Por que um ministro do TST precisa de um carro de R$ 340 mil?

Dias atrás, a imprensa noticiou que o TST (Tribunal Superior do Trabalho) havia comprado uma frota de carros para ficar à disposição dos seus ministros, a um custo de R$ 346 mil cada. Mais de R$ 10 milhões, no total. Os veículos são considerados sedãs de luxo, com banco de couro. A pergunta é: para que tudo isso?
Uns poucos dias antes, o mesmo TST já havia virado notícia. Por alguma decisão que mudou radicalmente as relações de trabalho brasileiras em favor de quem saiu de casa hoje às 5 da manhã? Não. Pelo aluguel de um espaço no aeroporto de Brasília para ser transformado numa sala VIP. A pergunta é: por que tudo isso?
Nos serviços revelados pelos jornais, uma pessoa atendente exclusiva, transporte até o portão do embarque e a aeronave, banheiros particulares e, sim, isso também é verdade, paredes de granito. A contratação acontece sem processo de licitação. A justificativa para o investimento, segundo respostas lidas aqui e ali vindas do tribunal: garantir um atendimento especializado aos ministros, a fim de evitar encontros com pessoas mal-intencionadas ou inconvenientes. A pergunta: como pode tudo isso?
Reportagem da Folha de S. Paulo apontou que a maioria dos ministros do TST recebeu em um único mês mais de R$ 166 mil, apenas de valores relacionados a auxílios, que são: alimentação, transporte, pré-escolar, saúde, natalidade, auxílio moradia, ajuda de custo e “outras desta natureza”. A reportagem quis saber o que quer dizer “outras desta natureza”, ficou sem resposta. Transparência do recurso público é uma obrigação ou escolha de conveniência?
Segundo o Índice de Disparidade Salarial 2025, juízes recebem 23,5 vezes o salário médio da população brasileira, para ficar num exemplo. O IDS, como é chamado o estudo, nomeia o verdadeiro distanciamento social brasileiro. Aquele que não salva vidas, precariza várias. O Brasil é uma república que se divide entre quem tem o direito de viver e quem luta com o mínimo para existir. A pergunta é até quando tudo isso?
Outro dia escutei uma pessoa que perdeu a sua casa inteira três vezes por causa da ausência de investimento público para evitar enchentes em seu bairro. Me contava, desanimada, como a associação de moradores já enfileirou pedidos de ajuda em todos os órgãos possíveis, já apontou ideias de soluções para todas as autoridades imaginadas, e recebeu como resposta algumas dezenas de promessas, meia dúzia de soluções que não solucionam nada e visitas. Muitas visitas.
Me contou que são comitivas e mais comitivas, com pessoas muito bem-vestidas, numa fileira de carros que parecem bem caros, já de longe, e que vem e fotografam tudo, escutam tudo. Depois lembram que aquele lugar existe quando se aproxima a eleição.
Como diz o professor e historiador Luiz Simas, o Brasil institucional vive em guerra com os brasis. O que escuto em todos os cantos é o cansaço, a exaustão de viver no que parece ser um filme tipo aquele “O Poço”.
Esta corda, que só se estica, deixa espaço para todo tipo de aproveitador. É só olhar para o cenário político brasileiro de hoje, dos patriotas de bandeira dos outros. Capturam o desânimo e a legítima vontade de botar a esperança em alguém, transformando em projeto político tudo que dizem combater. Se o pirão é pouco, a sua família primeiro.
Fonte: Coluna Tony Marlon em Ecoa/UOL
