Raramente discurso de firmas se traduz em prática
Uma pesquisa divulgada recentemente sobre geração Z e trabalho me chamou atenção por um ponto bem específico.
O levantamento da Serasa Experian publicado pela Folha indica que três em cada dez jovens entre 18 e 28 anos já pediram afastamento do trabalho por questões de saúde mental, o que revela uma série de questões para as quais precisamos estar atentos e cuidar coletivamente.
Outro dia, escrevi sobre a implementação da NR-1 como oportunidade de olharmos para o cuidado com verdade.
Mas o dado que me chamou atenção nesta pesquisa foi este: seis em cada dez jovens da Geração Z afirmam que as empresas falam sobre o tema, mas mantêm práticas incompatíveis com o discurso.
Na minha pesquisa e no trabalho que desenvolvo cuidando de culturas organizacionais aceleradas, eu chamo isso de wellness washing.
“Washing” (que vem de wash, lavar em inglês) é um termo que vem ajudando a denominar práticas de “lavagem de imagem pública” por meio de práticas que são sabidamente valorizadas pelas pessoas, pela opinião pública.
Basicamente, se trata de anunciar coisas que a empresa sabe que ‘pegam bem’ para sua imagem, mas, na prática, não realizar o que o discurso diz. Talvez as primeiras práticas de lavagem de reputação tenham surgindo no meio da sustentabilidade. O greenwashing deve ser o precursor delas.
E quando eu chamo performance de cuidado de wellness washing é um pouco dialogando com esta lógica: a empresa faz de conta que cuida; ganha um lindo selo (às vezes tem até uma “diretoria de felicidade”) e os trabalhadores desta mesma companhia sofrem com o descaso com o cuidado, o bem-estar e a saúde mental, porque as iniciativas são muito bonitas para o mundo ver, mas não se traduzir em efeitos reais na vida das pessoas que trabalham.
Em geral, são práticas que “saem bem na foto” (como salas de descompressão ou vouchers para terapia), que responsabilizam as pessoas pelo seu próprio cuidado, mas que não são acompanhadas de práticas desta cultura organizacional que criam condições para que as pessoas de fato se cuidem (de que adianta oferecer apoio à terapia se as pessoas trabalham para atingir metas inexequíveis, não tem espaços para pensar no que fazem, são cobradas por um escopo além do seu trabalho, não possuem plano de desenvolvimento, não são avaliadas em processos justos, etc?).
Paulo Freire é autor de uma célebre sentença sobre coerência e integridade, que diz “É preciso diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática”.
O “washing” é uma prática que distorce absolutamente este sentido. Mas que não é tão estranha assim nesse mundo acelerado, produtivista e baseado em desempenho.
Práticas de washing só fazem sentido em um mundo em que é mais importante parece ser do que ser de verdade; um mundo em que é mais importante performar.
Na pesquisa que me moveu a escrever sobre isso, apenas 28% dos jovens dizem se sentir confortáveis para tratar de saúde mental no ambiente corporativo, o que mostra que também não existe segurança psicológica nestes ambientes para dialogar sobre isso.
E o diálogo é o ponto de partida para uma transformação verdadeira dos ambientes de trabalho. Ou seja: o desafio é imenso e o caminho é longo.
