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Mulher de direita no Congresso apoia política de paridade; homem, rejeita

Parlamentares mulheres posam para foto na Câmara dos Deputados
Parlamentares mulheres posam para foto na Câmara dos Deputados – Imagem: Pedro Ladeira – 1º.fev.23/Folhapress

O embate entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro — que pediu mais espaço para as candidatas do PL — e Paulo Figueiredo, aliado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro que publicou vídeo dizendo que mulheres votam mal, não é um caso isolado.

O conflito de opiniões também está dentro do Congresso. Grupo predominante no Legislativo federal, os parlamentares de direita se dividem sobre políticas para garantir paridade entre homens e mulheres nas eleições. A maioria das mulheres direitistas é favorável. A maioria dos homens direitistas, não.

É isso o que mostra novo artigo dos autores da última edição da PLB (Pesquisa Legislativa Brasileira), levantamento sobre opinião dos congressistas, feito em todas as legislaturas desde 1990. Os primeiros resultados foram publicados aqui pelo UOL.

Atualmente, as mulheres ocupam 17% das cadeiras do Legislativo Federal, mesmo sendo 51,5% da população. Desde 1995, há políticas que garantem percentual mínimo de vagas para as candidatas.

Homens de direita na contramão das cotas

A pergunta sobre o apoio às políticas que garantam a paridade entre homens e mulheres é feita pela pesquisa desde 2017.

Entre os congressistas como um todo, o apoio à política cresceu: foi de 51% em 2017 para 63% em 2025.

As mulheres de esquerda são as mais favoráveis à política de paridade (100% apoiam), seguidas pelas mulheres de centro (94%) e pelos homens de esquerda (89%).

Nesse recorte, que inclui dados de 2017 a 2025, foram 39% os congressistas homens de direita que disseram apoiar políticas para paridade de representação.

O apoio vem diminuindo. Na última rodada da pesquisa, a de 2025, o apoio dos parlamentares homens da direita a políticas para garantir paridade caiu para 35%, o menor nível da série.

Como o número de parlamentares mulheres pesquisadas é baixo — reflexo da própria sub-representação delas no Congresso —, os pesquisadores não recomendam o recorte ano a ano das mulheres por grupo ideológico.

“Homem de direita sofre menos pressão”

A cientista política Malu Gatto, da University College London, ressalta que políticas para garantir representação paritária das mulheres tendem, num primeiro momento, a despertar oposição dos homens por terem como consequência a redução do espaço deles.

Por outro lado, argumenta, as cotas são muito claras na promoção da igualdade de gênero, o que dificulta sustentarem uma oposição a elas.

“Mesmo as cotas indo contra a autopreservação na política para os homens, eles não conseguem ser contra de forma tão explícita. Isso é mais forte para os homens que estão em partidos que se alinham mais a questões progressistas”, diz.

No caso da direita, diz a pesquisadora, há um incentivo grande às mulheres congressistas para apoiar a política, já que são diretamente beneficiadas. No caso dos homens de direita, por outro lado, haveria uma pressão normativa menor.

“Mas continua sendo uma adesão alta [dos homens de direita] que mostra também que existe um certo receio dos parlamentares de dizerem, olha, eu sou contra isso”, afirma.

Gatto argumenta, no entanto, que o aumento no apoio declarado às políticas de paridade pode esconder uma resistência institucionalizada a elas por outros caminhos.

“Os partidos, por um lado, falam que são a favor da mulher na política; por outro, travam uma batalha muito acirrada contra uma política legislativa forte de inclusão”, diz a autora do livro “Resistance to Gender Quotas in Latin America” (Resistência a Cotas de Gênero na América Latina, em tradução livre).

Leia aqui outros trechos da entrevista de Malu Gatto ao UOL

Em junho, dirigentes de grandes partidos, do PL ao PT, pediram ao TSE que mude o cálculo da cota na distribuição do fundo eleitoral.

Hoje, a Justiça Eleitoral determina que ao menos 30% dos recursos sejam destinados a candidaturas de mulheres.

A proposta excluiria desse cálculo as candidaturas majoritárias — presidente, governadores e senadores —, de modo que a regra passe a valer apenas para as disputas proporcionais, como as de deputado.

As divisões na direita

A questão ganhou destaque nas últimas semanas por causa da disputa pública na direita entre aliados e opositores da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

No fim de junho, Michelle publicou dois vídeos nos quais disse ter sido humilhada pelo enteado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Segundo ela, Flávio a tratou com rispidez e disse que seria melhor que ela ficasse fora das decisões partidárias, porque teria “acabado de chegar” e não entenderia de política.

O influenciador de direita Paulo Figueiredo, próximo ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, respondeu em outro vídeo dizendo que as mulheres “votam muito mal”, o que escancarou uma divisão pública no bolsonarismo sobre o espaço das mulheres na sigla.

Fonte: Tiago Mali, colunista do UOL