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Endividado não é inadimplente: saiba quando a dívida passa a ser um problema

Estar endividado nem sempre é um problema. Quando a dívida é planejada e cabe no orçamento familiar, pode bancar conquistas como a compra de um imóvel. O problema começa quando ela deixa de ser paga e a pessoa se torna inadimplente.

Dados da Serasa de julho mostram que o número de inadimplentes no país chegou a 83,9 milhões, o maior da série histórica iniciada em 2016, após 19 meses consecutivos de alta.

“O crédito é fundamental não só para a população, mas também para as empresas. Quando a renda permite honrar os compromissos, o endividamento pode ser uma ferramenta saudável de consumo ou investimento”, explica Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian.

É o caso da psicóloga Andrea Martins*, 42. Ela diz que sempre considerou importante ter dinheiro guardado como segurança. Em 2024, surgiu a oportunidade de comprar uma casa.

Andrea fez as contas e viu que conseguiria comprar e reformar o imóvel com o que tinha guardado. Mas a obra acabou demorando e custando o triplo. Enquanto a casa não ficava pronta, ela ainda pagava aluguel.

Precisou, então, recorrer a um empréstimo.

“Foi a solução para não deixar a casa inacabada. A menor taxa que encontrei era dando o carro como garantia. E também era mais rápido do que refinanciar a casa”, conta ela, que teve orientação de uma especialista em financiamentos.

Esses profissionais ajudam a encontrar opções de crédito no mercado e são remunerados pelas instituições financeiras. Por isso, é importante saber como funciona essa relação antes de contratar o serviço, que, no entanto, pode ajudar quem precisa de crédito e não sabe por onde começar.

Mas o crédito se torna um problema quando a pessoa fica sem condições de pagar o compromisso que assumiu.

“A inadimplência é um sinal de que a capacidade de pagamento acabou. Seja pelo fato de que o brasileiro perdeu a fonte de renda, seja pelo fato de que aumentaram muito suas despesas”, analisa Camila.

O tema do endividamento foi discutido por Murilo Garavello, diretor de conteúdo do UOL, e Felipe Salto, economista-chefe da Warren e colunista do UOL, no videocast Missão Saber. O programa está disponível no YouTube e em todas as plataformas de streaming e também vai ao ar às sextas-feiras, às 22h30, no Canal UOL na TV.

Cartão de crédito, o ‘vilão’

Os juros do cartão de crédito e do cheque especial estão entre os principais problemas para as finanças pessoais dos brasileiros, dizem especialistas.

“Estamos falando de taxas de juros anuais na casa de três dígitos, altíssimas. Então, uma questão importante também é como você está se endividando”, afirma Camila.

Marcel Balieiro, planejador financeiro pela Planejar, alerta para o risco de fazer uma nova dívida para pagar a anterior.

“A pessoa paga o cartão de crédito com os juros do cheque especial. Ou paga um cartão com outro cartão. Com os juros altos, essa situação vai se complicando, e o consumidor entra num espiral de que não consegue sair.”

Quando há dificuldade para pagar uma dívida, o melhor é tentar negociá-la e buscar opções com juros mais baixos, afirmam especialistas. Andrea tentou fazer isso, mas não conseguiu —justamente por causa dos juros altos.

“Tentei ir a outras instituições para ver se havia uma taxa menor, mas os juros do meu financiamento são tão altos que, hoje, a minha dívida já é maior do que o valor do meu carro. Então, não consigo transferir o crédito para outro lugar.”

Andrea conta que está tentando pegar mais trabalhos para conseguir adiantar os pagamentos das parcelas e quitar o financiamento antes do prazo.

“Mas é isso: o Brasil é um país que tem taxas de juros altas, o que favorece muito quem tem dinheiro para investir e desfavorece a maior parte da população, que ganha pouco e precisa de crédito para conseguir algo além de pagar os boletos do mês”, analisa.

“Grande parte da população ganha até um salário mínimo. Para viabilizar o consumo, o varejo ampliou o parcelamento. O brasileiro tende a olhar menos para o total e mais para o que cabe no orçamento mensal. É uma equação complexa, de juros altos e renda comprometida, com pessoas gerenciando as finanças para sobreviver”, Camila Abdelmalack economista-chefe da Serasa Experian.

Renda comprometida

A visão de Andrea é coerente com a realidade do país. Segundo dados da Serasa, em média, um CPF inadimplente carrega quatro dívidas não pagas.

“Hoje, as dívidas comprometem uma parcela muito grande da renda das famílias brasileiras. Na Serasa, consideramos também as contas básicas e o cartão de crédito, cuja fatura entendemos como despesa corrente”, afirma Camila.

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Mesmo com a inflação sob controle e o desemprego em queda (hoje em 5,4%, considerando o trimestre abril-maio-junho de 2026, segundo o IBGE), o custo de vida pode pesar de forma diferente sobre as famílias, afirma Balieiro.

“Cada população lida com um tipo de inflação. O IPCA não corresponde necessariamente à realidade da maioria. No mercado, muitas vezes, vemos preços subirem mais do que o índice aponta. Basta comparar a conta de hoje com a de 12 meses atrás”, afirma Balieiro.

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Educação financeira importa

Embora fatores econômicos e sociais pesem sobre a capacidade do brasileiro de pagar suas contas e dívidas, especialistas também apontam a falta de educação financeira no país.

Em muitos casos, não houve orientação para lidar com o dinheiro, o que dificulta a administração das próprias finanças.

“Infelizmente, a gente sabe que a população não teve acesso à educação financeira, não sabe os melhores momentos para assumir dívidas ou quando não se comprometer”, analisa Cíntia Senna, mestre no assunto.

O aumento do acesso ao crédito e a bancarização veio acompanhado de outro fenômeno que preocupa especialistas: as apostas online.

A pesquisa “Raio X do Investidor Brasileiro”, realizada pela ANBIMA (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) em 2024, mostrou que aproximadamente 23 milhões de brasileiros apostaram naquele ano, sendo que 47% estavam com dívidas em atraso.

A inadimplência chegava a 51% entre os que enxergavam as bets como uma espécie de “investimento”.

“Quem está mais vulnerável pode ver as apostas como alternativa para resolver dívidas. É preciso deixar claro que bets não são renda extra. A propaganda massiva, na TV e na internet, pode passar a ideia de que não há risco, mas muita gente perde o controle”, afirma Camila.

*O nome foi trocado a pedido da entrevistada

Fonte: TAB/UOL

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