Sindicato dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio e em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Empresas de Serviços Contábeis de Campinas e Região

Por que 6 trabalhadores foram esfaqueados por colegas em apenas 2 dias?

O estado de São Paulo foi palco de duas tragédias com trabalhadores em seu local de serviço no intervalo de dois dias. Não estamos falando do maquinário amputando membros ou acidentes levando a óbitos por falta de segurança (o que, infelizmente, ainda acontece), mas de colegas se tornando algozes de seus próprios pares.

Em São Bernardo do Campo, no sábado (1º), Claudio Henrique da Silva, um empregado terceirizado de 33 anos, matou três colegas a facadas dentro da fábrica da Bombril. Após o crime, o autor do ataque foi levado à delegacia, onde tirou a própria vida. Uma investigação tenta cravar o motivo do crime.

Apenas dois dias depois, em Jundiaí, Manoel Avelino da Silva, um açougueiro de 48 anos, atacou três colegas com uma faca dentro do supermercado Assaí Atacadista. O autor do crime confessou que planejava matá-los por se sentir perseguido e que a execução do ataque foi o desfecho de uma advertência recebida naquele mesmo dia. As vítimas ficaram feridas, mas sobreviveram. Ele está preso.

É tentador, e muito conveniente para o sistema, tratar esses episódios apenas como surtos imprevisíveis de “monstros” isolados. A realidade, porém, aponta que o ambiente de trabalho funciona, não raro, como uma panela de pressão com a válvula entupida, onde os sinais de adoecimento mental são varridos para debaixo do tapete.

Os alertas de que uma tragédia está a caminho quase sempre existem, mas costumam ser ignorados. No caso de Jundiaí, o próprio agressor já havia comentado com superiores e funcionários que era capaz de cometer uma “grande loucura”. Testemunhas afirmaram que ele apresentava um comportamento agressivo e instável e que a administração já havia sido comunicada sobre as ameaças proferidas por ele.

Esse roteiro não é inédito. Por exemplo, em 2023, um maquinista da CPTM matou um colega a tiros após dizer que estava sendo humilhado no ambiente de trabalho. O detalhe que escancara a falha na gestão de pessoas revela que o atirador, que possuía um histórico de problemas psicológicos, havia retornado de um afastamento e teve um novo pedido de licença para tratamento recusado pela empresa antes de cometer o crime.

Quando a saúde mental do trabalhador é tratada como frescura, fraqueza ou um mero estorvo para as métricas de produtividade, o resultado costuma ser trágico.

Pessoas são esmagadas por assédio, sensação de perseguição e condições laborais deterioradas (frequentemente agravadas por modelos de terceirização), somadas à falta de amparo psicológico.

Não basta que as empresas emitam notas oficiais, protocolares e frias, lamentando o ocorrido e afirmando que “colaboram integralmente com as autoridades” somente depois que os corpos estão no chão.

É urgente mudar métodos de gestão, criar canais reais de escuta, não sucatear os cuidados com a mente do trabalhador, atuar de forma ativa.

Ao mesmo tempo em que isso acontece, há patrões que amaldiçoam as mudanças na Norma Regulamentadora número 1 (NR-1), que entraram em vigor este ano, tornando obrigatória a gestão dos riscos que afetam a saúde mental dos trabalhadores. Ela estabelece, por exemplo, as diretrizes para o gerenciamento e a prevenção de riscos psicossociais, considerando o bem-estar mental, o que inclui monitoramento, acompanhamento e treinamento para lidar com fatores que podem causar danos à saúde mental, como assédio moral, pressão excessiva por metas, ausência de descanso, burnout…

E, se você pensou “hum, aprovar o fim da escala 6×1 não ajudaria?”: sim, muito.

Enquanto continuarmos moendo o psicológico de quem acorda cedo para bater ponto, ignorando sinais, e enquanto a sociedade e a política empurrarem com a barriga mudanças normativas e legais, alguns ambientes de trabalho continuarão sendo uma cena de crime em potencial.

Fonte: Leonardo Sakamoto, colunista do UOL

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