Sindicato dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio e em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Empresas de Serviços Contábeis de Campinas e Região

Exaustão algorítmica: será que você tem um chefe invisível e não sabe?

A expressão exaustão algorítmica segue atual e pode definir o estado de cansaço específico da nossa relação com as tecnologias
A expressão exaustão algorítmica segue atual e pode definir o estado de cansaço específico da nossa relação com as tecnologias – Imagem: Getty Images

*Com Issaaf Karhawi

Em 2022, cunhamos neste artigo publicado na revista científica Reciis, da Fiocruz, a expressão exaustão algorítmica. Naquela ocasião, observamos entre as pessoas influenciadoras digitais um tipo de cansaço específico, relacionado ao fato de serem trabalhadoras de plataformas, expostas a relações e condições de trabalho invisíveis, não remuneradas e não reconhecidas enquanto tal.

No artigo, expressamos nosso entendimento de que a exaustão algorítmica corresponde a um tipo peculiar de exaurimento, fruto da atuação profissional dos influenciadores digitais que, apesar de frequentemente relatada como luxuosa e desejável, é definida pela ação das corporações de tecnologia como reguladoras do trabalho.

Por conta disso, influenciadores digitais atuam sob uma temporalidade não-humana e acelerada, própria dos algoritmos; e sob uma convocação de produção constante, também própria de um chefe invisível e maquínico que não descansa. A despeito de evocarem flexibilidade e autonomia, a exaustão algorítmica denuncia um tipo específico de condição de trabalho no digital.

Pessoas influenciadoras que observamos relataram sensações relacionadas aos problemas psicológicos vivenciados por elas e geradas pelo ritmo de trabalho ditado pelo que reconhecem como “o algoritmo”. A “exaustão” caracteriza-se por um sentimento permanente de insatisfação, desânimo e esgotamento, ausência de criatividade, medo de penalidades das plataformas e de “não dar conta”.

Exploramos a noção de “exaustão algorítmica” por se tratar deste tipo específico de esgotamento, fruto da interseção entre esses fatores e da produção de um “ambiente de trabalho” tóxico para esses trabalhadores.

Desde que publicamos este artigo, o conceito que cunhamos vem sendo explorado em trabalhos da área da comunicação e da saúde para falar dos impactos do trabalho na relação com as máquinas. E, hoje, nos perguntamos: será que este nome —que surgiu para falar de um fenômeno específico na vida de quem trabalha nas plataformas— pode ser usado para nomear outras relações de trabalho, mesmo das pessoas que não são reconhecidamente “funcionárias de plataformas”?

E talvez a gente pense que sim.

Seguimos pesquisando estes efeitos nas vidas das pessoas que trabalham com produção de conteúdos e estão submetidas à regulação algorítmica, mas, ao mesmo tempo, precisamos assumir que —em muito pouco tempo— esta dinâmica de exaurimento por conta da performance digital se espraiou para a vida das pessoas comuns.

A diferença está no fato de que algumas pessoas fazem deste trabalho seu trabalho principal e sua fonte de renda exclusiva; e outras não. A maior parte de nós trabalha para as plataformas sem sermos remunerados por isso. E é bem diferente ser trabalhador de plataforma e ser uma pessoa trabalhadora que precisa produzir e postar conteúdo para mostrar seu trabalho, porque estar nas redes virou um imperativo para qualquer trabalhador autônomo ou empreendedor.

Recentemente —e passados cerca de quatro anos da publicação do artigo—, fomos também provocadas pelo texto do jornalista Alvaro Leme a retomar a conversa sobre este trabalho em função dos impactos que a IA pode ter nesta lógica.

E concordamos que a tendência —pelo modo como temos vivido a chegada dos recursos e das ferramentas de Inteligência Artificial— é a vida acelerar ainda mais e nós ficarmos ainda mais cansados, mesmo com o discurso comum das empresas de tecnologia de que a IA vai poupar nosso tempo para o que importa e assumir algumas tarefas “chatas” do nosso trabalho.

Mais cansados, sobretudo, porque respondemos a essas entidades desencarnadas, mas percebidas nas métricas dos posts que vão bem e dos posts que flopam, no anseio de manter-se “relevante” para a plataforma e na lida diária com máquinas “inteligentes”, que geram relatórios em minutos e colocam nosso próprio ritmo em perspectiva.

A expressão exaustão algorítmica segue atual e pode definir o estado de cansaço específico da nossa relação com as tecnologias, que nos mantém 24 horas por dia, 7 dias por semana performando. E precisamos seguir pesquisando outras múltiplas formas de exaustão para reconhecer, nomear a combater o cansaço e a ausência do direito ao descanso de trabalhadoras e trabalhadores cujas funções são diretamente afetadas pelos arranjos de trabalho digitais.

* Issaaf Karhawi é professora, pesquisadora, docente da Escola de Comunicações e Artes da USP e autora do livro “De blogueira a influenciadora”.

Fonte: Michelle Prazeres colunista de VivaBem no UOL

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