“Trabalhe enquanto eles dormem” e mais absurdos da cultura da produtividade
Tá bem, eu sei que esse título é daqueles meio chamativos, mas a vida é assim. Eu queria que vocês viessem até aqui, para eu contar uns causos e dizer por que algumas expressões e frases que enaltecem a cultura da produtividade particularmente me aborrecem.
Eu já contei que tenho nervoso com “basta se organizar que você consegue“. E que esta aflição não é apenas uma sensação. É também fruto da minha experiência de pesquisa sobre a consciência temporal.
Já expliquei que não curto a ideia de que “todo mundo tem as mesmas 24 horas“, porque também em pesquisa percebi que a experiência de tempo das pessoas (especialmente nas grandes cidades) é atravessada por marcadores sociais de desigualdades e em contextos desiguais como o nosso afirmar que todo mundo tem a mesma condição de tempo é um tipo de violência. Chamei essa ideia de cronomeritocracia.
Também já revelei meu desgosto com expressões que soam como reclamação, mas são, de fato, autoelogios e elogios à cultura da produtividade tóxica. Aquela coisa de quem diz que tá superocupado, parecendo que está mal com isso, mas na verdade está se achando o máximo.
A implicância de hoje é com a gloriosa “trabalhe enquanto eles dormem”.
Essa frase é o puro suco da produtividade tóxica, porque ela traduz a ideia de que você deve estar sempre alerta e a serviço da performance e sugere que isso vai fazer de você uma pessoa melhor. Mais do que isso: sugere que você abra mão do seu sono em nome da performance e do desempenho.
É esta cultura que está nos levando à exaustão. A sermos o país campeão de notificações de afastamentos do trabalho e de questões de saúde mental.
E você já parou para reparar que as pessoas que entoam estes mantras da produtividade normalmente se beneficiam de privilégios que se amparam nela? Será que quem vive por aí promovendo estas ideias está acordado E trabalhando na hora de dormir? Então, que tal parar para pensar antes de reproduzir o próximo “trabalhe enquanto eles dormem”?
Esta expressão especificamente sugere que — ao usarmos para trabalhar um tempo que é um pacto coletivo de descanso (a hora de dormir) estaremos gerando um diferencial competitivo. E eu sei — também porque pesquiso isso — que as pessoas levam a sério esta espécie de “fórmula de sucesso” (qual sucesso mesmo?), e deixam de dormir, se medicam para virar noites trabalhando e chegar — o quanto antes aonde mesmo?
Estas expressões são uma espécie de “cola” para a cultura da produtividade tóxica. Amparam, sustentam e ajudam estes modos de vida a continuarem existindo e expandindo. A sociedade do cansaço e do desempenho se alimenta destas ideias que se difundem no cotidiano, porque são de fácil digestão. Mas são falsas promessas. O mundo 24/7 se beneficia quando deixamos de dormir para trabalhar, consumir ou gastar tempo nas plataformas digitais. E não é porque este mundo está preocupado com seu sucesso; é porque você está fazendo a roda girar. E, provavelmente, tem alguém ganhando com a sua exaustão.
Este mundo se beneficia também de quando “compramos” estas ideias e as reproduzimos. Quando somos o colega de trabalho que se vangloria de que trabalhou no feriado; ou que fica trabalhando enquanto todo mundo saiu para comer na hora de almoçar; ou acha lindo dizer que trabalhou nas férias.
Isso gera uma distorção: as pessoas que desfrutam daquele feriado, do direito daquela hora de almoço ou das férias passam a se ver e a serem vistas como folgadas ou preguiçosas. Estas pessoas se sentem culpadas ou fracassadas por estarem simplesmente descansando.
Eu acho isso um escândalo. E já apresentei aqui para vocês em outros textos outros pesquisadores que denunciam esta lógica: Byung-Chul Han, sul-coreano que escreveu o célebre “Sociedade do Cansaço”; Tricia Hersey, poetisa estadunidense que escreveu o manifesto “Descansar é Resistir“; e Jonathan Crary, estadunidense que escreveu sobre a vida 24/7.
Quando afirmo “durma enquanto eles dormem”, isso é muito mais uma provocação para pensarmos nestas ideias e no nosso papel ao reproduzi-las do que uma prescrição; afinal de contas, eu sei que justamente para quem precisa mesmo virar algumas madrugadas trabalhando é difícil escolher apenas dormir. Às vezes não temos escolha mesmo. E aí mora mais uma perversidade desta expressão. Transformar a exaustão a qual estamos sendo submetidos em algo a ser enaltecido como “força de guerreiro(a”).
O que acontece com o sono não acontece apenas com o sono. Acontece com a arte, com a festa, com os rituais, com a convivência. Estamos assistindo ao tempo empenhado para coisas que nos fazem humanos ser comprimido e espremido, porque só é tolerável dedicar tempo ao que é útil ou produtivo.
Somos pessoas e não máquinas. Precisamos do direito ao descanso, à desconexão digital e ao essencial.
Não é verdade que basta se organizar.
Não é verdade que todo mundo tem as mesmas 24 horas.
Não é verdade que você é um foguete, então, dê ré. Repense, reveja, reviva.
Não trabalhe enquanto eles dormem.
Especialmente nós, mulheres.Continua após a publicidade
Façamos o que quisermos enquanto eles dormem!
Descansemos.
Durmamos.
Amemos.
Brinquemos.
Façamos absolutamente nada.Continua após a publicidade
Nos cuidemos.
Desfrutemos.
E que isso possa ser direito de todos, para que não seja escolha apenas para alguns.
