O volume de dinheiro injetado na economia com a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5.000 corre o risco de ir direto para o ralo das bets.
Os R$ 31 bilhões que sobrarão no bolso das famílias beneficiadas pela isenção, nas estimativas oficiais, são menos do que o montante perdido em apostas no ano passado.
Segundo o Ministério da Fazenda, em 2025, brasileiros perderam R$ 37 bilhões no jogo, valor que foi revertido em receita bruta das casas de apostas.
Pelo cálculo oficial, portanto, as perdas com bets são 20% maiores que o benefício da isenção.
São dados conservadores, já que consideram apenas os valores declarados oficialmente pelas bets legalizadas. O mercado ilegal é estimado em, no mínimo, o mesmo tamanho do legal.
Procurado para comentar, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, não se pronunciou.
Dados da Fazenda mostram que, no primeiro ano de vigência das bets legalizadas, o valor apostado e o número de pessoas que apostam aumentaram consideravelmente.
Em janeiro do ano passado, 7 milhões de pessoas puseram em bets um total de R$ 12 bilhões. Em outubro, quase 11 milhões de pessoas apostaram mais de R$ 21 bilhões. O número fechou levemente menor em dezembro: 10 milhões de apostadores gastaram R$ 20 bilhões.
No ano passado inteiro, o valor depositado em bets foi de R$ 220,6 bilhões. Mas cerca de R$ 183 bilhões retornaram aos apostadores em forma de prêmios e bônus.
Os R$ 37 bilhões que sobraram na conta das casas de apostas são o chamado GGR, sigla usada pelo setor referente à receita bruta obtida antes de dedução de imposto.
Copa aumentou gastos com apostas
A isenção de IR para quem ganha até R$ 5.000 passou a valer neste ano de 2026, com a reforma do Imposto de Renda aprovada no ano passado.
Os dados parciais de valores apostados em bets neste ano ainda não foram disponibilizados pela Fazenda.
A expectativa é que os gastos de brasileiros com bets neste ano sejam ainda maiores do que os de 2025, puxados por apostas durante a Copa do Mundo, segundo a ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias).
Para Bernardo Freire, consultor jurídico da entidade, a crise de endividamento é causada por juros de cartão de crédito e consignado, não pelas bets.
“Nos R$ 37 bilhões, incidem R$ 15 bilhões de impostos, mais R$ 12,5 bilhões em salários, publicidade, patrocínio esportivo e cultural. O que sobra de lucro seria algo em torno de R$ 9,5 bilhões. E lucro não necessariamente ‘anula’ os ganhos do IR. Já que também pode voltar para a economia”, argumenta Freire.
Segundo Lauro Gonzalez, pesquisador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (Fundação Getulio Vargas), o impacto na economia será sentido no curto prazo.
O dinheiro extra da isenção de IR deverá deixar de ser usado para consumo das famílias, como previsto inicialmente pelo governo Lula.
De acordo com Gonzalez, nem todo beneficiário da isenção do IR é o apostador. Ou seja, o valor apostado em bet não necessariamente é o mesmo dinheiro que fica na conta de quem ganha até R$ 5.000.
“Provavelmente tem uma intersecção grande entre quem se beneficia da política pública e quem aposta. Não total, mas tem”, afirma. Mas esse dado é irrelevante do ponto de vista macroeconômico.
“No agregado, um montante que muito provavelmente seria usado para consumo é drenado pelas bets”, Lauro Gonzalez, da FGV.
Para Gonzalez, isso ajuda a explicar, inclusive, as dificuldades de o presidente Lula capitalizar em cima de bons indicadores econômicos.
“O desemprego está próximo de mínimos históricos, a inflação está relativamente controlada, a taxa de câmbio está controlada, há aumento real da renda recebida (não da renda disponível). A macroeconomia, os grandes números macro, apontam para situação que deveria favorecer muito mais o governo do que as pesquisas mostram”, afirma Gonzalez.
“Uma das razões que explicam isso é o endividamento, e ele anda de mãos dadas com as bets.”
É um ciclo vicioso: as pessoas se endividam para apostar e também apostam para pagar dívidas. Se não dá certo, ficam com mais dívida.