O número de benefícios por incapacidade concedidos pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) a segurados com registros de problemas relacionados a jogos e apostas explodiu nos últimos anos. No primeiro semestre de 2026, foram concedidos 260 benefícios, uma média de 43,3 por mês, ou 1,4 por dia.
A média mensal foi aproximadamente 47 vezes maior que a registrada em 2022, quando foram concedidos 11 benefícios ao longo de todo o ano —um crescimento de cerca de 4.600%.
As bets estão proibidas no Brasil desde a última sexta-feira (25), quando o presidente Lula (PT) assinou uma MP (medida provisória) vetando qualquer tipo de casa online de jogos e apostas.
Os dados do INSS levam em conta os diagnósticos de jogo patológico (CID F63.0) e mania de jogo e apostas (Z72.6). Os números foram consultados em respostas dadas pelo INSS e constantes no portal da transparência da LAI (Lei de Acesso à Informação) do governo federal.
Somente em 2026, foram 260 benefícios concedidos no primeiro semestre que deixaram os trabalhadores fora do trabalho por um período médio de 62 dias.
Olhando ainda os dados detalhados de 2026, é possível ver que 70% dos benefícios concedidos correspondem a pessoas que têm até 39 anos.
Ao todo, 24 estados mais o Distrito Federal tiveram casos de benefícios concedidos em 2026, com destaque para São Paulo (só ficam de fora Amapá e Piauí, que não aparecem com casos no sistema).
Benefícios por estado em 2026:
- São Paulo – 83
- Rio de Janeiro – 26
- Minas Gerais – 25
- Rio Grande do Sul – 23
- Paraná – 12
- Santa Catarina – 12
- Bahia – 11
- Pernambuco – 11
- Ceará – 9
- Pará – 6
- Paraíba – 6
- Goiás – 5
- Sergipe – 5
- Distrito Federal – 4
- Alagoas – 3
- Espírito Santo – 3
- Mato Grosso do Sul – 3
- Tocantins – 3
- Acre – 2
- Rio Grande do Norte – 2
- Rondônia – 2
- Amazonas – 1
- Maranhão – 1
- Mato Grosso – 1
- Roraima – 1
Problema demorou, mas chegou ao INSS
Segundo o psiquiatra Thiago Roza, que também é neurocientista e professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná), o aumento de casos chegando ao INSS nos últimos anos reflete o tempo em que o jogo foi legalizado no Brasil. “O jogo patológico tende a demorar algum tempo para aparecer”, explica.
“Considerando que a legalização preliminar das apostas esportivas foi feita no final de 2018, esse tipo de dado pode demorar um pouco a aparecer, por exemplo, nos registros do INSS pensando em afastamentos por doença”, completa.
Outro ponto que Roza destaca é que o número de problemas mentais gerados pelo jogo deve ser bem maior, já que ele aparece na maioria das vezes como causa secundária. “Muitos dos afastamentos por depressão, risco de suicídio e outros transtornos mentais associados podem ser associados a casos graves de transtorno do jogo.”
“Muitos desses casos correm em paralelo: a depressão pode surgir depois do início do transtorno do jogo e trazer um motivo de afastamento pelo INSS, principalmente após grandes endividamentos que também se associam muito a risco de suicídio. O transtorno do jogo tem uma série de desfechos negativos associados: endividamento, prejuízos familiares e prejuízos ocupacionais são alguns deles”, Thiago Roza.
A coluna apurou também que há outra questão que faz com que trabalhadores optem por esconder a causa real do problema na perícia do INSS: o receio de julgamentos ou retaliação no ambiente de trabalho, já que a CLT (em seu artigo 482, alínea l) prevê a “prática constante de jogos de azar” como causa de demissão por justa causa.
Mais números
O mercado de bets no Brasil movimentou R$ 410,85 bilhões no primeiro semestre de 2026 e arrecadou R$ 8,75 bilhões em impostos federais até julho (foram R$ 9,9 bi em 2025). Entretanto, estudos que apontam que ela tirou até R$ 141 bilhões da economia brasileira no ano passado, gerando prejuízo às contas públicas.
Um estudo da USP calculou uma perda tributária bilionária: entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões decorrentes da perda de faturamento nos outros setores do comércio.
O rombo equivale a uma proporção entre 10% e 20% do orçamento anual da saúde pública do estado de São Paulo no ano passado, por exemplo, segundo o estudo publicado este mês.
Já as casas de apostas prometeram ir à Justiça para reclamar de um prejuízo de R$ 2,5 bilhões pagos em outorgas para operar o serviço no país.