Às vésperas das eleições, um estudo inédito do Projeto Desapocalíptica da Avaaz, em parceria com o Datafolha, relaciona o crescimento da abstenção eleitoral no Brasil com pelo menos três fatores sobre os quais venho conversando com vocês por aqui: a epidemia de solidão, o esgotamento mental e a dependência digital.
Quando eu vi o resultado do Termômetro do Bem Viver, fiquei triste, porque ele evidencia essa crise, mas contente, porque temos agora como demonstrar com números o fato de que nossos corpos cansados não são consequência desse modo de vida, mas o motor desse jeito de (sobre)viver.
Corpos cansados não votam; ou não votam interessados, de forma reflexiva, pensando em questões coletivas. Corpos isolados e fragmentados pensam somente em si próprios, na sobrevivência imediata. Corpos viciados em plataformas digitais são domesticados e orientados pelos algoritmos a comportamentos arbitrários sugestionados pelas empresas de tecnologia.
“Se nosso estudo fosse resumido a uma frase, seria: gente exausta não consegue esperançar”, defende Nana Queiroz, diretora do Projeto Desapocalíptica. Para ela, “o brasileiro não cansou da democracia, cansou de ser ignorado por um Congresso comprometido com a política da exaustão, que perpetua jornadas massacrantes, redes sociais tóxicas e cidades sem vida”.
O estudo é uma oportunidade de entender, segundo Nana, que “a resposta para essa crise é levar a filosofia do Bem Viver para o centro das urnas: votando em candidatos ao Congresso que sejam comprometidos com pautas concretas, como o fim da jornada 6×1, a regulação das redes e a proteção de áreas verdes”.
O termômetro apresenta um olhar inédito para a relação entre eleições e exaustão; agenda o tema do bem viver, importantíssimo para compreendermos as questões do bem-estar, do cuidado e da saúde mental enquanto questões coletivas, que demandam saídas sistêmicas; e oferece elementos para buscarmos candidatos e candidatas comprometidos com essa agenda. Sei que sou suspeita para falar, mas no meu modo de ver, essa pauta é a mais urgente e importante deste momento. Precisamos despertar para isso. E isso sim é urgente.
O estudo indica que a ausência nas urnas (que cresceu para quase um quarto do eleitorado no último pleito) não é mero desinteresse ideológico, mas reflexo de um eleitorado exausto e sem conexão comunitária.
Essa é uma forma de medir o bem-estar inspirada em metodologias globais, que propõe uma nova lente cultural: avaliar a qualidade de vida dos brasileiros para além dos indicadores tradicionais de consumo, conforto material ou desempenho do PIB. O estudo mapeou o grau de vínculo dos indivíduos com as pessoas ao seu redor, suas comunidades e o meio ambiente e classificou as pessoas participantes entre “desvinculados” (isolados e exaustos); e “vinculados” (conectados e engajados).
Quase a metade (47%) dos brasileiros que se enquadram no perfil de desvinculados já deixou de votar ou vota raramente; 27% desistiram totalmente de votar. Enquanto isso, 9 em cada 10 indivíduos classificados como “vinculados” comparecem às urnas. O estudo aponta ainda a juventude como o epicentro desse isolamento: 44% dos jovens entre 18 e 34 anos são desvinculados, enquanto apenas 21% são vinculados.
Nana Queiroz, diretora do Projeto Desapocalíptica, respondeu a questões da coluna sobre o estudo.
O que esses dados nos dizem sobre o estado emocional e social com que os brasileiros chegam às urnas em 2026?
A principal descoberta da nossa pesquisa é a de que pessoas que não se sentem parte de um todo, ou seja, não têm vínculos com a comunidade e a natureza ao seu redor, perdem a esperança e tendem a desistir de votar. Essas pessoas que chamamos de “desvinculadas” também acreditam menos na democracia.
Nos grupos focais, identificamos que os desvinculados vivem um ciclo destrutivo. Exaustos, buscam anestesia na TV e nas redes sociais. As plataformas digitais, desreguladas e voltadas ao lucro, exploram algoritmos de ódio para reter a atenção, gerando culpa, isolamento e solidão. E pessoas sem esperança não votam.
O que os dados dizem sobre o que precisa mudar em relação a como enxergamos (ou sobre o que não vemos) as relações entre democracia, plataformas digitais e direito ao descanso?
O estudo inova ao mostrar que o desinteresse político não surge do nada. Quem já perdeu a conexão com a própria vida social e se anestesia em telas dificilmente acreditará na transformação pelo voto — sobretudo quando a classe política ignora suas necessidades diárias. Ou seja: a política da exaustão em que vivemos está corroendo a qualidade de vida dos brasileiros e, com ela, sua fé na democracia.
O que a gente chama de política da exaustão são essas políticas que colocam o ser humano num ciclo eterno de produção, solidão e exaustão. Como se as pessoas só existissem na função de trabalhador ou de consumidor. Por exemplo:
- Escala 6×1: impede o convívio social e o afeto.
- Redes desreguladas: lucram com o scroll infinito e engajam pela raiva.
- Cidades sem verde e/ou com parques de acesso inseguro: privam a população do contato com a natureza.
Esse distanciamento não acontece por acaso: ele é alimentado diariamente pelo noticiário e pelo algoritmo das redes. Crises institucionais e escândalos políticos, como os que temos assistido no Supremo Tribunal Federal nas últimas semanas, operam como um gerador de impotência. Os participantes do estudo descreveram isso como uma sensação de que “nada vai mudar” que esvazia ainda mais a disposição de ir às urnas.
O dado mais alarmante é a alta proporção de jovens entre os desvinculados. Trata-se de um alerta vermelho para o futuro político do país, sinalizando o risco de uma escalada de abstenção e apatia.
O que é necessário fazer para que o debate eleitoral incorpore o Bem Viver como dimensão concreta da vida das pessoas?
Não foi à toa que escolhemos o Bem Viver como régua desse estudo. Ele não é apenas uma filosofia baseada no modo de vida dos povos indígenas latinos: é uma matriz para o desenho de políticas públicas e já foi consagrada nas Constituições do Equador e da Bolívia. Essa visão de mundo defende que o verdadeiro progresso depende de relações de cuidado, cooperação, justiça social e sustentabilidade, reconhecendo que o bem-estar individual é inseparável do coletivo.
O brasileiro não cansou da democracia, cansou de ser esquecido pelo Congresso. Proteger a democracia exige reconectar as pessoas —umas às outras e à natureza. Mais: para resolver a crise de abstenção precisamos trazer o debate sobre as políticas do Bem Viver para o centro do debate eleitoral.
A pesquisa traz outros destaques sobre o comportamento dos eleitores:
- O voto é pragmático e sem esperança: mesmo o eleitor engajado vota de forma defensiva para evitar retrocessos políticos (“redução de danos”), enquanto o mais desiludido encara o ato apenas como uma obrigação burocrática para não anular documentos.
- A fé na democracia depende de vínculo comunitário: a pesquisa revela que 79% dos brasileiros vinculados consideram a democracia inegociável, contra apenas 30% entre os desvinculados.
- A juventude como epicentro da falta de vínculo: quanto mais velhos, maior é o nível de vínculo dos entrevistados com os princípios do Bem Viver. Quando olhamos para os mais jovens, entre 18 e 34 anos, o número de desvinculados do Bem Viver é o dobro (44%) dos vinculados (21,6%). Já quando olhamos para os vinculados, 78% estão acima dos 35 anos.
- Telas são escape e natureza é antídoto para a exaustão: o celular atua como anestésico contra a ansiedade e o tédio dos mais jovens, gerando culpa. Em contrapartida, o contato com o meio ambiente é visto de forma unânime como o verdadeiro restaurador da saúde mental.
- Redes sociais e noticiário são fontes de desesperança: se na rotina privada (família e afetos) o brasileiro se declara feliz, o fluxo incessante de tragédias políticas e climáticas nas redes sociais e noticiários alimenta uma profunda desesperança e impotência sobre o futuro coletivo.
De matriz indígena, o Bem Viver é uma filosofia que propõe uma organização social focada na harmonia entre as pessoas, a comunidade e a natureza. Essa visão de mundo defende que o verdadeiro progresso depende de relações de cuidado, cooperação, justiça social e sustentabilidade, reconhecendo que o bem-estar individual é inseparável do coletivo. Já consagrado nas Constituições do Equador e da Bolívia, o Bem Viver é mais que um conceito: é uma bússola para a organização política da sociedade e uma matriz concreta para o desenho de políticas públicas.