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Mulheres negras ampliam acesso à educação, mas violência cresce 185%, diz estudo

Levantamento analisa 10 anos de políticas públicas e revela avanços, retrocessos e desafios para mais de 60 milhões de mulheres negras no Brasil

Dez anos depois da primeira Marcha das Mulheres Negras contra o Racismo, a Violência e pelo Bem Viver (2015), um novo estudo revela que, embora o Brasil tenha registrado avanços na garantia de direitos, mulheres negras continuam enfrentando desigualdades estruturais em áreas como representação política, trabalho, educação, justiça climática, saúde e segurança pública.

Realizado por Oxfam Brasil, Gênero e Número e Observatório da Branquitude, Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos direitos das mulheres negras no Brasilreúne análises inéditas construídas a partir de diferentes bases de dados e de um diagnóstico sobre políticas públicas implementadas entre 2015 e 2025 para analisar o que mudou — e o que permanece igual — na vida das mulheres negras brasileiras nos últimos dez anos.

O estudo mostra que a educação foi uma das áreas em que houve avanços mais expressivos. Mulheres negras saltaram de 15% para 22% do corpo discente das universidades públicas entre 2010 e 2022, passando de 1,9 milhão para 5,7 milhões de estudantes. No mesmo período, o número de mulheres negras com ensino superior completo cresceu 194%.

Mas a maior escolarização não foi suficiente para romper desigualdades históricas. Mesmo mais escolarizadas, mulheres negras continuam concentradas em carreiras como formação de professores, enfermagem e letras, enquanto áreas de maior prestígio social e retorno financeiro, como medicina, direito e engenharia, seguem majoritariamente brancas.

“Certos avanços são inegáveis, mas nenhum deles chegou a desarticular a ideia de que o homem branco é a norma em algumas posições. Isso se nota em vários dos temas que levantamos. No caso do acesso a certas carreiras, mesmo com resultados positivos na comparação com a última década, é possível perceber a força da branquitude na reserva desses mercados”, observa Manuela Thamani, diretora executiva do Observatório da Branquitude.

Na outra ponta, a violência contra mulheres negras se aprofundou na última década. Os registros de violência doméstica cresceram 145% entre 2014 e 2024. Entre mulheres negras, o aumento foi de 185%, contra 92% entre mulheres brancas. Em 2024, o país registrou recorde de feminicídios, com 1.492 casos, dos quais 63,6% tiveram mulheres negras como vítimas.

Cuidado limita acesso ao trabalho e à renda

A desigualdade também aparece no mercado de trabalho. Entre 2015 e 2024, cresceu 22% o número de mulheres negras que deixaram de procurar emprego por causa do cuidado com a casa e a família. Entre mulheres brancas, houve queda de 9%.

O estudo aponta ainda mudanças no perfil do trabalho doméstico remunerado. A participação de mulheres negras jovens caiu na última década, mas aumentou entre as mais velhas. Entre mulheres negras de 41 a 59 anos, a presença nessa ocupação passou de 45% para 55% entre 2014 e 2024. Entre aquelas com 60 anos ou mais, subiu de 6% para 11%.

Na saúde, a desigualdade permanece. Embora as mortes maternas tenham caído 21% no país entre 2015 e 2024, a proporção de mulheres negras entre os óbitos maternos continuou em 64% do total.

No campo dos direitos reprodutivos, mulheres negras seguem mais presentes nos casos de aborto espontâneo e menos no acesso ao procedimento legal. Entre 2014 e 2024, a proporção de abortos legais aumentou, mas mulheres brancas continuam tendo maior acesso que mulheres negras.

Na representação política, houve crescimento da presença de mulheres negras no Congresso. Entre 2018 e 2022, a proporção de negras entre as mulheres eleitas passou de 17% para 31%. Apesar disso, a desigualdade permanece: em 2022, a taxa de sucesso eleitoral de homens brancos foi de 8,8%, enquanto a de mulheres negras ficou em 1,5%.

“Os avanços que identificamos ao longo da última década não são fruto do acaso, mas da mobilização e da incidência política das mulheres negras. Da mesma forma, os retrocessos e as desigualdades que persistem também não são inevitáveis: são resultado de escolhas políticas e de estruturas que continuam distribuindo de forma desigual poder, recursos e direitos. Este estudo não olha apenas para o que passou. Ele reúne evidências para orientar os próximos passos e fortalecer uma agenda de reparação, justiça racial e bem viver”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora-executiva da Gênero e Número.

Para Julianne Nestlehner, gerente de programas da Oxfam Brasil, a comparação entre 2015 e 2025 mostra que muitas das reivindicações apresentadas na primeira Marcha das Mulheres Negras continuam atuais.

“Grande parte das reivindicações formuladas há uma década permanece necessária, revelando tanto a potência política daquele documento quanto a lentidão das instituições brasileiras em responder às demandas das mulheres negras”, ressalta Julianne.

Além de apresentar um diagnóstico sobre a última década, a pesquisa reúne recomendações ao poder público, à sociedade civil e a organismos internacionais, como ampliação das cotas para mulheres negras em concursos públicos, reconhecimento do cuidado como trabalho estruturante da economia, obrigatoriedade do quesito raça/cor nos registros de segurança pública e justiça, implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e adoção do Orçamento Sensível a Gênero e Raça (OSGR).

Fonte: ICL Notícias