Nota zero na Fuvest expõe o cruel lado do deboche nas redes sociais
O jornalista Marcelo Soares escreveu para a revista Piauí o texto que eu gostaria de ter feito. Quando alguém faz ou diz algo importante para nós, antes de nós, cabe a referência e a reverência. É o que eu farei.
Quando coisas assim acontecem, quer dizer que alguém organizou em gesto e palavra aquilo que nós também quisemos contar ao mundo, mas não chegou a tempo nas palavras certas. Que a sensibilidade e o cuidado nunca saiam de moda. E que artigos como o do Marcelo também não.
Virou em grande parte piada e meme nas redes sociais o caso do jovem de 18 anos que recebeu nota zero em redação na Fuvest. O aluno questionou o vestibular em busca de explicações, o que fez o caso repercutir ainda mais. Seu texto usou palavras rebuscadas, citou autores e mais autores sem conectar seus conceitos e ideias com o tema proposto, o que resultou em uma redação confusa e pouco compreensível, segundo professoras especialistas na área. O zero foi uma consequência técnica, parece ser consenso entre profissionais da área.
Se uma redação nota mil é notícia, uma que receba nota zero também é, e eu posso entender de onde partem os critérios. O ponto é que a primeira se mobiliza pela inspiração, a segunda pelo julgamento. Um julgamento não apenas do que se tornou público e passamos a conhecer, a redação realmente difícil de entender e fora dos padrões dos vestibulares, mas da pessoa que a trouxe ao mundo. De toda a sua vida. Feito por quem só soube que ele existia agora.
Eu não sei quem é o jovem, a sua história. Se ele é uma pessoa legal, se trata bem as pessoas que estão ao seu redor. Eu espero realmente que sim. Para conseguir chegar a uma opinião sobre o outro, como gente, eu preciso de convivência e bem mais informações do que uma redação cheia de palavras que não querem me dizer nada oferecem. E é aí que o texto do Marcelo aparece.
Especializado em análise de dados e fundador do estúdio de inteligência de dados Lagom Data, Marcelo, que eu também não conheço pessoalmente, fez uma carta aberta ao jovem dizendo o óbvio, mas que não é lembrado nessa ânsia toda por fazer a melhor piada, engajar pelo maior constrangimento nas tantas redes sociais: “O texto é o que está naquela página que foi entregue, e nunca mudará; você está no começo da sua formação. Seria triste se o que fôssemos aos 18 anos fosse tudo o que seremos pelo resto da vida”.
Nas linhas seguintes, Marcelo passeia por muitas camadas desta história que nos chega como deboche e risada. E todas elas deveriam nos interessar como uma sociedade que deseja ser amanhã melhor que hoje. O engajamento a qualquer custo tem nos feito esquecer que tudo, o tempo todo, é sobre pessoas. E que algumas coisas doem.
E que se a redação nasceu nota zero para o mundo, quem a escreveu tinha outros planos para ela e para ele. Faz parte do ato de contar essa história, contar também essa dimensão dessa história, como nos lembra Marcelo. “Ao reler seu texto, suponho que você tentou demonstrar o que considera ter de melhor, numa linguagem que busca espelhar um estilo comum na profissão que pretende seguir. Ouça as observações feitas por profissionais a esse seu texto sem levá-las para o lado pessoal”.
Eu sei, você vem até os espaços de artigos e colunas em busca da perspectiva, do olhar, da percepção de quem escreve. Quer acessar o jeito com que aquela pessoa lê e interpreta o mundo e tudo que cabe dentro dele. E hoje, talvez tenha sido uma decepção vir até aqui, porque eu passei boa parte do tempo falando de um texto já publicado pelo Marcelo.
É que aquele artigo é tudo que eu gostaria de ter escrito sobre essa história da redação nota zero, mas o Marcelo alcançou as palavras certas primeiro. Ainda bem. É que quando alguém faz ou diz algo importante para nós, antes de nós, cabe a referência e a reverência. Foi o que busquei fazer.
Leia Carta aberta a um jovem que teve a redação zerada na Fuvest, se puder. E não se esqueça de que nós somos a soma de todas as nossas partes. E que os pontos, nós ligamos quando, no futuro, olhamos para trás.
Fonte: Coluna Tony Marlon em Ecoa/UOL
