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NR1 em vigor: é possível trabalhar, descansar, cuidar e viver?

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No dia 26 de maio, entra em vigor a nova redação da NR1 (Norma Regulamentadora nº 01) e com ela todas as empresas e organizações deverão mapear os riscos psicossociais dos ambientes de trabalho e anunciar planos de ação para cuidar das pessoas colaboradoras.

A principal mudança da nova redação é a obrigatoriedade de incluir fatores como estresse, assédio e burnout nos documentos de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

Mais do que uma obrigação legal, a NR1 é uma oportunidade de discutirmos por que o trabalho virou uma das grandes engrenagens da sociedade do cansaço e como é possível construir culturas e ambientes de trabalho não adoecedores e até cuidadores ou regeneradores.

Mas será que é possível trabalhar, descansar, cuidar e viver? Por que vivemos num mundo em que temos trabalhado à exaustão, sem direito a descansar, sem conseguirmos nos cuidar e com a sensação de que estamos apenas sobrevivendo?

Já publiquei neste espaço algumas colunas discutindo este tema, em especial na relação com a aceleração social do tempo e as tecnologias. Hoje, aproveito para resumir e encadear algumas ideias importantes que orbitam ao redor da questão do trabalho na contemporaneidade. Meu foco está no que chamo de “culturas organizacionais aceleradas”. Aqui, tem o caminho para acessar um artigo científico que publiquei sobre isso com minha parceira de pesquisa, Carol Terra.

Uma primeira ideia importante de compreender é que vivemos numa era que ganhou o nome de “sociedade do cansaço“, justamente porque normalizamos o fato de que é plausível trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana. O cansaço não é meu, nem seu, nem de ninguém. Virou uma epidemia, porque fomos abraçando como sociedade a cultura da produtividade tóxica.

Mais do que trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana (a ideia de regime temporal 24/7) a noção de sociedade do cansaço, cunhada pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han denuncia que vivemos uma sociedade de desempenho, e que temos trabalhado até em setores da vida que deveriam estar conectado com outras lógicas, do lazer, do prazer e do desfrute e da fruição. Ao transformarmos tudo em performance nas plataformas digitais, passamos a trabalhar o tempo todo, porque estamos performando o tempo todo, mesmo quando não estamos trabalhando.

Além de trabalhar sem parar e de trabalhar para performar, estamos trabalhando o tempo todo, porque ao estarmos online ininterruptamente, estamos gerando dados para as plataformas e isso – na concepção de pesquisadores que operam com a ideia de data as labor (gerar dados como trabalho) faz com que estejamos trabalhando 100% do tempo. De acordo com esta lógica, não existe mais tempo livre.

Estas compreensões já seriam suficientes para entendermos por que o trabalho virou o grande vilão da saúde mental hoje em dia. Recordes de afastamentos, pessoas adoecidas e sustentando trabalhar mesmo assim, cultura de competitividade e uma vigilância até dos momentos de descanso, que faz com que as pessoas sintam culpa e tenham que justificar a necessidade de descanso. O que fez com que a gente ache feio descansar?

Do ponto de vista cultural, é um fenômeno integrado: a sociedade do cansaço, a produtividade tóxica, a noção de progresso e desenvolvimento que fomos criando e legitimando como a única possível e como estas ideias se manifesta em nossos corpos sob a forma de exaustão e síndromes que comprometem a nossa saúde mental. Ambientes de trabalho se tornaram ambientes de risco à saúde.

O descanso foi sendo compreendido como privilégio, como forma de tomar fôlego para trabalhar mais e melhor. Ou como prêmio por desempenho. Mas sempre em uma relação com o trabalho que não é saudável. A pausa, as férias, o descanso são vistos como combustíveis da produtividade, quando precisamos compreendê-los como constitutivos da experiência humana. Descansar é direito.

Não é à toa que incomoda tanto e é tão difícil mover o atual debate sobre a escala 6×1. Descansar apenas um dia é a tradução concreta da ideia de que o descanso deve estar a serviço da produtividade e não da nossa humanidade. 

Nossos corpos foram sendo, aos poucos, transformados em máquinas de desempenho; mas somos corpos de pessoas. Não podemos nem conseguimos operar em regime mecânico e maquínico, sem parar, sem sentir e sem pensar, por tanto tempo.

Por isso estamos todos esgotados, exauridos, cansados e com a sensação de que não vamos parar nunca e de que nunca será suficiente. O pior é que terminamos, de alguma forma, contribuindo para a reprodução desta lógica quando não falamos sobre isso e repetimos bobagens como “foguete não dá ré”, “todo mundo tem as mesmas 24 horas” ou “trabalhe enquanto eles dormem“.

O esgotamento relacionado ao trabalho é sistêmico, reforçado pelas dinâmicas tecnológicas do tempo 24/7 e potencializado pelo fato de que vivemos em um contexto desigual.Continua após a publicidade

Por isso, a saída não está em “cada um cuidar de si”. Claro que é importante se cuidar, mas para que o trabalho volte a exercer seu papel social fundamental, precisamos avançar em políticas públicas que reconheçam direitos e que renovem a ideia de direito ao descanso diante da sociedade do cansaço e do espaço que as tecnologias ocupam hoje no mundo do trabalho.

O Brasil tem avançado em pesquisas de uso do tempo que precisam reconhecer o tempo de cuidado como tempo de trabalho, na discussão sobre o fim da escala 6×1 e na construção de pactos de corresponsabilidade entre organizações, corporações e trabalhadores pelo cuidado com as pessoas, como acontece com a NR-1.

A Norma Regulamentadora 1 obriga empresas, corporações e organizações a dialogarem com trabalhadores para construir compreensões de risco e cuidado partilhadas.

Claro que haverá muitas empresas e organizações performando cuidado, entregando documentos e cumprindo a norma de um jeito proforma, performando cuidado. Mas temos diante de nós uma oportunidade real de construir ambientes d e trabalho mais cuidadosos e —- sonho meu! — até regenerativos.

Não é difícil nem impossível, mas transformar a forma como trabalhamos requer um desejo profundo e real de cuidar das pessoas.

O que sempre me pergunto é: o que falta acontecer para percebermos que é disso que precisamos? Chegamos em um limite humano e planetário. Estamos adoecidos de velocidade. E não precisamos de mais indícios de que precisamos parar.

Que tal experimentar mexer no ideal de sucesso e desempenho em nome de conciliar o trabalho com o cuidado, a saúde mental e o bem viver?

Fonte: Michelle Prazeres/Colunista de VivaBem no UOL