Algoritmo, algoz do ritmo: como as plataformas sequestraram nosso tempo
Esses dias, participei da gravação de um podcast sobre “vida offline” e anotei no meu caderno (sim, sou uma pessoa “analógica”: minha agenda é impressa e anoto muitas coisas em muitos cadernos) uma questão que me surgiu quando estávamos no meio da conversa.
A apresentadora fez uma pergunta para o convidado que dividia a mesa conosco: Neste mundo superfragmentado, de experiências particulares, em que cada um de nós está nos nossos celulares, acessando múltiplas realidades, como fica a ideia de verdade? Existe uma verdade partilhada? E eu anotei em meu caderno “verdade sensível”.
De fato, do ponto de vista dos temas, agendas e conteúdos, ou ainda quando pensamos em como era a realidade antes da internet e da plataformização da vida, tínhamos, talvez (ou seria uma fantasia de totalidade?) um conjunto de mecanismos midiáticos e veículos de comunicação que, de alguma forma, nos contavam as mesmas histórias.
E nós, públicos e audiências, assistíamos aos mesmos programas, nos mesmos horários; ou líamos os mesmos jornais e revistas; e, de alguma maneira, isso dava uma sensação (e vários estudos de mídia vão nessa linha) de que havia uma unidade, uma partilha de interesses, algo que poderíamos chamar de uma verdade partilhada. O tal consenso, ou senso comum ou ainda o “debate público” ou uma “agenda” de temas considerados relevantes e que todos partilhávamos. A informação funcionava como uma espécie de “cola social”.
Isso não deixou de existir. Os veículos de mídia seguem selecionando, filtrando e nos contando o que são as informações mais relevantes do momento. Mas, de alguma forma, o modo de consumir essas informações mudou e — podemos dizer — se diversificou (para o bem e para o mal, claro. No mar de excessos, há muita desinformação).
Mas voltando à pergunta que a apresentadora fez no podcast e à minha anotação: será que as plataformas digitais estão criando múltiplas verdades? Será que a ideia de uma verdade comum e partilhada já era?
Eu fiquei pensando que talvez faça sentido, sim, pensar que sempre existiram múltiplas verdades e que a forma como vivemos hoje, especialmente na relação com as tecnologias e plataformas, é uma espécie de fermento dessa lógica: a esse universo, interessa que estejamos cada vez mais sozinhos, isolados, fragmentados, pois, assim, trabalhamos mais, consumimos mais e alocamos mais tempo para as próprias plataformas.
Mas também é verdade que ainda existem verdades comuns. E que elas coexistem com essas múltiplas verdades ou fragmentos de verdades. Uma dessas verdades (que podemos dizer “mais universais”) é a velocidade. E talvez alguns dos consensos contemporâneos sejam aqueles grandes consensos relacionados a temas e agendas; mas existem verdades comuns que se dão no campo mais sutil. Daí minha anotação “verdade sensível”.
Muitas vezes sem a gente perceber, os dispositivos tecnológicos são “disfarçados” de ferramentas, mas são, na realidade, dispositivos culturais. Eles “carregam” o que na minha pesquisa chamei de currículo oculto: conteúdos que não conseguimos perceber ou reconhecer, mas que estão ali impregnados nas ferramentas e, de alguma maneira, penetram nas realidades em que estas ferramentas são mobilizadas.
O pesquisador bielorrusso Evgeny Morozov chamou de “agenda Big Tech” o projeto das empresas de tecnologia do Vale do Silício. E essa ideia dialoga com a que chamei de currículo oculto: são valores, crenças, culturas e até práticas que as ferramentas tecnológicas imprimem em espaços que adentram — e muitas vezes de forma sub-reptícia, clandestina.
Por exemplo, quando um equipamento digital entra na escola (em geral por um argumento de “modernização”), ele acelera algumas dinâmicas, reconfigura relações, remodela a forma como se dão os vínculos, redimensiona a comunicação e a convivência naquele ambiente. De algum modo, é possível afirmar que esses aparelhos levam a velocidade para esse ambiente. Ou potencializam uma velocidade que já estava instalada ali, acelerando-a. Não é à toa que, anos depois de as escolas aderirem a toda sorte de tecnologias, avançamos para a proibição de aparelhos celulares, tendo em vista o reconhecimento de que eles comprometem dinâmicas essenciais da educação, como a atenção e a presença.
E isso acontece de forma mais global com nossas relações. Aqui, eu contei por que começamos acelerando áudios e queremos, agora, acelerar as pessoas. As tecnologias parecem aparatos “técnicos”, mas são dispositivos de transmissão cultural.
O algoritmo não existe somente para sugerir produtos e conteúdos para você consumir. Ele também sugere comportamentos, padrões e parâmetros. Alguns estudos especulam se esses mecanismos operam para convencer as pessoas a desfazerem relacionamentos e a se distanciarem dos amigos, por exemplo. Porque quanto mais sozinhas, mais elas consomem as sugestões do próprio algoritmo.
Então, eu responderia à pergunta sobre a verdade talvez dizendo que sempre existiram múltiplas verdades, as diversidades, diferentes posições e modos de ver e entender o mundo (ufa, que bom!). Mas as tecnologias transformam essas verdades, conformam as famigeradas “bolhas” e reconfiguram o modo como acessamos e acolhemos nossas próprias verdades.
E elas fazem isso porque estão assentadas em uma verdade que nos é comum: a cultura que estas plataformas estabelecem muitas vezes sem a gente perceber. Por exemplo, é desejável que sejamos ágeis, produtivos, trabalhadores, bem-sucedidos, felizes, positivos, conectados, informados sobre tudo. Uma dessas “grandes verdades ocultas” é a de que precisamos ser velozes ou ficaremos para trás.
Daí vem o título trocadilho desse texto. A vida algoritmizada altera nossa percepção do tempo, sequestra nossa atenção, rouba nosso interesse e nossa disponibilidade para o outro, inibe a formação de comunidade e torna proibitivo o uso do tempo para o ócio, o lazer ou o descanso.
Claro que as tecnologias não são as únicas forças aceleradoras da experiência, mas a vida que levamos, tendo nosso comportamento guiado por essas estruturas (mercadológicas e opacas), está nos adoecendo de velocidade.
A produtividade tóxica, a nossa concepção de “vida útil”, o consumo exagerado, a totalização do trabalho, a erosão dos espaços de convivência, as ansiedades algorítmicas, a forma como estamos acelerando os processos educacionais e as infâncias… são infinitos os exemplos que podemos listar de como a lógica do algoritmo se alastra para outros campos da vida, acelerando nossos tempos e ritmos.
A vida nas plataformas não é um “espaço” à parte, que acessamos enquanto estamos “online”. As regras da vida nas plataformas se espraiaram para toda a nossa existência.
Essa “cartilha” não está publicada em nenhum lugar, mas ela está nos nossos corpos, condicionando a nossa existência. É o que chamei de verdade sensível comum. Desacelerar, então, não é ser devagar, mas sair do automático que esse modo de funcionar sugere. Sair do tempo ininterrupto. Sair do estado anestésico. Parar, pensar, sentir. Respirar e voltar a perceber. E descansar e ter tempo livre são direitos, porque isso não pode ser um privilégio para poucos.
