Pouca gente sabe, mas o 11 de fevereiro é o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Criada pela Unesco, a celebração é recente, tem pouco mais de uma década. Nasceu para reconhecer a contribuição e, ao mesmo tempo, incentivar meninas e mulheres a seguirem carreiras científicas. Quem me contou que essa data existia foi a primeira pessoa cientista, de jaleco branco e tudo mais, que eu reconheci fora dos livros da escola.
Doutora em Química e pesquisadora pela Unicamp, Laura C. E. da Silva deve ter se cansado de escutar eu dizer, anos atrás, que, na minha imaginação, escoteiros, marshmallows e cientistas só existiam nos filmes da Sessão da Tarde. Se a gente não consegue nem imaginar que existe, como é que pode querer caminhar aquele caminho algum dia? O que queria dizer, do meu jeito, é que todos os cientistas que havíamos estudado eram homens de sobrenomes difíceis de dizer e mortos havia muito tempo.
Lembrei-me disso tudo ao saber de um estudo esta semana. Ele apontou que as crianças têm desenhado mais mulheres quando são convidadas a ilustrar o que é uma pessoa cientista. O estudo da Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos, revisou 78 trabalhos que se dedicaram a entender em que idade as infâncias começam a formar uma imagem de um profissional das ciências e quais características esse campo de trabalho ganha na imaginação pública. Mais de 20 mil desenhos feitos por crianças do jardim da infância ao ensino médio, ao longo de cinco décadas, foram a base desse trabalho.
Se entre meados das décadas de 1960 e 1970, quando toda essa história começou com o “Draw-a-Scientist” (Desenhe um Cientista, em tradução livre), menos de 1% das crianças desenhava alguém que pudesse ser identificado como uma mulher cientista, a partir de 1985 até 2016, a média subiu para 28%. Pouco? Pouco, pela urgência que temos em mãos, mas é um avanço considerável. Até onde li, os estudos pararam ali, uma década atrás.
Fiquei interessado em entender o que aconteceu de lá para cá, com o mundo sofrendo transformações tão profundas de representação, visibilidade e na própria circulação de histórias, que hoje acontecem especialmente via redes sociais, que são, essencialmente, o lugar dos discursos visuais. Será que esse índice cresceu e alcançou os 50%?
Em entrevistas dadas na época do lançamento, David Miller, identificado como principal autor do estudo, defendia que as mudanças de percepção sobre quem seria uma cientista tinham a ver com as mudanças percebidas na sociedade. Daí a importância dos 50 anos de amostragem. Jornais, revistas e programas de TV se popularizaram nesse período, o que também teria ajudado a construir novas representações para o campo das ciências, especialmente sobre quem é essa pessoa de jaleco branco a quem chamamos de cientista.
Outro dia defendi que a gente selecione as imagens que ilustram as nossas histórias com o mesmo cuidado com que escolhemos as palavras que vão para o texto. As duas coisas, sim, se juntam e se complementam, construindo o sentido e o significado do que queremos contar para quem lê aí, do outro lado. Mas no nosso tempo há um poder incontornável da imagem.
Fonte: Tony Marlon, colunista do Ecoa no UOL