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Fim da 6×1 no varejo: supermercados anunciam jornada 5×2 e redefinem trabalho no setor

Savegnago e Paulistão adotam novo modelo com dois dias de folga por semana, buscando qualidade de vida e retenção de funcionários

Em movimento que já redesenha as relações de trabalho no varejo brasileiro, grandes redes supermercadistas iniciaram em 2026 a transição da histórica escala 6×1 para o modelo 5×2, substituindo 6 dias consecutivos de trabalho por 2 dias seguidos de descanso semanal.

Liderada pelo Grupo Savegnago e acompanhada por redes como o Paulistão Atacadista, a mudança antecipa o debate nacional sobre o fim da escala 6×1, responde à crise de mão de obra no setor e inaugura nova lógica de organização do trabalho no varejo alimentar, combinando produtividade, retenção de talentos e qualidade de vida dos trabalhadores.

DA PRÁTICA EXPERIMENTAL À EXPANSÃO EM MASSA

Grupo Savegnago iniciou a experiência com a escala 5×2 em unidade piloto em Indaiatuba (SP) no fim de 2025 e, após resultados considerados positivos pela administração, ampliou o modelo para todas as suas mais de 60 lojas de supermercado e parte das unidades do Paulistão Atacadista, com implantação prevista para começar em fevereiro de 2026.

“Vimos que é possível conciliar eficiência operacional com mais qualidade de vida para nossos colaboradores. Dois dias de descanso fazem diferença no bem-estar, na convivência familiar e na energia com que as equipes retornam ao trabalho”, afirmou Beto Borsoni, vice-presidente administrativo e financeiro do Grupo Savegnago.

O mesmo novo formato já vem sendo aplicado em unidades do Paulistão Atacadista nas cidades de Barretos, Sertãozinho e Franca (SP), garantindo aos trabalhadores 2 dias consecutivos de folga sem reduzir a carga horária total semanal.

COMO FUNCIONA A NOVA JORNADA

No modelo 5×2 implementado pelas redes, a jornada semanal de 44 horas é mantida conforme a legislação, mas as horas são concentradas em 5 dias de trabalho, com jornadas diárias de cerca de 8 horas e 48 minutos, em comparação às 7 horas e 20 minutos da escala 6×1 tradicional.

Segundo a empresa, a reorganização das escalas não afeta o funcionamento das lojas, que continuam abertas ao público — inclusive aos finais de semana — sem perda de serviços.

MOTIVAÇÕES E IMPACTO NO MERCADO DE TRABALHO

A movimentação ocorre em momento em que o setor supermercadista enfrenta dificuldade para contratar e manter mão de obra, especialmente em funções operacionais como atendimento, reposição e caixa, que historicamente dependem da escala 6×1 para cobrir todos os dias de funcionamento.

Especialistas em gestão de pessoas afirmam que a jornada 5×2 pode reduzir a rotatividade de funcionários, melhorar o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e trazer benefícios à saúde física e mental dos chamados “colaboradores”, eufemismo usado pelas empresas para se referirem aos trabalhadores, embora ainda existam desafios de adaptação operacional diante de longas jornadas diárias.

Para muitos trabalhadores, 2 dias seguidos de folga são vistos como avanço significativo.

“Ter 2 dias de descanso faz diferença na recuperação física, no convívio familiar e na disposição para o trabalho, refletindo diretamente no bem-estar e na motivação das equipes”, disse representante sindical que acompanha as mudanças no setor.

REPERCUSSÃO ENTRE CONSUMIDORES E NO VAREJO

A adoção da escala 5×2 por redes relevantes no interior de São Paulo já está sendo observada por concorrentes e analistas do varejo, que veem na iniciativa não apenas resposta à escassez de trabalhadores, mas também possível tendência de transformação das práticas de trabalho no segmento supermercadista brasileiro.

Embora não haja dados oficiais consolidados sobre o impacto da mudança em indicadores como absenteísmo e produtividade, empresas que implementaram o novo modelo afirmam que a reorganização tem potencial para melhorar o clima organizacional e aumentar a satisfação dos funcionários, o que, por sua vez, pode refletir em atendimento mais eficiente e humano aos clientes.

RUMO À NOVA ERA DE TRABALHO NO VAREJO

Com a expansão da escala 5×2 em redes como Savegnago e Paulistão, o debate sobre o futuro das jornadas de trabalho no varejo alimentício ganha novo fôlego no Brasil.

Para muitos trabalhadores e especialistas, a mudança representa passo importante rumo a mais equilíbrio entre vida profissional e pessoal.

Mas ainda levanta questões sobre a sustentável adaptação operacional em setor que exige cobertura contínua e flexível dos serviços.

A tendência agora observada no interior paulista pode inspirar outras empresas do setor a repensarem modelos tradicionais de trabalho, enquanto sindicatos e empregadores acompanham de perto os efeitos dessa transformação no dia a dia das relações laborais.

DEBATES NO CONGRESSO

O debate sobre mudanças na escala 6×1 e na jornada de trabalho no Congresso Nacional está ganhando tração em 2026, com iniciativas em várias frentes legislativas e intensa mobilização política. Embora ainda enfrente resistência e desafios para avançar em plenário.

PEC EM ANÁLISE

Parlamentares discutem PEC (propostas de emenda à Constituição), que visam alterar a forma como a jornada de trabalho está definida na Carta Magna, incluindo o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de 44 horas. Entre as principais propostas estão:

  • PEC 148/15 (Senado): aprovada na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) para reduzir progressivamente a jornada máxima de 44 para 36 horas semanais, com 2 dias de descanso remunerado, a serem negociados preferencialmente aos sábados e domingos. O texto agora aguarda votação em 2 turnos no plenário do Senado.
  • PEC 8/25 (Câmara): apresentada pela deputada Erika Hilton (PSol-SP), propõe jornada de 36 horas em 4 dias de trabalho, com o restante para descanso. O texto ainda está sendo analisado pela subcomissão da Comissão de Trabalho da Câmara.
  • PEC 4/25 e outras propostas: também tramitam no Congresso, propondo jornadas de até 40 horas com folga dupla ou adaptação de repouso semanal remunerado.

PROJETOS DE LEI E ARTICULAÇÃO POLÍTICA

Além das PEC, há diversos PL (projetos de lei) em tramitação que tratam da redução de jornada, organização de escalas e condições de trabalho, com debates em comissões e propostas aguardando apreciação em plenário.

MOBILIZAÇÃO E POSIÇÕES DIVERGENTES

O tema tem sido alvo de debates públicos e audiências no Senado, inclusive eventos interativos para ouvir especialistas, representantes do setor produtivo e centrais sindicais sobre os impactos econômicos e sociais da mudança da 6×1.

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, defende a redução da jornada e o fim da 6×1, e afirma que a transição deve ser gradual e que a mobilização dos trabalhadores será crucial para pressionar o Congresso a aprovar as propostas.

Por outro lado, setores empresariais e parlamentares ligados ao setor produtivo mostram resistência significativa. Argumentam que mudanças estruturais desse porte podem gerar impactos econômicos, custos maiores e desafios operacionais para empresas, especialmente as que funcionam em regime contínuo.

Essa retórica colide com a realidade. Haja vista a prática adotada pelo setor supermercadista do interior de São Paulo.

PERSPECTIVA PARA 2026

A pauta é considerada prioritária para parte da base do governo e para movimentos sindicais e sociais que pedem respeito à qualidade de vida dos trabalhadores e à proteção contra jornadas e escalas extenuantes.

Existem expectativas de que, com articulação política e pressão social, algumas dessas propostas possam avançar no Congresso ainda em 2026, mudando como e quanto se trabalha no Brasil.

Fonte: Diap