Professora faz lixo virar tecnologia e é eleita a mais influente do mundo
Eleita a professora mais influente do mundo, a paulista Débora Garofalo diz que foi pega de surpresa com o prêmio Global Teacher Prize de 2026, concedido a ela pela Varkey Foundation, que criou o “Nobel da Educação”.
No novo episódio de Deu Tilt, o podcast do UOL para os humanos por trás das máquinas, a docente conta como levou robótica e programação a escolas em situação de vulnerabilidade e como isso usando sucata retirada do lixo.
O reconhecimento internacional só veio após Garofalo superar falhas de infraestrutura na escolha onde trabalhava, na Zona Sul de São Paulo, e ensinar aos alunos que a tecnologia pode ser mais que um brinquedo e virar uma ferramenta para solucionar problemas reais.
“Quando eu cheguei na escola, em 2015, os estudantes olhavam para a tecnologia como um espaço de entretenimento. Ainda é comum os nossos estudantes terem essa concepção e olhar a tecnologia apenas para consumir e não para produzi-la. Isso começou a me causar uma inquietação muito grande. Na educação a gente trabalha esse potencial como objeto de conhecimento no desenvolvimento de habilidades e competências. O trabalho teve esse norte de sair daquela caixinha fechada, de falar que ensino de robótica, de programação, era um ensino muito concentrado dentro de um kit específico”, Débora Garofalo.
Antes do projeto, os alunos viviam faltando às aulas da EMEF Almirante Ary Parreiras, na Vila Babilônia, que fica no bairro do Jabaquara, zona sul de São Paulo. Entre os estudantes da escola, estão moradores de quatro favelas da região (Alba, Vietnã, Beira Rio 1 e Beira Rio 2).
Quando a professora perguntou, eles explicaram: o lixo ao redor da escola os impedia de frequentar as aulas. A partir daí, Garofalo uniu a necessidade ao seu objetivo pedagógico: com materiais recicláveis e lixo eletrônico, ela passou a ensinar robótica e programação, sem depender de kits prontos e caros.
Para Diogo Cortiz, a abordagem materializou a tecnologia para os jovens, num momento em que muita coisa parece surgir de forma mágica para quem usa ferramentas digitais.
A professora conta que, no começo, as crianças criaram objetos que gostariam de ter, como barco, avião e carrinho. Depois, passaram a construir objetos ligados ao território educativo. Vieram sensores no córrego para alertar a comunidade em dias de chuva, temporizador para reduzir o gasto de energia da escola e semáforo inteligente para pessoas com deficiência visual atravessarem a rua.Continua após a publicidade
Para a professora, tratar tecnologia como algo mais amplo inclui discutir seu impacto social e usar lógica e pensamento computacional para enfrentar problemas do cotidiano.
“As pessoas ainda tendem a pensar que tecnologia é uma ferramenta. Esquece que a tecnologia é um significado muito mais amplo. Eu gosto de frisar isso porque as pessoas sempre confundem que o pensamento computacional em si é robótica. Não, não é. É a questão da lógica, do raciocínio desse pensamento, e você poder utilizar em prol de questões relacionadas a problemas sociais. Se esse lixo está impedindo vocês de chegarem à escola, como a gente vai trabalhar com essa questão e fazer esse lixo ser transformado em diferentes protótipos para resoluções de problemas?“, Débora Garofalo.
Equilibrar inovação e escassez de recursos exigiu trabalhar colaboração, empatia e resolução de problemas, além de romper a lógica de disciplinas que não se conectam com as outras. Ela precisou comprovar que os alunos faziam não era artesanato.
“Eu não comecei com robótica diretamente, eu comecei incentivando os estudantes a olhar através da educação maker. O primeiro protótipo que nós fizemos foi um carrinho movido a balão de ar, utilizando física, engenharia. A robótica foi consequência desse processo evolutivo, que começou de uma maneira muito simples e aos poucos foi trazendo outras complexidades. É um processo cultural, não da noite para o dia. A gente precisa respeitar o processo de maturidade dessas crianças”, Débora Garofalo.
Fonte: Deu TILT/UOL
