Sindicato dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio e em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Empresas de Serviços Contábeis de Campinas e Região

Vítimas de bets expõem dramas pessoais nas redes em campanha contra vício em jogos

Consideradas um dos maiores problemas no endividamento dos brasileiros, as bets saíram da esfera da economia para entrar nas discussões sobre saúde pública nas redes sociais, com uma série de relatos dramáticos de ex-apostadores em uma espécie de campanha contra o vício em jogos.

Essas histórias revelam um padrão de dívidas acumuladas, empréstimos oficiais e com agiotas, isolamento, ansiedade e depressão. Em situações extremas, aparecem ideações suicidas, tentativas de suicídio e casos consumados.

Foi o que ocorreu com o irmão da advogada baiana Juliana Prates, que tirou a própria vida após se endividar em mais de R$ 1,5 milhão.

“Foi só depois que comecei a estudar a ludopatia e a ouvir milhares de famílias que compreendi uma das faces mais cruéis da dependência nos jogos”, Juliana Prates.

Ela se tornou uma ativista contra a ludopatia, que é a compulsão por jogar e apostar em jogos de azar. Como candidata a deputada em seu estado, ela tem como bandeira o combate às bets.

Um levantamento feito pelo Núcleo de Integridade da Informação, da Agência Nova, mostra como o tema tem sido ampliado nas redes sociais, com depoimentos de pessoas atingidas pela onda de apostas e reverberados por agentes políticos como parlamentares e por profissionais de saúde. O estudo analisou cerca de 4.700 perfis e 3.400 conexões no X (antigo Twitter), entre 26 de julho e 18 de agosto.

Apostas interferem nas relações familiares

A ludopatia também abala as relações familiares: apostadores relatam mentiras constantes, perda de credibilidade e culpa por comprometer o sustento de pessoas próximas. Especialistas citados na análise chamam a atenção para o aumento das internações, principalmente de jovens, e para pensamentos suicidas após grandes perdas financeiras.

Parte dessa mudança no debate é impulsionada pelos próprios atingidos. Lucas Lima, que tem 33 mil seguidores, relata ter perdido R$ 4 milhões em bets e descreve como o vício se desdobrou em depressão.

Gabriel Lima, responsável pelo perfil “Gabriel Contra o Vício”, passou nove meses internado em uma casa de reabilitação e hoje reúne pedidos de ajuda e depoimentos de seguidores. Perfis como “Diário de um ex-apostador” e “Anti Bet Brasil” compartilham estratégias para interromper o ciclo de apostas e registram o número de dias longe dos jogos.

O impacto chega também ao trabalho. Segundo dados do INSS apresentados no relatório, entre junho de 2023 e abril de 2025 foram concedidos 276 auxílios-doença em consequência da ludopatia, crescimento de 2.300% em comparação com o período de 2015 a 2022. Os homens representaram 73% dos beneficiários, e pessoas de 18 a 39 anos, 80%.

Empresários relatam pedidos de adiantamento salarial e de empréstimos feitos por funcionários endividados, além de exaustão física, perda de produtividade e supostos desvios de dinheiro para pagar dívidas.

Apostas online drenaram bilhões do comércio nacional

A dimensão econômica, porém, permanece conectada à crise de saúde. Entre janeiro de 2023 e março de 2026, as apostas online drenaram cerca de R$ 143,8 bilhões do comércio nacional, de acordo com levantamento da Confederação Nacional do Comércio citado na análise. Em 2025, as bets provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras.Continua após a publicidade

Nas redes, essas perdas aparecem associadas ao dinheiro que deixa de pagar aluguel, alimentação, material escolar, medicamentos e cuidados pessoais —reforçando a percepção de que a ludopatia não é apenas uma escolha individual, mas um problema que atravessa a saúde, a economia, o trabalho e as relações familiares.

A discussão em torno das bets ganhou mais força com a Copa do Mundo. Mas se mantém com depoimentos e críticas. A professora Vânia de Souza, que perdeu um filho de 26 anos depois de ele se ver endividado com as apostas, escreveu: “Quem faz propaganda de bet para mim é traficante”.

O neuropsicoterapeuta Marlon Ribeiro, responsável pelo perfil Marlon Fora do Jogo, afirmou que “quando nasce um apostador nasce também um mentiroso profissional”.

Eduardo Luvizetto dos Santos, que perdeu a vaga na pré-seleção de uma bolsa do Prouni em razão da movimentação financeira ligada às apostas da mãe, deu seu depoimento: “É jogo de perde perde, é jogo de azar. Imagina quantas pessoas também não perderam a faculdade porque estavam apostando e nem sabiam que isso poderia ser considerado como renda?”, Eduardo Luvizetto dos Santos.

Presidenciáveis defendem proibir ou maior rigor

Entre os candidatos a presidente, a maioria defende a proibição ou maior rigor contra as bets. “Se depender da minha vontade pessoal, nós acabamos com as bets”, chegou a dizer Lula. Seu governo proibiu que beneficiários de programas sociais usem os recursos recebidos em apostas.

Já Flávio Bolsonaro (PL), em seu programa de governo, propõe a mesma medida que já está em vigor, enquanto seu candidato a vice, o deputado Alfredo Gaspar, defende rever a regulamentação do setor.

Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) afirmam que, se eleitos, vão banir as empresas de apostas. Ronaldo Caiado (PSD) defende regras mais rígidas e teto de apostas, além de maior fiscalização e combate à lavagem de dinheiro.

Procure ajuda

Se você estiver tendo pensamentos suicidas, procure ajuda especializada.

CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188. Também há atendimento por chat, e-mail e presencialmente.
Outra opção é procurar um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) na sua cidade.

Há ainda o Pode Falar, canal criado pelo Unicef para jovens de 13 a 24 anos, com atendimento anônimo e gratuito.

Fonte: Tatiana Farah colunista do UOL

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