Sindicato dos Empregados de Agentes Autônomos do Comércio e em Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas e de Empresas de Serviços Contábeis de Campinas e Região

Mães solo celebram fim da escala 6×1 como forma de passar mais tempo com os filhos

Trabalhadoras veem na aprovação do fim da escala 6×1 a possibilidade de recuperar o descanso e participar mais da vida familiar

O fim da escala 6×1 representa uma perspectiva de mudança na vida de milhões de trabalhadores brasileiros, especialmente de mães solo que enfrentam jornadas exaustivas, longos deslocamentos e a falta de uma rede de apoio para cuidar dos filhos. Com a aprovação da proposta pelo Senado, mulheres que passaram anos conciliando trabalho e maternidade esperam conquistar mais tempo para descansar, organizar a rotina familiar e acompanhar o crescimento das crianças.

A operadora de caixa Luciana de Almeida, de 36 anos, conhece de perto os efeitos dessa rotina. Moradora de Realengo, no Rio de Janeiro, ela trabalha no comércio desde os 18 anos e cria sozinha os três filhos. Antes mesmo de começar o expediente, já enfrenta uma jornada intensa de cuidados domésticos e responsabilidades maternas.

Seu dia começa às 5h, quando prepara as duas filhas mais novas, de 4 anos e 1 ano e 8 meses, e as leva à escola. Depois, encara cerca de uma hora e meia de transporte público até o supermercado onde trabalha, em Campo Grande, a aproximadamente 20 quilômetros de distância.

O expediente termina às 17h50, mas a volta para casa ainda consome cerca de duas horas. Quando chega, por volta das 20h, o filho mais velho, de 15 anos, finalmente pode deixar de cuidar das irmãs menores.

A única folga semanal também não garante descanso. Além das tarefas domésticas, Luciana muitas vezes realiza faxinas para complementar a renda e manter o sustento da família.

“Estou com o corpo e, principalmente, com a mente muito cansados. No dia depois da folga, eu continuo trabalhando cansada”, relata.

Fim da escala 6×1 pode ampliar o convívio familiar

A aprovação do fim da escala 6×1 pelo Senado, na quarta-feira (14), foi recebida por Luciana como a possibilidade de experimentar uma rotina diferente pela primeira vez em sua vida profissional.

A mudança tem um significado que vai além da redução do tempo dedicado ao trabalho. Para mães que assumem sozinhas as responsabilidades financeiras e familiares, ter mais dias de descanso pode representar a oportunidade de acompanhar a infância dos filhos.

Luciana conta que percebeu o quanto estava perdendo da vida das crianças durante as férias, quando passou mais tempo em casa e refletiu sobre sua ausência em momentos importantes.

“Estou vendo a vida dos meus filhos passar, não consigo ir em festa de Dia das Mães, junina, nada”, afirma.

Com a perspectiva de duas folgas semanais, ela espera conseguir descansar, resolver questões pessoais e, se necessário, continuar fazendo trabalhos extras para complementar a renda. O que mais deseja, porém, é ter tempo de qualidade com as filhas.

“Preciso ter tempo com minhas filhas, ter algum lazer ou mesmo ficar em casa descansando”, diz.

A trabalhadora ainda não sabe como será a adaptação da empresa às novas regras, mas mantém a expectativa de que a mudança traga mais equilíbrio entre a vida profissional e a familiar.

Jornada exaustiva deixou marcas na maternidade

Em São Paulo, a gerente comercial Fabiane da Conceição, de 50 anos, também comemorou a aprovação da proposta. Durante duas décadas, ela trabalhou em empregos com apenas uma folga semanal enquanto criava sozinha os dois filhos.

Há cerca de um mês, Fabiane começou a trabalhar em uma jornada 5×2, com cinco dias de trabalho e dois de descanso. Mesmo com a nova rotina, as lembranças do período em que enfrentou a escala 6×1 continuam presentes.

Ela lamenta não ter acompanhado momentos importantes da infância dos filhos, como os primeiros passos e o primeiro dia de aula. A falta de uma rede de apoio tornava a conciliação entre trabalho e maternidade ainda mais difícil.

“Eu não posso me arrepender porque era o que dava nosso sustento, mas não deixo de sentir a dor”, conta.

A trajetória profissional de Fabiane passou por empresas do comércio e dos setores alimentício, automotivo e petrolífero. Em diferentes momentos, ela precisou enfrentar longos deslocamentos entre Sapopemba, na Zona Leste da capital paulista, onde morava, e a Barra Funda, na Zona Oeste, onde trabalhava. O percurso chegava a consumir duas horas de seu dia.

Há cerca de 30 anos, quando recebia R$ 400, ela destinava R$ 180 ao pagamento de uma pessoa que buscava as crianças na escola e permanecia com elas até sua chegada, por volta das 20h.

A necessidade de garantir o sustento da família limitava suas possibilidades de escolha. Sem apoio suficiente para cuidar dos filhos, a trabalhadora precisava manter uma rotina que comprometia o convívio familiar.

Mães solo esperam mais qualidade de vida com o fim da escala 6×1

Fabiane afirma que a ausência durante a criação dos filhos deixou marcas na relação familiar. Ela recorda a dor de saber que as crianças sentiam sua falta e de não conseguir estar presente em momentos que considerava importantes.

Ao celebrar a aprovação do fim da escala 6×1, a gerente comercial destaca a importância da mudança para as mulheres que ainda enfrentam jornadas semelhantes.

“Me sinto aliviada quando penso em pessoas mais jovens e outras mulheres que vão viver uma situação que não as leve à exaustão física e mental e à exclusão materna”, afirma.

Para ela, a redução da jornada e a ampliação do descanso podem permitir que outras mães tenham oportunidades que faltaram durante sua própria experiência: organizar a casa, aproveitar momentos de lazer, descansar e participar mais ativamente da criação dos filhos.

Fonte: CSB/com informações de BBC News Brasil via g1

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