O ajuste fiscal de cerca de R$ 200 bilhões proposto pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), apelidado de “tesouraço”, pode eliminar aproximadamente 2,2 milhões de postos de trabalho e provocar um impacto negativo equivalente a 1,55% do Produto Interno Bruto (PIB), reduzindo o crescimento econômico previsto para 2027. A estimativa é do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), entidade mantida por sindicatos, que divulga hoje um estudo sobre os possíveis impactos da proposta, a três dias do segundo turno.
Segundo o Dieese, a redução de gastos também diminuiria a massa salarial em R$ 68,7 bilhões e a arrecadação de impostos em R$ 46,8 bilhões em 2027. A queda na receita consumiria cerca de 40% da economia bruta obtida com os cortes, o que, na avaliação do instituto, comprometeria o próprio objetivo fiscal anunciado pela campanha.
Como a equipe econômica do candidato ainda não detalhou as medidas, o Dieese partiu da hipótese de congelamento das despesas primárias em termos reais, corrigidas apenas pela inflação estimada de 4,5%.
O Dieese calcula cortes acumulados de R$ 175,4 bilhões em 18 meses. Ao acrescentar a meta de superávit primário de R$ 18,6 bilhões prevista para 2027, o instituto chega a um esforço fiscal de R$ 194 bilhões, equivalente a aproximadamente 1,5% do PIB.
Na ausência de detalhamento sobre quais despesas seriam cortadas, o Dieese construiu uma distribuição hipotética do ajuste, atribuindo 51% às transferências de renda (Previdência, abono salarial, seguro-desemprego e BPC, o Benefício de Prestação Continuada), 17% às despesas com pessoal e 32% às demais despesas.
A composição pesa no resultado. Com base em multiplicadores fiscais calculados pelo Ministério da Fazenda, o estudo considera que cada R$ 1 em transferências de renda gera R$ 2,68 no PIB, contra R$ 0,74 dos gastos com pessoal. Por isso, as transferências responderiam por 79% da perda estimada de R$ 203,1 bilhões na atividade econômica.
Cenários para o emprego
Além do cenário-base de crescimento zero, o Dieese simulou duas trajetórias para a economia brasileira em 2027. No otimista, que usa o crescimento de 2,46% previsto na PLOA, o ajuste reduziria a expansão da economia para 0,91% em 2027. Seriam criados 1,14 milhão de postos de trabalho, abaixo dos 1,33 milhão necessários por ano para absorver o crescimento da população economicamente ativa, o que faria o desemprego subir.
No cenário pessimista, baseado na projeção de 1,4% do Boletim Focus, do Banco Central, o PIB recuaria 0,15%, levando o país à recessão. Haveria perda líquida de cerca de 271 mil vagas e um déficit superior a 1,5 milhão de oportunidades em relação à demanda por trabalho. A taxa de desocupação poderia chegar a entre 6,5% e 7% já no primeiro ano, e o número de desempregados passaria de 5,8 milhões para 7,4 milhões.Continua após a publicidade
Dívida não se estabilizaria, segundo estudo
Segundo os cálculos, o resultado primário no primeiro ano ficaria em torno de R$ 88,7 bilhões, ou 0,7% do PIB, bem abaixo do necessário para estabilizar a relação entre dívida e PIB, meta anunciada pela campanha. O estudo cita relatório de junho da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, segundo o qual seria preciso um superávit de cerca de 2,3% do PIB (R$ 266 bilhões) para estabilizar a dívida no nível de 2025, considerando crescimento de 2% e juros reais de 5% ao ano.
Para o Dieese, o diagnóstico que embasa a proposta está equivocado, pois o crescimento recente da dívida decorreria sobretudo do peso dos juros, e não de descontrole das despesas primárias. A entidade argumenta que despesas com menor efeito multiplicador, como juros da dívida e incentivos fiscais, ficaram fora do ajuste.
Dieese avalia que esse ajuste exigiria alterações nas vinculações constitucionais, como o piso previdenciário ligado ao salário mínimo, o BPC e os mínimos de saúde e educação, o que explicaria a opção por uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).
O que diz o candidato
Em sabatina ao Jornal Nacional da TV Globo no último dia 16, Flávio Bolsonaro prometeu promover um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões sem reduzir benefícios sociais.
Ele prometeu extinguir pelo menos dez ministérios e defendeu o aproveitamento de imóveis públicos para gerar receitas, colocando em um fundo de gestão e securitizando parte dos mais de 30 mil imóveis da União.
A coordenadora da equipe econômica da campanha, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, afirmou em agosto à GloboNews que o plano prevê um ajuste de 1,5% do PIB, cerca de R$ 190 bilhões. Em agosto, o candidato também associou o “tesouraço” à redução da carga tributária, à desburocratização, à revisão do arcabouço fiscal e à diminuição do número de ministérios.
O debate ocorre num momento em que a dívida pública bruta chegou a 82,9% do PIB em agosto, o maior percentual desde março de 2021. Os dois candidatos reconhecem o problema, mas propõem caminhos distintos: Lula defende manter o arcabouço fiscal e crescer para arrecadar mais, enquanto Flávio promete cortar gastos e reduzir impostos.
O próprio Dieese reconhece limitações do exercício. A composição do corte foi simplificada para viabilizar a estimativa. E a Matriz Insumo-Produto usada é um modelo estático, que não incorpora uma eventual queda dos juros após o ajuste. A entidade argumenta, porém, que os efeitos da política monetária levam de seis a nove meses para se manifestar e dificilmente compensariam os cortes ainda em 2027. O estudo afirma ainda que os resultados podem ser revistos se a campanha divulgar mais detalhes do plano.