‘O mundo do trabalho hoje é o resto de um processo de colonização e escravização’, aponta psicóloga
Para Edlamar França, adoecimento mental é fruto de problemas estruturais e do aumento da precarização da existência

O ano de 2025 aponta dados preocupantes sobre a saúde mental da população. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos mentais afetam mais de um bilhão de pessoas em todo o planeta, o que torna o tema um dos desafios centrais para a saúde pública no mundo. No Brasil, o Ministério da Previdência Social registrou 440 mil afastamentos por ansiedade e depressão só neste ano, o maior número em dez anos.
Os altos índices de adoecimento mental acendem o alerta de que o problema não é dos indivíduos, mas sim estrutural. E, nesse sentido, a solução não se dará apenas no campo da saúde. “A saída muitas vezes tem sido medicamentosa para algo que é estrutural. Em sendo um problema estrutural, o setor da saúde sozinho não dará conta mesmo. Uma vez que os problemas de saúde mental envolve uma multiplicidade de relações, que determinam as condições em que a maioria da população em atividade laboral formal, informal, autônoma e desempregada está submetida”, aponta a psicóloga Edlamar França.
Mestre em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), psicanalista em formação pela Escola de Psicanálise Après Coup (POA), França atua na clínica com psicoterapia na perspectiva da psicanálise amefricana. Em entrevista ao Brasil de Fato Bahia, a psicóloga aponta que a piora nas condições de trabalho e as novas dinâmicas impostas pelo consumo excessivo das redes sociais são alguns dos fatores que têm levado a uma precarização dos modos de existência.
“Nos tornamos escravos de um tempo criado para atender às exigências de um mercado controlado por grandes empresas que representam uma pequena parcela da população mundial”, salienta.
Diante desses desafios, França salienta que a saída também precisa ser coletiva. “No coletivo, poder criar espaços, experiências e relações que afirmem a alegria, a diversidade, o respeito às diferenças e comunidade é urgente e responsabilidade de todos.”
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato Bahia – Em 2025, o Ministério da Previdência Social registrou 440 mil afastamentos por ansiedade e depressão, o maior número em uma década. Num cenário de escalas exaustivas de trabalho, metas excessivas, exigência de performance no ambiente público e privado, dentre outras questões, como lidar com problemas de saúde mental quando a sociedade como um todo parece adoecida?
Edlamar França – Me parece que os afastamentos por ansiedade e depressão são um modo de resistir e lidar com esta lógica de trabalho insalubre, porém lança o sujeito a uma fragilização que lhe tira a motivação para produzir não só no trabalho, como o próprio trabalho que é existir. E a saída muitas vezes tem sido medicamentosa para algo que é estrutural. Em sendo um problema estrutural, o setor da saúde sozinho não dará conta mesmo. Uma vez que os problemas de saúde mental envolve uma multiplicidade de relações, que determinam as condições em que a maioria da população em atividade laboral formal, informal, autônoma e desempregada está submetida. Analisar estas relações passa por interferir em micro e macropolíticas.
Em relação às macropolíticas é necessário mudar as regras do jogo em favor das melhorias nas jornadas de trabalho, melhores salários, ambientes institucionais menos hostis para a classe trabalhadora, infraestrutura urbana, tempo livre para o lazer e o não fazer nada, uma economia que distribui equitativamente a riqueza produzida e preservação dos recursos naturais que nos mantém vivos. Isso se faz com leis e políticas públicas em diversos setores. Transversalizar o diálogo nos programas de governo seria enfrentar a complexidade das condições que produzem a precariedade de vida de trabalhadoras e trabalhadores.
Portanto, conhecer como se dá o jogo político, compreender as motivações ideológicas dos partidos e seus históricos na relação com a classe trabalhadora, conhecer o poder exercido por cada esfera de governo e atuação dos poderes legislativo, executivo e judiciário é fundamental. Pois se trata de uma base que orienta as nossas escolhas em pleitos que definirão governos sensíveis aos anseios e problemas vividos por trabalhadores. E teremos que fazer isto em meio ao caos que vivemos. Uma resposta a tanta sacanagem que fomos submetidos e submetidas no mundo do trabalho engendrado sobretudo por quem tem mexido nas leis.
No que tange às micropolíticas em que a nossa atuação se dá cotidianamente é possível analisar com os sujeitos que o processo de adoecimento advindo de uma lógica de trabalho neoescravizante não é uma realidade individual, mas coletiva e experimentada de modo singular por cada sujeito. E mesmo diante de um contexto laboral extenuante é possível subverter em favor da própria saúde, da própria vida. E quando a compreensão se dá, o entendimento de que sozinhos não se muda uma realidade, uma força coletiva é gerada e pode ser manifestada de muitas formas.
O fim da escala 6×1 foi uma das pautas centrais neste ano, e um dos principais argumentos de defesa é o impacto de mais tempo livre para a saúde psicossocial dos trabalhadores. Também cresce a luta pela escala 4×3, que traria um avanço ainda maior para a qualidade de vida da maioria da população. À luz da psicanálise amefricana, como esse tempo do ócio, do descanso, da fruição é importante para entendermos a vida para além do trabalho, um dos motes da luta pela redução da jornada de trabalho?
A noção de linearidade do tempo, fruto de uma matriz ocidental de pensamento e existência, atravessa experiências que não cabem numa vida roteirizada por esta linearidade. E o trabalho, uma das atividades estruturantes da subjetividade e dos vínculos que criamos é impactada por este tempo. Trabalhamos mais do que o necessário, produzimos excessos materiais e subjetivos que se amontoam e produzem esvaziamentos das relações, abismos que fragilizam a experiência humana compartilhada. Criam um mundo cada vez mais sem sentido para muitas pessoas.
A percepção que temos do tempo é de aceleração constante. Os dias parecem curtos dadas as demandas sempre crescentes com as mudanças no mundo do trabalho cada vez mais competitivo e precarizante. E após a pandemia essas mudanças parecem ter se dado vertiginosamente com a hiperconectividade que suprimiu o tempo do ócio, do descanso e do sono, dos encontros e conversas mais demorados, uma vez que estamos em atividade quase ininterrupta em meio às telas de celulares e outros equipamentos similares. O tempo parece ter se tornado um grande bem que o mercado tenta explorar ao máximo. A vida não cabe numa agenda, extrapola o calendário e o tempo de vida é precioso, não deveria ser negociável, mas parece que é isso que está acontecendo. Nos tornamos escravos de um tempo criado para atender às exigências de um mercado controlado por grandes empresas que representam uma pequena parcela da população mundial.
As fronteiras que separavam a vida pública e privada, o trabalho e o lazer, a validação pelos likes e a presença olho no olho, foram borradas com o advento das redes sociais. Estas não substituíram os espaços públicos físicos onde as interações entre as pessoas se dão, mas ganharam uma projeção e preferência jamais vistos na história das novas tecnologias e nas relações que estabelecemos com os outros. O que nos faz pensar que tem sido utilizadas como estratégias de assujeitamento da experiência subjetiva e precarização dos modos de existência, capitaneadas pelo mercado como também tem sido amplificadoras de discursos de ódio e palco de múltiplas violências.
Esse estado de coisas não nos dá descanso. Estamos quase em estado ininterrupto de vigília e privação do sono. Ativando o modo reativo de viver e não de sentir, relaxar e repousar. O que impede que a gente se entregue aos processos criativos, à atividade onírica em seus estados diversos, à construção de vínculos e às elaborações que fazemos das experiências que temos na vida. Isso adoece qualquer ser vivente e não dá pra ser feliz assim. Nos sentimos esgotados, ameaçados e paranoicos. É a continuidade do que Muniz Sodré chama de semiocídio. Abordo isso no texto Nego Fugido e temporalidades: o trauma da travessia, publicado na Coluna do Brasil de Fato.
Para escapar a estas capturas escravizantes é preciso viver um outro tempo, dar passagem a uma outra sensibilidade na relação consigo e com o mundo, abrir espaços de tempo para os vínculos que nutrem um lugar de pertencimento e ancoragem diante de ‘um’ mundo tão líquido e descartável. E o espaço da análise propicia viver essa experiência.
A psicanálise amefricana é um campo diverso de múltiplas percepções e produções, mas àquela que tenho encontrado um caminho de análise interessante tem entendido o tempo a partir de um princípio cosmológico não ocidental. Nas palavras da psicanalista Rafaela Dornelas, no seu artigo Exú e o tempo: psicanálise e amefricanidade, publicado na Revista de Psicanálise Amefricana Bô Kibunda: “É Exu mesmo quem constrói a história e cria seu tempo. Para além do tempo dos relógios, se coloca o princípio da reversibilidade, do acontecimento como fundante do tempo, e não como aquilo que ganha vida ‘dentro’ do tempo estabelecido pela perspectiva ocidental. No processo de análise, enquanto se associa livremente, se encadeiam significantes e se interpretam, se fundam temporalidades por meio dos acontecimentos. Se atiram pedras, que seguem trajetórias descoladas da imposição de uma linearidade temporal”.
O tempo das coisas, a duração de um momento significativo, o tempo das memórias no inconsciente por si só é a fresta descolonizante que portamos. Não há um tempo marcadamente presente, passado e futuro. O tempo do inconsciente é diverso e entrecruzante de acontecimentos. E é pela via das palavras ditas que quebramos um modo de pensar e produzir a vida roteirizado de forma linear e determinista. As palavras ditas de outras formas transformam aquilo que foi vivido e que se vive e abre para as transformações que se manifestam na relação do sujeito consigo mesmo e com o mundo. É o que permite o desvio do roteiro traçado e da ação insurgente. É produzir quebras onde o sujeito se vê aprisionado no discurso e nas ações.
O mundo do trabalho tal qual experimentamos hoje é o resto de um processo de colonização e escravização de pessoas que insiste em retornar nessa correia de transmissão de significantes que estruturam uma linguagem, uma sociedade, suas leis e modos de produção. Analisar como isto se reproduz no discurso dos sujeitos em suas múltiplas relações é trazer para o trabalho da psicanálise o que ficou de fora na compreensão da nossa constituição como povo amefricano. Portanto, nos interessa analisar a relação disruptiva com o tempo linear da ocidentalidade e a irreversibilidade e reversibilidade dos ditos, desditos e não ditos num processo de análise. Isso é parte de um processo de tornar-se outro sujeito, portanto, outro trabalhador e trabalhadora também. Um processo que afirma a vida e o sentido que damos a ela e não um semiocídio.

O início de um novo ano traz a esperança de recomeço e de novos ciclos. No entanto, levaremos para 2026 alguns dos “problemas antigos”, como um Congresso conservador, retrocessos em diversas pautas, além de problemas estruturais, como o racismo e o patriarcado. Como podemos tecer uma esperança que não seja alheia aos problemas, mas que também não nos paralise diante de tantos desafios?
O mundo defendido pelo conservadorismo e fundamentalismos não é plural, é antinatureza, não é agregador, não compõe com as diferenças, não é alegre, é rígido e escravizante. Acredito que as mudanças são inevitáveis e as forças conservadoras se levantam quando se veem ameaçadas pelas transformações, mas não podem contê-las. Estas forças conservadoras não estão somente naquele opositor externo a nós. Parte da nossa subjetividade é forjada de conservadorismos e fundamentalismos, de preconceitos e ignorâncias. Poder olhar para isso que temos e tratar já é parte de um trabalho que é coletivo. E no coletivo, poder criar espaços, experiências e relações que afirmem a alegria, a diversidade, o respeito às diferenças e comunidade é urgente e responsabilidade de todos.
Ano que vem teremos a oportunidade de mudar substancialmente a configuração do Congresso se soubermos eleger quem de fato tem se preocupado em deixar um mundo melhor para quem já está e para quem virá depois. Acredito enormemente no poder das mulheres, sobretudo negras, na criação desse mundo. E olho com esperanças para o movimento de homens que já entenderam que o feminismo também os salvam da própria desgraça de serem homens aprisionados no patriarcalismo e machismo. Acredito que existem homens e mulheres capazes de pensar e agir juntas para a superação do patriarcado e racismo. Ficam aqui meus votos de que em 2026 estejamos dispostos e dispostas a criar esta atmosfera de bem viver e bem comum em nossas vidas e comunidades.
Fonte: Brasil de Fato
