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Liberdade ou salário alto? Mulheres não deviam precisar escolher

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Imagem: GettyImages

O modelo de trabalho presencial voltou e adivinha quem se danou? As mulheres.

Glossário de Prata chegando com um termo que vem rondando as conversas sobre produtividade e futuro do trabalho, depois do fim do home office: “microshifting“.

A tradução é algo como microturnos. Basicamente o seguinte: em vez daquele turno único das nove às seis, num único emprego, o dia vira uma espécie de Tetris, em que vamos encaixando na agenda tarefas profissionais e pessoais. Estudantes podem equilibrar funções profissionais entre trabalhos da faculdade; quem é freelancer divide o dia entre projetos diferentes; mães, pais e cuidadores podem se dividir entre tocar a vida das crianças com trabalho.

Para quem quer liberdade na administração da agenda, parece ótimo. Pesquisas mostram que a maioria das pessoas gostaria de ter mais liberdade de horário. Entre os mais jovens, isso já é quase condição para aceitar um emprego. O problema é que, para ter essa flexibilidade, muita gente tem tido que aceitar rebaixamentos, mudanças de área e até corte de salário. E muita gente quem? A maioria, mulher.

Um levantamento recente mostra que 81% das mulheres dizem que deixariam os empregos se fossem obrigadas a voltar 100% ao presencial, contra 66% dos homens. Mesmo em cenários de redução parcial do home office, nós somos as que mais pensam em deixar o trabalho caso essa mudança ocorra. Em setores como finanças e tecnologia, chegamos a sair quase três vezes mais do que os homens quando o presencial volta a ser a regra.

Há, portanto, um vetor decisivo na discussão sobre o futuro do trabalho: o tempo de cuidado.

Segundo dados recentes, no Brasil, as mulheres dedicam, em média, 21,3 horas por semana a tarefas domésticas e cuidado de pessoas; os homens, 11,7 horas. É quase meia jornada extra, por fora do emprego formal. Para a surpresa de ninguém, entre as mulheres pretas ou pardas e as mais pobres, essa carga é maior.

No mundo inteiro, a lógica se repete. Estudos da Oxfam estimam que mulheres e meninas fazem a maior parte do trabalho de cuidado não pago. Uma análise do New York Times calcula que, se esse trabalho invisível fosse valorizado ao salário mínimo, isso representaria uma contribuição para a economia global de cerca de US$ 10,8 trilhões por ano. Só no Brasil, essa valorização acrescentaria cerca de 13% ao PIB do país, segundo a Fundação Getúlio Vargas.

O pano de fundo não é novo. Afinal, as mulheres sempre equilibraram trabalho fora e dentro de casa. A questão é que, em algum momento, a ideia de home office parecia uma ótima para que nenhum pratinho caísse – afinal, estaríamos trabalhando perto dos pratinhos.

Mas, se para dar conta de tudo, é preciso ganhar menos, essa liberdade passa a ser um tanto ilusória. E o tal do microshifting acaba sendo uma perpetuação da condição “inferior” das mulheres no mercado de trabalho.

Já falei aqui que, nos EUA, os salários de mulheres e homens estavam começando a se equiparar, né? No Brasil, a gente não tem estudos que mostram uma “reversão” da desigualdade salarial entre homens e mulheres. Até porque, por aqui, a diferença sempre se manteve parecida, ou seja, por volta dos 21% a menos para as mulheres.

Nessa nova-velha realidade, a gente anda para trás. E o abismo entre os ganhos volta a crescer. A economista Claudia Goldin, Nobel em 2023, resumiu bem o problema quando disse que “a igualdade no mercado de trabalho depende da igualdade dentro de casa”.

Por isso que, quando, à beira de 2026, ainda tem muita mulher escolhendo ganhar menos para conseguir tocar a vida, talvez a pergunta não devesse ser se vamos trabalhar no escritório, em casa ou em microturnos. Talvez devesse ser: que tipo de futuro do trabalho estamos construindo se, para ele funcionar, tantas mulheres ainda precisem ganhar tão menos para dar conta de muito mais?

Fonte: Universa/UOL