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Cresce desemprego entre os aposentados

Faz dois anos que o aposentado especialista em informática Antonio Roberto da Silva, de 61 anos, desistiu de procurar trabalho. Após obter a aposentadoria, em novembro de 2011, ele conseguiu se recolocar rapidamente no setor bancário, onde tinha experiência. “Naquela época a economia estava aquecida, havia bastante projeto”, lembra.

Em 2012, o Brasil vinha de dois anos seguidos de crescimento acumulado de mais de 12% e havia “apagão” de mão de obra. “Existiam muitas vagas e faltavam profissionais qualificados para preenchê-las.” Mas, no ano seguinte, Silva sentiu a reviravolta da economia. O projeto no qual trabalhava foi concluído e, de lá para cá, o especialista, com mestrado em informática, não encontrou uma vaga de trabalho.

A dificuldade enfrentada pelo aposentado está estampada no índice trimestral de desemprego medido pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No último trimestre do ano passado, a desocupação entre os brasileiros com 59 anos ou mais atingiu 5,2%.

Apesar de apresentar a menor taxa de desemprego em termos absolutos comparado com as demais faixas etárias, o indicador de desocupação dos trabalhadores idosos mais que dobrou de 2015 para 2016 e registrou a maior variação.

No último trimestre de 2015, a taxa estava em 2,5% e, no mesmo período do ano, passado atingiu 5,2%. O recorte do desemprego por faixa etária é apurado pelo IBGE apenas para os trimestres fechados. O último dado disponível é o do quarto trimestre de 2016.

A economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Maria Andréia Parente Lameiras, responsável pelo estudo do mercado trabalho, observa que o desemprego entre os mais velhos aumentou apesar de a ocupação para essa faixa etária ter também crescido 1% no mesmo período. “É que existe mais gente com idade superior a 59 anos procurando emprego”, observa.

Um fator que levou à maior procura de ocupação entre os idosos é o próprio envelhecimento da população, argumenta a economista. Em 1997, os brasileiros com mais de 60 anos somavam 13 milhões; neste ano subiram para 26 milhões e, em cinco anos, serão 32 milhões de brasileiros, apontam os cálculos do Ibope Inteligência.

Outro fator apontado pela técnica do Ipea para o aumento do desemprego entre os mais velhos é a crise. “Muita gente que estava aposentada voltou para o mercado para complementar a renda que foi afetada pelo aumento da inflação e pelo desemprego de outras pessoas da família”, diz.

Neste caso, a economista observa que uma indicação desse movimento foi o crescimento expressivo da população disposta a trabalhar (PEA) entre os não chefes de família de 2015 para 2016. No mesmo período, houve um recuo da PEA entre os que são chefes de família. “É um segundo membro da família, que pode ser um idoso, que quer voltar a trabalhar para recompor a renda”, explica economista.

O avanço do desemprego entre a população mais velha é confirmado por outras pesquisas de menor abrangência. “Quase três em cada quatro aposentados ou com idade de se aposentar estão hoje sem trabalho”, observa o Rafael Urbano, coordenador de um estudo que avaliou o desemprego nesse estrato da população da Vagas.com, empresa de soluções tecnológicas para recrutamento e seleção.

Em fevereiro, foram consultados quase 2,4 mil pessoas com mais de 60 anos de idade, que tinham currículos cadastrados na base de dados do site. Destes, mais da metade (62%) era de aposentados e o desemprego neste grupo atingiu neste ano 72%. Cinco anos atrás, quando a pesquisa foi feita pela primeira vez, o desemprego entre os aposentados estava em 48%. A pesquisa considera desempregado o aposentado sem trabalho formal ou informal.

“A intenção do estudo foi avaliar o estrago provocado pela recessão no emprego dos idosos e o resultado surpreendeu”, diz Urbano. Outra revelação da pesquisa é que as pessoas que se declaram desempregadas ou não trabalham estão quase a totalidade em busca de emprego. Destas, apenas 17% receberam alguma proposta de trabalho nos últimos três meses. É praticamente a metade do porcentual obtido na pesquisa de cinco anos atrás.

A motivação para os aposentados voltarem à ativa também mudou. Em 2012, a principal razão alegada era o “gosto pelo trabalho”, com 53% das respostas. Agora o principal motivo alegado é ter uma renda extra para complementar o orçamento (57%).

Sem trabalho, o especialista em informática Antonio Silva, por exemplo, viu o seu padrão de vida despencar desde que se aposentou e não conseguiu uma recolocação no mercado de trabalho. Os rendimentos, que estavam na casa de R$ 8 mil por mês, recuaram para algo em torno de R$ 3 mil. Com isso, deixou, por exemplo, de viajar de férias e sair para comer fora regularmente com a mulher como fazia. “Gostaria de voltar a trabalhar, dar aulas. Se me pagassem o que eu ganho no INSS, trabalharia, sem problemas.”

Reforma
No momento em que governo discute a reforma da previdência, que tem como uma das premissas ampliar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos entre os homens e 62 anos para mulheres, os estudos do Ipea e da Vagas.com revelam que o brasileiro com mais de 59 anos está disposto a trabalhar por mais tempo.

Em relação à pesquisa de 2012, a fatia dos aposentados ou em vias de se aposentar que pretende trabalhar entre cinco e dez anos passou de 40% para 43% na pesquisa da Vagas. Como a idade média dos entrevistados é de 62 anos, Urbano, responsável pelo estudo, observa que esse contingente admite trabalhar até 72 anos. A expectativa de vida no País é de 75 anos. “Na prática, a conjuntura está se encaminhando para que o brasileiro trabalhe até os últimos dias da sua vida”, diz o coordenador da pesquisa.

A economista do Ipea concorda com Urbano. “Seja pela crise ou porque está vivendo mais, o brasileiro já está ficando por mais tempo no mercado de trabalho.”

Fonte: Estadão

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