
Depois de anos falando em “banho de sangue” no mercado de trabalho, parte dos chefes de empresas de IA começou a suavizar o discurso sobre demissões em massa – e isso diz tanto sobre a tecnologia quanto sobre o momento político, econômico e de opinião pública. O recuo aparece em falas recentes de CEOs, em dados que não confirmam um colapso generalizado e também num clima de desconfiança do público, que pressiona a indústria a trocar o apocalipse por uma promessa mais palatável de produtividade.
*O CEO da Amazon Web Services (AWS), Matt Garman, disse que previsões de que a IA eliminaria “metade” dos empregos de escritório não fecham a conta: se isso acontecesse, “a economia colapsa”, e a própria lógica de consumo e produção deixaria de funcionar.
*Garman defendeu que “sumir” e “mudar” são coisas diferentes: a IA tende a remodelar tarefas e funções, como aconteceu quando o Excel substituiu parte do trabalho manual de cálculo – e as pessoas tiveram de aprender novas ferramentas.
*A Amazon afirmou que vai contratar 11 mil estagiários e recém-formados neste ano e, segundo Garman, a empresa tem hoje mais desenvolvedores de software do que tinha dois anos atrás, mesmo com ferramentas de programação por IA mais capazes.
*Ao mesmo tempo, contudo, o CEO da Amazon, Andy Jassy, já disse que ganhos de eficiência com IA devem encolher partes do quadro corporativo; no ano passado, a empresa cortou 14 mil vagas corporativas.
*Sam Altman (OpenAI) e Dario Amodei (Anthropic), que alimentaram o medo de uma “limpeza” de empregos de escritório, passaram a admitir que erraram no curto prazo e a falar mais em produtividade do que em destruição de vagas.
*A mudança de tom ocorre quando OpenAI e Anthropic miram aberturas de capital (IPOs) e tentam parecer menos um risco social e mais uma ferramenta “normal” de eficiência para empresas – algo mais fácil de vender a investidores institucionais.
*O TechCrunch citou um relatório de Ramp e Revelio Labs: empresas que gastam pesado com IA (em média US$ 30 por funcionário por mês nos três primeiros meses) aumentaram o número de funcionários em 10,2% e, nessas companhias, vagas de entrada cresceram 12%.
*O próprio TechCrunch ressalvou que esse recorte pode distorcer a leitura: são empresas mais “tech” e em expansão, o que dificulta cravar se a IA está causando as contratações.
*Já a Forbes destacou um contraponto duro: a Oracle informou em documento regulatório que demitiu 21 mil pessoas (quase 13% do quadro) em 12 meses por causa da “adoção e implantação” de IA e avisou que novos cortes podem vir.
*A CNBC trouxe números da Challenger, Gray & Christmas: empregadores anunciaram pouco mais de 97 mil cortes em maio de 2026, e a IA foi citada como principal motivo em quase 40% desses anúncios; no acumulado de 2026 até maio, foram 87.714 cortes atribuídos à IA.
*Ainda segundo a CNBC, economistas alertam que “culpar a IA” pode virar atalho de comunicação: nem todo corte anunciado como por IA é, de fato, resultado direto de eficiência real – embora haja empresas realocando gente e investimento para áreas ligadas à tecnologia.
IAgora?
A mudança de postura de alguns dos chefes de IA tem uma razão óbvia: tentar reverter a opinião pública ruim sobre a tecnologia. Pense que nos últimos anos eles conseguiram turbinar seus produtos afirmando que seriam disruptivos ao ponto de mudarem a economia global, mas agora colhem o preço de um avesso mundial à IA.
Em um momento que as empresas estão prestes a abrir o capital, existem duas pressões convergentes: ser lucrativo e ter margem de crescimento (e popularidade) aceitável para atrair investimentos que a sustentem. A Uber, por muitos anos, se sustentou apenas no segundo pilar – e as empresas de IA, hoje, não se apoiam em nenhum dos dois.
Por outro lado, há o claro aspecto de evangelizadores da IA – e os chamados “tecnotimistas” – de que as novas ferramentas não vão eliminar empregos, mas sim migrar para outras áreas. Agora tente dizer isso a um motoristas ameaçado por um carro autônomo – e imagine isso em toda uma força de trabalho ameaçada pelos discursos desses CEOs.
Na visão desta coluna, a inteligência artificial tem o potencial de causar mudanças sociais profundas e requer novas capacidades de uma massa grande de trabalhadores que deverão passar por novas capacitações. E é importante que nenhum CEO deixe ninguém para trás como consequência de suas tecnologias.
O que o mundo está dizendo sobre isso
“A mudança de discurso é em parte de captação de recursos. Provavelmente tem um pouco de ego também”, Newsletter Axios AI+.
“Uma empresa pode dizer que a IA é o motivo de estarmos fazendo demissões, mas isso não significa necessariamente que esse seja, de fato, o motivo de essas demissões estarem acontecendo”, CNBC.
“Se você olhasse para como era o trabalho algumas décadas atrás e visse o quanto tudo é mais rápido ou mais fácil de produzir hoje, mesmo antes da IA, você certamente teria se convencido de que não sobraria emprego. E, ainda assim, aconteceu o oposto. Por quê?”, AI Magazine.
“As empresas que, daqui a três a cinco anos, vão ser as mais bem-sucedidas são as que dobraram a aposta em contratações de entrada neste ambiente”, Fortune.
Fonte: TILT/UOL