O mercado de trabalho brasileiro continua resistindo aos efeitos dos juros elevados, com desemprego próximo da mínima histórica e número recorde de pessoas ocupadas. A evolução da renda, no entanto, começa a mostrar um quadro diferente: depois de meses de avanço, os rendimentos ficaram estáveis e podem representar um sinal de acomodação.
Taxa de desemprego segue próxima do menor nível da história. A desocupação de 5,3% no trimestre encerrado em julho, apurada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), é a menor já registrada para o período. A taxa está 0,2 ponto percentual acima da mínima de toda a série, de 5,1%, alcançada em dezembro do ano passado.
Outros indicadores reforçam a resistência do mercado de trabalho. O número de pessoas ocupadas chegou ao recorde de 103,3 milhões, enquanto o contingente de empregados do setor privado com carteira assinada atingiu 39,4 milhões, também a maior marca da série histórica. O desempenho ocorre mesmo com a taxa básica de juros em 14% ao ano.
Emprego costuma demorar mais para reagir aos juros elevados. “O mercado de trabalho é um dos indicadores mais defasados do ciclo econômico”, explica Carlos Eduardo Oliveira Jr., economista do Corecon-SP (Conselho Regional de Economia de São Paulo). Por isso, a manutenção de níveis elevados de ocupação não significa necessariamente que os efeitos da política monetária ainda não estejam se espalhando pela economia.
“Os efeitos da política monetária restritiva costumam aparecer primeiro no crédito, no consumo, nos investimentos e nos indicadores de confiança. Somente em um estágio posterior esses efeitos chegam às decisões de contratação das empresas e aos indicadores de desemprego”, Carlos Eduardo Oliveira Jr.
Rendimentos começam a dar sinais de acomodação. O rendimento médio real habitual foi estimado em R$ 3.762 no trimestre encerrado em julho, ante R$ 3.786 no período terminado em abril. Embora represente uma variação negativa de cerca de 0,7%, a diferença é considerada estatisticamente estável pelo IBGE. O movimento chama atenção porque ocorre depois de um período de avanço da renda dos trabalhadores.
Estabilização da renda pode ser um dos primeiros efeitos do aperto monetário sobre o trabalho. Para os analistas, a perda de força dos rendimentos é um indicador relevante porque a renda influencia o consumo das famílias e, consequentemente, a pressão da demanda sobre os preços. “O comportamento da renda real indica menor poder de barganha dos trabalhadores para recompor as perdas salariais causadas pela inflação”, afirma André Valério, economista sênior do Inter.
A estabilização dos rendimentos pode ser vista como um sinal inicial de acomodação do mercado de trabalho, compatível com o ambiente de juros elevados.Carlos Eduardo Oliveira Jr.
Economistas esperam desaceleração gradual, sem disparada do desemprego. “Para os próximos meses, esperamos que a desaceleração da atividade econômica reduza gradualmente o ritmo de criação de vagas, mas sem provocar um aumento do desemprego”, diz Claudia Moreno, economista do C6 Bank. “Até o final do ano, [o mercado] deve desacelerar, com os rendimentos praticamente estáveis, sem muitos ganhos reais e a ocupação mantendo-se em patamar fraco”, avalia Antonio Ricciardi, economista do Banco Daycoval.
Taxa de desemprego não retrata sozinha todas as situações de quem está fora de uma ocupação. Pela metodologia da Pnad Contínua, são considerados desempregados aqueles que não estão trabalhando, estão disponíveis e procuram uma vaga. Pessoas que não trabalham, mas também não buscam uma ocupação, ficam fora da força de trabalho. Felipe Sant’anna, especialista do grupo Axia Investing, chama atenção para essa diferença. “Donas de casa, universitários que não estão procurando emprego e empreendedores não são considerados desempregados”, afirma. No caso dos empreendedores que exercem atividade profissional, eles são classificados pela pesquisa entre as pessoas ocupadas.
Fonte: UOL