificações para saber que as novas mensagens chegaram; e agora estamos presos à ideia de que precisamos retornar imediatamente.
Algumas mensagens podem esperar. E existem cuidados possíveis com o interlocutor para cultivar esta espera.
Quanto mais falamos sobre estes combinados, mais construímos possibilidades de outras relações com outros ritmos e mais conseguimos ir sentindo o que é de fato urgente e prioritário e o que pode ficar para um pouco depois, para não nos tornarmos reféns das notificações. Quanto mais falamos sobre isso, mais vamos tomando as rédeas da comunicação, mais vamos nos (re)humanizando, pois este funcionamento do sempre-urgente é maquínico e mecânico.
Eu sei que é um tema controverso, porque cada contexto é diferente e cada pessoa sabe aonde seu calo aperta, mas precisamos falar destas coisas, porque sinto que há uma série de “acordos velados” que não deveríamos simplesmente assumir como dados. Então, fica o convite: que tal rever de vez em quando estes pactos com os outros e consigo mesmo?
