Joana*, em depoimento a Giacomo Vicenzo
“Tenho 41 anos e estou há 1 ano e sete meses sem apostar. O vício em cassinos online me fez perder um emprego que mantive por dez anos, o meu casamento e a confiança de pessoas próximas. Também perdi a noção do valor do dinheiro. Ao longo do período em que apostei, cheguei a perder R$ 1,7 milhão.
Ainda devo R$ 900 mil a bancos, entre empréstimos e cheque especial. Na minha realidade atual, é uma dívida impagável.
Hoje tento reconstruir a relação com meu filho e aprendi a reconhecer os sinais que podem me levar de volta ao jogo. Mas a luta é diária.
O dinheiro aparecia na tela, mas eu não conseguia parar
Minha história com as bets começou em meados de 2022. Um amigo me apresentou às apostas esportivas pelo celular. Eu estava sob pressão no trabalho e enfrentava problemas em casa. Comecei apostando R$ 100, R$ 200, R$ 300.
Naquele momento, enxergava o jogo como uma possibilidade de ganhar dinheiro sem precisar continuar trabalhando tanto.
Não demorou para que as apostas deixassem de ser uma tentativa de conseguir renda extra. Passei a procurar plataformas que aceitassem valores cada vez maiores e apostava muito no aviãozinho, aquele jogo em que o jogador precisa decidir quando retirar o dinheiro antes que o avião desapareça da tela.
Uma vez, apostei R$ 2.000 e vi o saldo chegar a R$ 360 mil. Em algumas ocasiões, saquei o dinheiro para pagar dívidas. Em outras, deixei o saldo na plataforma porque queria continuar jogando. A possibilidade de ganhar mais parecia sempre maior do que a necessidade de parar.
Foi o que aconteceu quando ganhei R$ 800 mil. Não saquei esse dinheiro para pagar as contas. Continuei apostando. Queria ganhar mais.
A sensação de jogar era, para mim, o maior prazer que existia. Sentia euforia, adrenalina. O problema é que a vitória não encerrava a aposta: abria caminho para outra. Mesmo quando ganhava quantias que poderiam resolver parte dos meus problemas, eu continuava. E, quando perdia, tentava recuperar o dinheiro apostando novamente.
Passei a esconder o que fazia. Dizia que precisava de dinheiro para comprar um carro ou trocar os pneus. Inventava que meu filho estava doente ou fingia que estava trabalhando. Na verdade, ficava horas no celular, muitas vezes na escada do prédio de casa, em São Bernardo do Campo (SP), apostando escondida.
Minha posição profissional também facilitou o acesso a dinheiro. Eu tinha responsabilidades e a confiança de outras pessoas. Acabei usando recursos que não eram meus e traindo a confiança do meu irmão, dono da empresa em que eu trabalhava.
O vício chegou ao trabalho e à minha família
Meu casamento já atravessava uma crise, mas as apostas e as mentiras agravaram a situação. Perdi o emprego e me separei, logo após a internação. Meu filho, que hoje tem 2 anos e 9 meses, passou a morar com minha ex-mulher. Hoje, temos guarda compartilhada, e reconstruir essa relação é uma das partes mais importantes da minha recuperação.
Levei cerca de oito meses para aceitar que precisava de ajuda. Até ali já acumulava dívidas com bancos e agiotas. Cheguei a dever aproximadamente R$ 40 mil a esses últimos. Eu já não conseguia administrar as consequências do que fazia, mas também não conseguia interromper o comportamento.
Em agosto de 2024, passei 41 dias em uma clínica especializada em dependências. No começo da recuperação, perdi o emprego. Minha família precisou intervir para me proteger de mim mesma.
Minha irmã gêmea ficou comigo durante 21 dias. Acompanhava meus passos, me levava ao banheiro e ao banho, verificava minhas mensagens e dormia perto de mim segurando o celular. Minha mãe passou a controlar meus gastos.
Durante um período, fiquei sem acesso às minhas próprias contas. Certa vez, precisei pedir a ela que fizesse um Pix para comprar um lanche na padaria. Eu não tinha carteira nem dinheiro para as despesas do dia a dia.
Foi uma experiência difícil, mas eu precisava daqueles limites.
Aprender a não fazer a primeira aposta
Hoje, além do acompanhamento com psiquiatra e psicóloga, frequento o Jogadores Anônimos. Estou no grupo há cerca de dois anos e meio. Na primeira reunião de que participei, havia apenas outra mulher. Nos últimos nove meses, percebi uma presença feminina maior.Continua após a publicidade
Acredito que muitas mulheres tenham dificuldade de procurar ajuda por vergonha ou por dependerem financeiramente de outras pessoas. Eu mesma já me afastei das reuniões por dois meses depois de uma recaída. Voltei porque meu padrinho no grupo me incentivou a retomar o tratamento.
Adotei barreiras para dificultar o acesso às apostas. Uso ferramentas de bloqueio de sites e de empréstimos, fiz meu cadastro no sistema de autoexclusão do governo e forneci meu CPF para tentar interromper o recebimento de ofertas. Consegui um novo emprego na mesma área em que trabalhava e venho reconstruindo o contato com meu filho e minha ex-mulher.
Não acredito que restringir as apostas, por si só, resolva o problema. As proibições podem ajudar, mas é preciso cuidar da dependência. Imagina você tirar o álcool, a droga. Essa pessoa que é viciada não vai parar; vai encontrar outra forma de buscar esse prazer, seja no álcool, na droga ou em uma bet clandestina.
Ainda tenho uma dívida de R$ 900 mil e preciso lidar com as consequências das minhas escolhas. Não posso mudar o que aconteceu, mas posso tentar não repetir o comportamento que me trouxe até aqui.
Hoje, me defino como uma jogadora compulsiva em recuperação. Prometi pelo meu filho que nunca mais apostaria. Aprendi a pensar na abstinência um dia de cada vez: só por hoje, não farei a primeira aposta.”
*Nome fictício