Julgamento nos EUA joga redes sociais nas cordas pela 1ª vez por vício de usuário

Um julgamento que começou em fevereiro, nos Estados Unidos, pode virar um divisor de águas para big techs ao colocar Instagram e YouTube no banco dos réus sob a acusação de estimularem vício em crianças e adolescentes.
No novo episódio de Deu Tilt, o podcast do UOL para os humanos por trás das máquinas, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes explicam por que o caso é inédito, já que saem as acusações sobre o descuido com conteúdo e estratégias para minar a concorrência e entra algo novo, como as plataformas são desenhadas.
“Uma jovem nomeada só como Kaley e a mãe dela levaram para a justiça as grandes empresas de tecnologia. A novidade aqui é o porquê. Essas duas mulheres acusam as big techs de promoverem o vício nas próprias plataformas para crianças e adolescentes. Ela tem 20 anos agora, mas disse que começou a usar redes sociais quando tinha 6 anos, primeiro no YouTube, e aos 9 entrou no Instagram”, Helton Simões Gomes.
TikTok e Snap eram alvo da ação, mas fizeram um acordo. Instagram e YouTube não bateram o martelo e preferiram a resolução pela via judicial.
Diogo Cortiz destaca que o ponto central é a virada de foco: em vez de discutir apenas responsabilidade por posts de terceiros, o caso coloca em xeque a interface construída pelas grandes empresas de tecnologia para empurrar o usuário a ficar mais tempo na tela.
“Esse julgamento vai um pouco além e começa a discutir a própria arquitetura das plataformas. Isso muda totalmente quando a gente começa a colocar os sistemas de recomendação. A plataforma deixa de ser um ambiente neutro porque ela começa a entregar os conteúdos. Ela determina o que vai para você, ainda que aquele conteúdo não tenha sido endereçado para você”, Diogo Cortiz.
A acusação descreve recursos como botão de curtir, scroll infinito, autoplay, notificações e recomendações como parte de uma estrutura para prolongar o tempo de tela – o que os
Os advogados classificam como “arquitetura do vício” os vários recursos das plataformas empregados para reter a atenção dos usuários. Diogo lista alguns deles:
- botão de curtir,
- scroll infinito,
- vídeos em autoplay,
- notificações,
- recomendações do algoritmo.
Se a Justiça reconhecer que o design é viciante, a punição pode ir além de indenização, avalia Diogo, pois abre caminho para exigências de mudança de interface, ajustes que não ocorreria por pura vontade das empresas.
“Será que vai ser necessário mudar o desenho das plataformas? Por autorregulação, por vontade própria, isso não vai acontecer jamais, porque é o modelo das plataformas que está em jogo. Precisaria ter uma regulação mais específica. A Comissão Europeia falou que o TikTok é desenhado para causar vício e ele agora precisa mudar a interface se quiser continuar operando lá”, Diogo Cortiz.
“Esse caso pode trazer muitas consequências porque já tem na justiça outros 1.500, 1.600 ações judiciais com esse mesmo teor. Grandes executivos estão sendo mobilizados para testemunhar nesse julgamento, porque não é um caso trivial”, Helton Simões Gomes.
Na visão das vítimas, o objetivo vai além do dinheiro. É forçar correções no produto, criando precedente de “defeito de fábrica”.
Entre as alternativas, Diogo cita a ideia de implantar um feed cronológico obrigatório para dar mais autonomia ao usuário e reduzir a entrega de conteúdos por recomendação. Para ele, regular design não é sinônimo de censura.
O julgamento deve ter seu resultado divulgado nos próximos dias e pode mudar como o público encara as redes.
Fonte: TILT no UOL
