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Violência doméstica: policiais mulheres citam barreiras ao delatar colegas

Aviso: alguns detalhes, como localização, cargos e nomes das partes envolvidas, foram omitidos pela reportagem para evitar a identificação das vítimas, que temem represálias não somente dos agressores, que são todos policiais, mas também das instituições em que trabalham.

Quando conseguiu se soltar, Angélica* pegou a arma e atirou contra a parede do quarto. O disparo abriu um buraco no reboco e lhe deu tempo para alcançar a porta.

Do lado de fora estavam os filhos. Dentro, o ex-companheiro —um sargento do mesmo batalhão em que ela atuava como soldado— que minutos antes a havia imobilizado e apontado uma arma em sua direção.

As agressões vinham se acumulando havia meses: crises de ciúme, controle do celular, empurrões. Naquele dia, a discussão terminou com arma em punho.

O único procedimento formal aberto após o episódio foi contra ela, por um tiro efetuado dentro de casa. Angélica respondeu por lesão corporal e disparo de arma de fogo. Acabou absolvida por legítima defesa.

Angélica não está sozinha. Policiais ouvidas pelo UOL relatam episódios recorrentes de violência praticada por companheiros da própria segurança pública e descrevem a dificuldade de denunciar colegas de farda.

Não há dados consolidados sobre violência doméstica contra mulheres da segurança pública. Especialistas afirmam que a subnotificação tende a ser maior quando o agressor também é policial.

O relacionamento de Angélica durou de 2009 a 2011.

À época, ela era soldado e ele, sargento —posição superior na hierarquia militar. Angélica afirma que isso influenciou o tratamento do caso.

Colegas que atenderam ocorrências envolvendo o casal eram amigos do agressor. “Eu escutava que ele era uma pessoa muito boa, um excelente amigo. Parecia que a culpada era eu.”

Ela diz que ignorou sinais iniciais —ciúme excessivo, controle do celular, críticas constantes— até que as agressões físicas começaram.

Angélica lembra que foi agredida fisicamente pela primeira vez após uma discussão por ciúmes da parte dele, quando saía para o trabalho.

Ele tentou tomar meu celular, me jogou no chão e fiquei com o joelho roxo. Eu sabia que era vítima, mas não conseguia sair. Era como nadar no meio do oceano sem chegar a lugar nenhum.

A policial diz que não conseguiu registrar ocorrência nas primeiras tentativas e atribui a dificuldade à hierarquia militar.

A situação se agravou quando, segundo ela, o companheiro passou a agredir também os filhos dela, então crianças pequenas. “Ele colocou o dedo deles na tomada para dar choque como punição.”

A babá relatou o episódio, os meninos confirmaram, e ela chamou uma viatura. “Não registraram para proteger ele”, diz a hoje sargento, que só voltou a se sentir segura quando o ex foi transferido de cidade.

Anos depois, Angélica decidiu estudar gênero e passou a atuar em patrulhas de atendimento à mulher.

“Percebi a ineficiência dos órgãos, das ferramentas, a negligência do Estado. Melhorou, mas ainda tem muito o que melhorar. Hoje uma mulher é morta com medida protetiva na mão.”

“Ele usa o meu filho para me atingir”

Se Angélica reagiu com um disparo no quarto, a policial civil Maria* levou anos para reconhecer que também sofria violência.

“Eu não me via como vítima de violência doméstica porque ele nunca me bateu.”

Ela relata enfrentar há seis anos uma disputa judicial com o ex-companheiro, policial militar e pai de seu filho.

Eles se conheceram em um atendimento de ocorrência. O namoro terminou antes da gravidez, mas retomaram contato quando ela descobriu que estava esperando um filho.

Segundo Maria, o ex não queria a criança e chegou a exigir teste de paternidade. Após a confirmação —em exame pago por ela—, os dois tentaram retomar o relacionamento para garantir o melhor desenvolvimento do filho.

Mas a relação se deteriorou no puerpério. Ela conta ter sofrido violência psicológica, sentido-se sobrecarregada e sem apoio enquanto ouvia que havia “acabado com a vida dele”.

Durante a pandemia, as discussões se intensificaram.

Ela afirma que o policial descumpria medidas sanitárias —não se higienizava nem usava máscara— e aparecia na casa dela a qualquer hora, mesmo após a separação, ameaçando pedir a guarda do filho na Justiça.

Sempre que tentava impor limites à convivência com o filho, ele ameaçava recorrer à Justiça.

Quando viu que não tinha mais chance comigo, começou a usar o nosso filho.

Orientada por uma colega, Maria registrou boletim de ocorrência e conseguiu medida protetiva em 2021. No mesmo dia, o ex ingressou com ação de guarda compartilhada.

À época, a legislação ainda não impedia automaticamente a guarda compartilhada quando havia medida protetiva —mudança que só viria em 2023.

Mesmo com a medida protetiva, o Tribunal de Justiça autorizou comunicação por e-mail e fixou distância mínima de 300 metros. Maria afirma que o ex descumpriu o afastamento e acessou sem autorização as câmeras da casa.

Condenado por perseguição e invasão de dispositivo eletrônico a um ano e 11 meses em regime aberto, ele recorre em liberdade.

Nos autos, o ex-companheiro sustenta que ela pratica alienação parental e age por vingança —acusação que ela nega.

Em um dos processos, a defesa anexou um vídeo gravado sem o conhecimento dela, em que Maria aparece chorando e dizendo, em uma conversa privada, que seria capaz de “matar” o ex para proteger o filho.

A gravação havia sido obtida por meio do acesso indevido às câmeras da residência, segundo decisão judicial.

Maria também relata que uma das medidas protetivas foi revogada após um juiz entender que o afastamento dificultava a convivência paterna.

Em outro episódio, a medida foi revogada após ele filmá-la entregando o filho na casa dele —situação interpretada como descumprimento da ordem judicial.

Ser policial não me eximiu. Em algumas situações, me sinto prejudicada por ser policial.

Nos processos, o ex menciona reiteradamente que ela estaria usando a estrutura da Polícia Civil para incriminá-lo —acusação que ela nega.

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Imagem: Pixabay

“Da porta para fora e da porta para dentro”

Em 2023, a policial civil Gisele* estava de plantão quando soube que a mãe aguardava na frente da delegacia. O padrasto, policial militar aposentado, havia sido preso em flagrante por agredi-la naquela manhã.

Segundo Gisele, a mãe foi prensada contra a parede após ameaçar denunciar o companheiro por manter arma irregular. Vizinhas ouviram os gritos e chamaram a polícia.

Quando a policial viu o padrasto do lado de fora, sem algemas e conversando com PMs, diz ter se revoltado. “Se fosse outra pessoa, estava lá dentro sendo humilhada.”

Embora tenha havido medida protetiva, a mãe retomou contato meses depois para ajudá-lo durante um problema de saúde. Em depoimento à Polícia Civil, relatou ter sido trancada em um quarto e ameaçada.

O homem teria dito que se vingaria e apareceu armado na residência da ex-companheira. Ele foi condenado por ameaça e violência doméstica, mas recorre em liberdade.

Gisele havia se afastado do convívio com a família não só pelo trabalho como policial civil, mas também pelo comportamento do ex-padrasto, que uma vez havia passado a mão em seu corpo sem consentimento.

Ela relata também ter sido vítima de assédio sexual dentro da corporação, inclusive por um colega posteriormente condenado, e que enfrentou represálias após denunciar.

Falamos em políticas para proteger as mulheres, mas isso vale da porta para fora. Da porta para dentro, muitas não podem denunciar porque serão punidas de novo.

Agressão após término

Ao contrário de Gisele, Angélica e Maria, Carla não é policial, mas tem em comum com as três o fato de ter vivido um relacionamento abusivo com um agente da segurança pública.

Ela afirma que o namoro durou cerca de oito meses, em meio a várias tentativas de término que não eram aceitas pelo policial rodoviário federal. Os dois se conheceram em uma academia de jiu-jitsu e acabaram se aproximando.

“Se eu soubesse que ele tinha uma Maria da Penha, com certeza teria me afastado antes”, lamenta.

UOL apurou que o homem foi acusado em 2007 —primeiro ano de vigência da lei— de agredir uma mulher, mas a punição foi extinta após ele se retratar na Justiça.

Carla conta que ele a xingava e a depreciava e depois dizia que era brincadeira.

No início ele parecia uma pessoa ótima, com uma roupagem de cuidado. Depois foi se revelando. A frequência dos abusos e das faltas de respeito aumentou muito.

Após o término, em uma festa de final de ano da academia, ela relata que foi agredida quando estava saindo do local.

“Ele disse que queria conversar comigo e eu falei que não tinha interesse. Ele mudou de semblante e me chamou de ‘puta, vadia, desgraçada, você tem que sair da academia'”, conta.

“Ele tentou impedir minha passagem, eu empurrei. Daí ele jogou um copo de cerveja na minha cara, me deu um tapa no rosto, me pegou pelos cabelos e me jogou no chão.”

Segundo ela, testemunhas e o dono da academia não fizeram nada, e o PRF passou a gritar que havia sido agredido por ela.

Carla diz que ainda recebeu uma suspensão da academia e que o proprietário não quis se envolver por ser amigo do policial.

Ela registrou boletim de ocorrência pela agressão e diz que a apuração está parada na delegacia. Procurada, a Polícia Civil do Rio informou que o caso prossegue sob investigação da 12ª DP (Copacabana).

Carla também pediu uma medida protetiva, concedida no ano passado, e entrou com queixa-crime por difamação contra o ex, que nega as acusações.

Ela ainda solicitou a suspensão do porte de arma dele, mas a Justiça negou por “ausência de fatos novos” que pudessem justificar a medida.

Segundo ela, o fato de o ex ser conhecido e ter amigos em outras academias fez com que fosse rejeitada por alguns estabelecimentos e tivesse dificuldade para encontrar uma turma que a acolhesse.

“Ele começou a espalhar para as pessoas que tinha puxado a minha ficha, que eu era criminosa. Mas eu tenho ficha limpa. A dele é que é muito suja”, denuncia.

Além dos traumas psicológicos, a mulher afirma que o relacionamento abusivo a isolou completamente.

“Eu vejo o ser humano de uma maneira completamente diferente depois de tudo isso. As minhas próprias relações e amizades foram muito deterioradas por causa dessa história”, lamenta.

Apesar disso, ela diz que ainda tenta acreditar nas instituições.

Esse homem tem um histórico e muitas pessoas provavelmente não o denunciaram por ele ser policial. Quero sinalizar isso à Justiça, porque ele pode agredir outras pessoas.

Em caso de violência, denuncie

Ao presenciar um episódio de agressão contra mulheres, ligue para 190 e denuncie.

Casos de violência doméstica são, na maior parte das vezes, cometidos por parceiros ou ex-companheiros das mulheres, mas a Lei Maria da Penha também pode ser aplicada em agressões cometidas por familiares.

Também é possível realizar denúncias pelo número 180 —Central de Atendimento à Mulher— e do Disque 100, que apura violações aos direitos humanos.

*Os nomes foram trocados a pedido das entrevistadas.

Fonte: Universa/UOL