A quem serve a ideia de que o ano só começa depois do Carnaval?
Quem ganha fazendo a gente pensar que até agora não produzimos, não performamos ou “entregamos” menos do que deveríamos?
Eu provavelmente já traí meu próprio pensamento falando essa frase. Você certamente também já a reproduziu, seja literalmente, seja sugerindo a ideia: marcando aquela reunião importante ou deixando pra depois do Carnaval aquele compromisso de trabalho relevante; ou ainda fazendo com colegas de trabalho a piadinha do “agora o ano começou”; ou compartilhando o meme “depois do Carnaval sem falta”.
Pois é. Não sou ingênua. Nem vivo fora do planeta (nem do Brasil). Muito pelo contrário. Vivo na cidade que se orgulha de não parar e que se alimenta da toxidade da ideia de que estar ocupado o tempo todo é status.
É evidente que, culturalmente no Brasil, algumas coisas se movem com mais intensidade após este período. Mas meu convite é para que cuidemos de quando afirmamos que o ano “só começa agora”. Ou para que cuidemos da ideia que pode estar implícita nesta afirmação, sem que a percebamos.
A pergunta que nos ajuda a pensar nisso é:
Quem ganha fazendo a gente pensar que até agora não produzimos, não performamos ou “entregamos” menos do que deveríamos?
Mesmo quando falamos brincando que o ano começa agora, estamos, de alguma forma, alimentando a cultura da exaustão e do cansaço?
O Carnaval é uma pausa regenerativa importante, que nos lembra que nossos corpos são corpos-gentes que podem e devem festejar, ritualizar e brincar (e não são corpos-máquinas feitos apenas para produzir e desempenhar).
Para a maior parte das pessoas trabalhadoras, não é verdade que o ano só começa depois da festa. Inclusive, para que a festa aconteça, há um universo imenso de pessoas trabalhando pesado o ano inteiro e durante a celebração.
Minha sugestão é que possamos refletir a quem interessa que pensemos que não produzimos nada até agora. Porque, em geral, junto com esta ‘brincadeira’ vem uma cobrança de que produzamos mais e aceleremos (ainda mais)?
É como se o mundo da produtividade cobrasse caro pelo descanso e pela celebração.
Como se a festa fosse uma dádiva para que depois nos tornemos melhores no desempenho.
Ou como se o descanso ou a festa fossem premiações, troféus, para nos incentivar a sermos mais produtivos.
Ou ainda, como se fossem uma pausa que tem como função servir a uma maior produtividade depois.
E não é nada disso.
O carnaval é pausa regenerativa, é festa num mundo em que estas coisas que nos fazem humanos são vistas como inúteis. O carnaval é justamente o romper com esta lógica e não está a serviço da produtividade.
“O Carnaval é a vitória da brasilidade sobre o Brasil, é a construção do sentido coletivo de vida, é a reconstrução de uma ideia de encanto diante do mundo, para lidar contra a aniquilação que esse desencanto traz. É a vitória do corpo sobre a morte”, afirma Luiz Antonio Simas, autor de O corpo encantado das ruas e outros livros incríveis, que eu recomendo, para entender como as dinâmicas aceleratórias vão, aos poucos, se apropriando dos nossos corpos.
Cuidemos. Ao brincar dizendo que o ano começa agora, observemos para checar se não estamos nos cobrando mais performance e mais desempenho, pois já estamos suficientemente acelerados, não acha?
