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Prontidão: estar alerta o tempo todo leva à exaustão

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Imagem: Getty Images

Estes dias, uma vizinha querida me mandou uma mensagem tarde da noite num domingo por um aplicativo de conversa instantânea.

– Oi, Mi. Tudo bem? Você está em casa?

– Oi, vizinha. Tudo. E você?

Ela não respondeu. E eu:

– Tá tudo bem? Precisa parar na minha vaga?

Ela não respondeu. E eu:

– Tá tudo bem? Tá precisando de algo?

Ela respondeu alguns minutos depois, eu já com taquicardia:

– Tá tudo ótimo. É que amanhã é seu aniversário e queria te dar um abraço.

Eu “desarmei” e percebi como meu corpo está vivendo em condição de prontidão.

A esta altura se vocês já leram outros textos meus aqui, já entenderam que além de jornalista, sou professora e pesquisadora e trabalho como consultora em comunicação consciente e culturas organizacionais para o cuidado, o bem-estar e a saúde mental.

Pois bem. Quando eu vou falar sobre o Desacelera e sobre tudo que pesquiso sobre tempo e aceleração da vida, me divirto com uma pergunta muito comum: “mas como você faz para ter uma vida desacelerada?”.

Eu sempre dou risada e respondo “não tenho”. Ter uma vida desacelerada nesse mundo é infelizmente um privilégio, porque ainda não chegamos a conquistar o descanso como direito, especialmente de quem trabalha “formalmente” e trabalha cuidando de outras pessoas.

Me tornei uma integrante do movimento slow em São Paulo e no Brasil buscando essa vida e esta é uma busca permanente. E isso, no meu caso, diz muito mais sobre escolhas diárias, atitude, construção de afetos e decisões (e poder fazer estas escolhas já é, em si, um privilégio que eu reconheço e procuro colocar a serviço do que acredito) do que ao fato de ter uma vida calma, lenta e devagar.

Meu cotidiano é puxado. E desde março, por uma questão pessoal de querer e precisar dedicar tempo aos cuidados com minha mãe, venho operando em estado permanente de prontidão. Isso fez com que eu reagisse à mensagem da vizinha da forma como reagi. Nem passou pela minha cabeça que aquela mensagem era um carinho.

Na minha pesquisa sobre temporalidades (expressão que pode designar um determinado período de tempo em que algo acontece ou a condição temporal de algum fenômeno ou episódio), passei a prestar atenção neste modo de ser e estar da prontidão.

A prontidão é a temporalidade do plantonista, da pessoa que trabalha com emergências e urgências, em situações excepcionais; de quem precisa estar 24/7 disponível para algo. A temporalidade do “sempre alerta”.

Sempre tive uma vida corrida, passei a buscar o slow porque queria correr menos, ser mais consciente, buscar qualidade de vida e das relações na cidade que mais corre no mundo (e que se orgulha disso, como se fosse bonito ser ocupado o tempo todo). Busquei desacelerar para fugir da produtividade tóxica e não porque tenho uma “vida mansa”.

Mas é diferente ter uma vida corrida de estar alerta o tempo todo.

Uma vida corrida te deixa cansada.

A prontidão é a temporalidade da exaustão.

Talvez a prontidão tenha chegado na minha vida com a maternidade. E não é coincidência que tenha sido esta a “chavinha” que precisei virar e que me levou ao movimento slow. Mas a prontidão materna vai ficando mais complexa, mas também mais “conhecida” pelo corpo. A gente vai entendendo quando precisa estar alerta, atenta e quando pode (e deve) desligar.

Neste período cuidando de minha mãe, vivi a construção de uma outra qualidade de prontidão: mesmo nos dias em que eu posso descansar, sinto meu corpo resistindo ao descanso. Em julho, tive alguns dias de férias. Custei a entrar no modo “eu posso descansar”. E ainda assim, atenta (por causa dos recursos de acesso às tecnologias), ao estado da minha mãe por meio de conversas com meus irmãos.

Não desligar nunca é a principal característica da prontidão.

E não desligar nunca faz muito sentido para atividades que requerem este estado de alerta (como os médicos, por exemplo).

Mas mesmo estas pessoas que desta forma não podem ser submetidas a regimes de prontidão permanentes. Precisam de pausa, porque também são gente. E precisam de formas de cuidado específicas para não entrar em colapso.

Neste processo todo, durante alguns episódios em que precisei me organizar muito e contar com toda uma rede de apoio, pratinhos caíram, mas houve momentos em que eu pensava: “Será que algumas pessoas vivem desta forma o tempo todo? O que acontece com estes corpos? Será que é por isso que estamos vivendo desta forma? Porque se estou deste jeito por estar assim há alguns meses, o que será do corpo e da vida e da condição de atenção das pessoas que vivem deste jeito o tempo todo?”.

Nos momentos de maior exaustão, sinto meu corpo ansioso, indisponível aos outros, permanentemente cansado, impossibilitado de pensar e de fazer boas escolhas.

E me assustei ao pensar que a cultura da aceleração e da produtividade tóxica produz indivíduos em prontidão permanente e, por consequência, o que Byung-Chul Han chamou de Sociedade do Cansaço. Esta prontidão coletiva produzida pode não ser a prontidão do cuidado, mas é a prontidão para o trabalho (24/7), para o consumo e para as plataformas digitais.

Este mundo não só acha plausível estarmos sempre disponíveis para trabalhar, consumir e rolar o feed, como produz essa disponibilidade em nós, por meio de dispositivos eficazes de coerção e convencimento. E se a prontidão é a temporalidade da exaustão, eis aqui uma das engrenagens desta epidemia de exaurimento coletivo que estamos vivendo.

Pensemos juntos nas consequências gravíssimas que estamos vivendo e que viveremos no mundo por causa desta espiral de cansaço. E criemos também juntos a ideia de que temos direito a descansar, para que possamos ser gente.

Fonte: Coluna Michelle Prazeres em VivaBem/UOL