Com câncer, ela teve que mostrar seio para a chefe: ‘Só acreditava vendo’

O diagnóstico de câncer de mama da operadora de caixa Angela*, 49, veio acompanhado de momentos vexatórios no ambiente de trabalho. Em uma das vezes que precisou sair mais cedo para uma consulta médica, ela foi coagida a mostrar os seios para uma supervisora.
Angela foi contratada por um estabelecimento comercial em Embu das Artes (SP), em setembro de 2017. Pouco mais de um ano depois, em dezembro de 2018, ela foi diagnosticada com câncer de mama.
“Fui fazer um exame de rotina e me deparei com a notícia de que tinha algo. Quando comuniquei à empresa, eles tinham que aceitar. Era algo que nem eu esperava. Então, continuei trabalhando”, lembra ela, em entrevista ao UOL.
Em fevereiro de 2019, Angela passou pela primeira cirurgia, uma mastectomia simples. Ela também fez químio e radioterapia, e retornou ao trabalho na sequência. Os funcionários superiores sempre foram informados sobre o andamento do tratamento, de acordo com ela.
“Quando retornei para a empresa, não fui acolhida da forma que achava que seria pela minha líder”, conta. Quando precisava faltar para ir a consultas médicas, ela avisava com pelo menos uma semana de antecedência. “Não deixava eles na mão.”
“Ela começou a falar que minhas idas [ao hospital] tinham que ser reduzidas, senão mudariam meu horário. Que, se eu estava realmente doente, era para ficar afastada até a minha cura”, Angela.
A médica de Angela recomendou que ela fizesse um lanche no intervalo do trabalho, antes do almoço, porque poderia apresentar fraqueza durante o tratamento. A supervisora dela acatou, mas determinou que a refeição fosse feita próxima ao banheiro, porque “não dava tempo” de ela chegar no refeitório em 15 minutos.
“Tive infecções urinárias terríveis porque entrava no banheiro e ela ficava gritando para eu comparecer ao caixa. Não bebia água, porque se me levantava para encher a garrafa, ela chamava a minha atenção dizendo que estava me levantando demais”, Angela.
Angela afirma que “aguentou” as situações porque precisava do emprego durante o tratamento. Em julho de 2020, ela passou pelo primeiro afastamento por motivos psiquiátricos, depois que foi diagnosticada com depressão.
Ela ainda passou por mais duas cirurgias, em julho de 2022 e fevereiro de 2023, e entre os dois procedimentos voltou a ser afastada do trabalho pela depressão. Para Angela, a gota d’água foi em abril de 2023, quando retornou ao posto e começou a se sentir mal.
“Fiz muito esforço com o braço e minha mama começou a doer muito. Tinha acabado de fazer uma cirurgia, tinha dois meses. Saí do meu caixa, chamei minha supervisora e ela disse: ‘Não sou médica'”, lembra.
“Falei que precisava ir embora e ela disse que só acreditava vendo. Entrei no banheiro com ela, que fechou a porta e pediu para eu tirar a blusa e o sutiã. Minha mama estava inchada e vermelha, e ela colocou a mão”, Angela.
“Hoje vejo que foi inadmissível o que ela fez comigo.” Na sequência, ela saiu do trabalho e foi direto para a UPA (Unidade de Pronto-Atendimento). De lá, foi encaminhada para o Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo) e internada por inflamação mamária.
Depois da alta, de volta ao trabalho, Angela passou a ter episódios de pânico. Até hoje, não consegue sequer passar na frente do local.
“Tinha medo até de procurar meus direitos. Naquela situação, acreditava que nem direito tinha mais. Tinha que ir lá fazer um sacrifício para ganhar meu dinheiro, meu salário, para tentar me curar, para tentar manter a minha alimentação”, Angela.
Causa ganha na Justiça
Angela saiu da empresa em maio de 2024. Na sequência, entrou com uma ação trabalhista contra o antigo emprego. Ela pedia rescisão indireta do contrato, indenização por danos morais e verbas rescisórias. A reportagem do UOL teve acesso ao processo, que está em fase final.
O juiz proferiu a sentença a favor de Angela, e o caso transitou em julgado, ou seja, não cabe mais recurso. Ela aguarda o cumprimento da sentença, que reconheceu a rescisão indireta e condenou a empresa a pagar o que foi pedido por ela. Angela vai receber em torno de R$ 47 mil, valor já com juros e correção.
*O nome foi trocado para preservar a identidade da entrevistada.
Fonte: UOL
