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‘Duas vezes demitida’: dor crônica é barreira no mercado de trabalho

Principal motivo de afastamento do trabalho, a dor é uma questão desafiadora no ambiente profissional.

Uma pesquisa conduzida pela Haleon, empresa global de saúde do consumidor, mostrou que 63% dos entrevistados enfrentam problemas no trabalho e mais de 60% relatam dificuldade de concentração no ambiente profissional por causa da dor. O estudo ouviu 18.097 pessoas em 18 países, entre os anos de 2014 e 2023.

A questão é ainda mais complexa quando se trata de uma dor crônica, que muitas vezes não pode ser comprovada por exames, e a permanência em um ambiente corporativo pode gerar sofrimento e incompreensão. O desconhecimento em relação à doença faz com que muitos funcionários sejam constrangidos e tenham seus relatos diminuídos ou invisibilizados.

É o caso da farmacêutica F. R., que tem fibromialgia e foi demitida de dois empregos com a alegação de queda de performance. A síndrome provoca sintomas como dores generalizadas pelo corpo, fadiga e dificuldades de concentração, entre outros.

“Me disseram que sou muito inteligente, mas que precisava entregar mais, absorver mais atividades, ser mais pró-ativa. Gestores e colegas falam que eu só tenho me esforçar mais, mesmo que eu diga que minha doença prejudica muito meu desempenho”, diz.

O publicitário P. M., 40, que viveu por cinco anos com dor lombar crônica, conta que se forçou a trabalhar com dor por medo de não acreditarem na sua doença. “Era praticamente impossível conseguir me concentrar, não existia uma posição confortável. Às vezes me trancava em uma sala de reunião vazia, com a luz apagada, para fazer alongamentos. Me sentia inconveniente, achava que as pessoas iriam me questionar“, lembra.

O problema é que a ansiedade e o estresse gerados por essa dificuldade de “performar” podem ser os principais perpetuadores da dor, já que a doença é sempre multifatorial – envolve componentes biológicos, psicológicos e sociais. Ou seja, quando uma pessoa é desacreditada no ambiente de trabalho e não conta com uma rede de apoio, a dor costuma atingir níveis ainda maiores.

Como falar no trabalho?

De acordo com o estudo da Haleon, os trabalhadores se sentem mais confortáveis para falar sobre sua dor com os colegas do que com os chefes; 33% acreditam que a dor afetou os seus relacionamentos dentro da empresa e 49% dizem se sentir estigmatizados.

A farmacêutica F.R. conta que, em uma das empresas, foi demitida uma semana após contar que estava em tratamento médico. Já em outro trabalho, preferiu esconder sua condição de saúde e foi desligada ainda no período de experiência, por “não conseguir entregar conforme o esperado”.

Segundo o psicólogo Djalma Scartezini, docente dos MBAs de Recursos Humanos e Desenvolvimento de Gestores da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e consultor em inclusão de profissionais com deficiência, o indicado é sempre falar a verdade durante o processo.

“É importante que o candidato esteja seguro sobre as suas competências, para que consiga vender suas habilidades técnicas e comportamentais. A conversa sobre a doença pode vir em uma segunda entrevista com o gestor da vaga, para que o funcionário possa explicar quais os impactos da sua condição no exercício do trabalho e o que precisaria ser ajustado”, diz.

Para Scartezini, que também convive com dor crônica derivada de uma paralisia cerebral, é preciso construir uma relação de confiança com a chefia, falando sobre a doença no contexto da atividade que será exercida.

“Muitas empresas acreditam que se trata de um benefício adicional, mas na verdade é uma necessidade, tem a ver com qualidade de vida. Por mais que essas pessoas muitas vezes não se enquadrem na lei, elas podem experienciar os mesmos impactos de uma pessoa com deficiência na vida diária”, aponta.

Dor crônica é deficiência?

O Projeto de Lei (PL) 3.010/2019, sancionado nesta quarta-feira (23) pelo presidente Lula, passa a reconhecer pacientes com fibromialgia, fadiga crônica, síndrome da dor regional complexa e outras doenças correlatas como pessoas com deficiência. Desta forma, pretende garantir o acesso a benefícios e direitos para essa parcela da população.

Uma equipe multidisciplinar irá avaliar cada caso para comprovar a limitação da pessoa no desempenho de atividades e na participação na sociedade. O PL não deixa claro, porém, se todo tipo de dor crônica poderá ser enquadrado.

De acordo com Scartezini, o paciente pode ser avaliado sob a perspectiva da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), uma ferramenta criada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para analisar o funcionamento e a limitação de um indivíduo em diferentes contextos, considerando fatores físicos, sociais e ambientais.

“No Brasil, a simples presença de dor crônica não garante automaticamente o reconhecimento legal de deficiência nem o direito a benefícios. No entanto, o paciente pode solicitar laudo técnico baseado na CIF comprovando que a condição provoca impedimentos significativos e duradouros à funcionalidade e à participação social, de acordo com a Lei Brasileira de Inclusão”, explica.

“Me avaliou pela aparência”

No Brasil, de acordo com o Ministério da Previdência Social, a dor na coluna foi a principal causa de afastamento do trabalho em 2024.

Pessoas com fibromialgia ou dor crônica incapacitante, porém, nem sempre conseguem comprovar o direito ao auxílio temporário ou à aposentadoria por invalidez. Por se tratar de doenças invisíveis e muitas vezes desconhecidas, muitos pacientes são descredibilizados por peritos do INSS.

A atendente comercial M. C., 45, que vive com fibromialgia há mais de 16 anos, conta que precisou entrar na justiça após ter o benefício negado. “Eu fico indignada com o despreparo e a falta de conhecimento sobre a doença. O perito justificou que eu estava bem vestida, corada e andando bem para negar o benefício”, explica.

O caso não é isolado: outras pessoas ouvidas pela coluna também precisaram entrar na justiça e relataram o despreparo dos peritos, que ignoram laudos médicos, avaliam pela aparência e colocam em dúvida a dor das pacientes, em sua maioria mulheres.

“Muitas vezes essa análise é distorcida, e a pessoa que atende não tem esse conhecimento. Quanto mais completo o laudo, mais fácil para o perito entender. É importante conversar com o médico para que esse documento conte toda a história do paciente em detalhes, mesmo que isso signifique um laudo de duas ou três paginas”, explica o especialista Djalma Scartezini.

Questionado, o Ministério da Previdência Social afirmou que a Perícia Médica Federal não avalia a doença em si, mas sim seu impacto no exercício das atividades laborais habituais do segurado, e caso o paciente não concorde com o resultado técnico, é possível pedir nova avaliação.

Larissa Teixeira (@dadoreoutrosdemoniosé jornalista formada pela USP com mais de 10 anos de experiência em reportagem, produção de conteúdo e edição de vídeos e documentários. Escreve sobre dor crônica, doença com a qual convive há quatro anos, em uma coluna em VivaBem.Colaborou Luiza Vidal

Fonte: Larissa Teixeira colunista em VivaBem/UOL