‘Mulheres menosprezam seus próprios sintomas’, alerta médica chefe da cardiologia da Rede D’Or
Uma pessoa morre de doenças relacionadas ao coração a cada 90 segundos no Brasil, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. O grande desafio da especialidade hoje é reverter esse número, através da conscientização e promoção de hábitos mais saudáveis.
Antes de tudo, é fundamental alertar para os sinais de infarto em mulheres, que muitas vezes passam despercebidos por serem diferentes dos clássicos sintomas apresentados pelos homens. Enquanto eles geralmente relatam dor forte no peito irradiando para o braço, pescoço ou mandíbula, as mulheres podem apresentar manifestações mais sutis, como fadiga extrema, falta de ar, náuseas, dor nas costas ou no estômago e desconforto leve no peito. Essa apresentação atípica faz com que muitas demorem a buscar ajuda, aumentando o risco de complicações graves ou morte. Reconhecer esses sinais e agir rapidamente é essencial para salvar vidas.
Numa outra vertente, números levantados pela Rede D’Or, com base em pacientes que deram entrada na emergência dos hospitais da rede com dor torácica, mostram que 20% fumam. Em contrapartida, nos consultórios, os médicos assistem pessoas cada vez mais jovens usando cigarro eletrônico, com consequências ainda desconhecidas ao coração.
A VivaBem, Olga Ferreira de Souza, diretora nacional da Cardiologia D’Or, falou sobre os desafios atuais da cardiologia, que lida cada vez mais com pacientes mais longevos.
VivaBem: Quando a gente fala de doenças cardiovasculares, muitas vezes elas estão alinhadas a outras condições, como a obesidade. Quais são os desafios para tratar o paciente, manter diálogo com outros profissionais e alinhar tratamento?
Olga de Souza: Muito bem colocado. Hoje, o paciente, ele deve ser o centro do tratamento –não a doença em si, porque todas as doenças estão relacionadas. Em relação à doença cardiovascular, como você mencionou, está relacionada a vários fatores de risco.
A hipertensão arterial é um fator de risco. A obesidade é outro fator de risco. O sedentarismo é outro fator de risco. O tabagismo é outro fator de risco. O estresse, a depressão, o diabetes, a obesidade. Todos são fatores que causam a doença cardiovascular. Todas essas doenças estão interligadas.
Na cardiologia, o médico tem que ter o conhecimento multidisciplinar de todas essas áreas e interagir com os colegas das especialidades para entender como é que o paciente se apresenta naquele momento, quais são os fatores de risco, as doenças já estabelecidas, para iniciar o tratamento e entender que é uma jornada contínua.
Às vezes, o tratamento não é para parar de tomar o remédio, né? E não é porque você vai tomar um remédio ao longo da vida, ter um tratamento contínuo, que isso é uma sentença de morte…
Com certeza. Algumas dessas doenças não causam sintomas. A hipertensão arterial pode se manifestar inicialmente de forma totalmente silenciosa. O diabetes também, no início, pode não ter sintomas. O paciente pode já estar há meses, há anos com a hipertensão arterial ou com a glicemia alterada, e se não procurou um auxílio médico, ele não vai ter oportunidade de tratamento.
Procurar um clínico geral, um cardiologista, para você conhecer a sua pressão arterial, saber qual é a medida da sua pressão arterial, seu colesterol, sua glicose, principalmente se você tem história familiar, de pai, mãe, irmãos com hipertensão, diabetes, infarto, doença cardiovascular, isso é fundamental.
A gente tem que investir muito na prevenção dessas doenças, que a gente consegue com hábitos de vida saudáveis, alimentação adequada e atividade física. A gente tem que investir em promoção de saúde e redução de obesidade.
Queria saber um pouco sobre os desafios da longevidade. A expectativa de vida está cada vez mais alta e isso implica que doenças comuns ao envelhecimento passem a aparecer com maior frequência. É o caso da arritmia cardíaca e da degeneração de válvulas do coração, por exemplo.
São vários desafios que vêm junto com a longevidade. A gente está vendo que, no Brasil, ela aumentou e de forma saudável: chegar aos 90 anos, hoje, é muito mais fácil do que antes.
Mas para se chegar a essa idade com o mínimo de doença, porque às vezes é difícil a gente chegar sem doença nenhuma, tem que começar muito cedo com os hábitos saudáveis. A alimentação e atividade física vão fazer toda a diferença para a prevenção dos fatores de risco e prevenção das doenças.
Tem algumas doenças que já são inerentes à idade, como você mesmo colocou. Com o envelhecimento, é muito mais comum acontecer um tipo de arritmia, que é a fibrilação atrial, mais prevalente nos idosos, independente do paciente ter cuidados com a saúde. A mesma coisa é a estenose da válvula aórtica, que também é uma situação que acontece nas pessoas idosas pelo próprio envelhecimento do sistema cardiovascular.
Quando você pensa numa pessoa que chega aos 70, 80 anos com bons hábitos desde a adolescência, é um corpo que tende a ser mais resistente a uma cirurgia ou a uma anestesia, se precisar?
Você tem toda a razão. Hoje se investe muito na reabilitação cardiovascular para pacientes que vão necessitar de uma cirurgia cardíaca, pulmonar ou abdominal. São pacientes idosos que são considerados frágeis e isso aumenta o risco cirúrgico, aumenta o risco de complicações.
Dependendo do perfil e dependendo da cirurgia, se prepara esse paciente antes justamente com exercício físico, com alimentação adequada e com ajuste proteico para que ele possa encarar um procedimento cirúrgico e ter uma recuperação mais rápida, sem complicações.
Ao mesmo tempo que a gente fala de longevidade, a gente vê que aumentaram os casos de infarto em pessoas com menos de 50 anos. A que isso está relacionado?
Nós temos mais de 50 mil pacientes ao longo de cinco anos, acompanhados na Rede D’Or. A média de idade de pessoas que sofrem um infarto é em torno de 65 anos. Quando a gente olha a distribuição da faixa etária por estados no Brasil, a gente observa que a idade em São Paulo é menor do que no Rio de Janeiro.
Em São Paulo, a média de idade dos pacientes que procuram a emergência por uma doença coronariana que infartaram é em torno de 59 anos. No Rio de Janeiro, é em torno de 64 anos. Na região Sul, em torno de 61 anos. No Nordeste, em torno de 68 anos. Essa discrepância já nos faz pensar no estilo de vida e na sociedade onde esses pacientes vivem.
Um dos fatores para o infarto estar mais precoce em pacientes jovens está relacionado ao estilo de vida, ao estresse. O estresse leva a uma produção exagerada de cortisol, adrenalina e hormônios que vão contribuir para aumentar a pressão arterial, aumentar a frequência cardíaca e com isso acarretar as doenças como a hipertensão. Além do estresse, do sedentarismo.
Hoje, neste mundo que nós vivemos com muita tecnologia, com todas as facilidades online, com reuniões o tempo inteiro virtuais, a gente não precisa mais se deslocar de uma reunião de um prédio para outro e qualquer exercício físico é importante para a saúde.
Você está o tempo inteiro trabalhando, porque você não tem os horários de almoço, de lanche, de refeição separados como num dia a dia normal. Com isso, você se alimenta mal e de forma apressada. O tempo virtual absorve a gente. É uma facilidade, mas tem que saber dosar.
É muito mais estressante você estar o tempo inteiro online do que você ter os intervalos que a gente tinha antes. Você está numa reunião tensa, você está estressado, você produziu cortisol, adrenalina. Se você parar, sair, andar, for para um outro setor, seu estresse diminui. No mundo online, você entra em uma reunião atrás da outra e você não tem esse relaxamento. Esse estresse mantido é que vai gerar essas alterações.
As pessoas notaram os malefícios do cigarro, só que a gente está enfrentando os cigarros eletrônicos agora. Como isso é visto pela cardiologia? Como está chegando aos consultórios?
Nesse levantamento do protocolo de dor torácica, nós levantamos as características clínicas dos pacientes que chegam às nossas emergências. Nós encontramos um percentual de tabagistas em torno de 20%. Não é um percentual tão grande quanto o de hipertensos, que eram 70%. O tabagismo diminuiu, sim, mas ele ainda continua presente. E principalmente nas grandes capitais: São Paulo e Rio de Janeiro são estados que têm esse nível de tabagismo mais alto.
O vape chegou como se fosse uma modernidade, um cigarro que não fizesse mal para a saúde, com diversos sabores e odores. Você pode usar o vape sem perceberem que você está fumando, não vai deixar resquício que você está usando. Mas o vape é muito mais danoso do que o cigarro.
Os dois causam danos extremos não só para a saúde cardiovascular e para as artérias em si, do coração, é principalmente no pulmão. Já tem vários relatos que levam a fibrose pulmonar, pneumonia graves. O cigarro eletrônico deve ser banido totalmente.
Outra coisa que acho interessante é o fato de o infarto se apresentar de forma diferente nas mulheres. A gente pode falar sobre uma certa negligência no atendimento a elas? Os sintomas são vistos como histeria, ansiedade ou exagero?
Esse é um dado que nos preocupa muito: o aumento da mortalidade por infarto em mulheres. Antigamente, essa mortalidade era maior em homens. Hoje, no Brasil, segundo um levantamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia, essa mortalidade aumentou nas mulheres, principalmente na faixa etária entre 30 e 65 anos.
Não chamaria de negligência, mas as mulheres menosprezam os seus sintomas. As mulheres acabam se preocupando demais com a saúde da família, dos filhos, do marido. E o próprio sintoma ela deixa no segundo plano, algo que ela vai ver num outro momento. A própria mulher não valoriza o sintoma que ela está apresentando.
Os sintomas também, nas mulheres, são diferentes do homem. No homem, o sintoma de infarto é bem conhecido: uma dor retroesternal, um aperto que pode irradiar para o pescoço, para o braço, para a mandíbula, náusea, sudorese. Na mulher, ela pode ter apenas um cansaço, uma fadiga, uma dor nas costas, um sintoma atípico.
Ela pode achar é uma dor muscular e, quando vai procurar assistência, já está com a doença mais avançada. Então, como a manifestação é diferente, a mulher não tem tanta atenção como o homem em relação à característica da dor.
Um outro fator é que a mulher, ao chegar na emergência ou no médico, pode ter o sintoma mal interpretado, como se fosse uma crise de ansiedade —justamente porque é um sintoma atípico, não é um sintoma que os médicos estão acostumados a tratar em relação à doença coronariana.
Esse é um alerta que a Sociedade Brasileira de Cardiologia faz, da importância de conscientizar a classe médica que os sintomas nas mulheres são diferentes dos homens e que a gente tem que valorizar todos esses sintomas.
Digo sempre: primeiro, você tem que afastar uma doença cardiovascular para depois a gente dizer que é ansiedade. A ansiedade é uma doença, o estresse é uma doença, a depressão é uma doença. E elas precisam ser tratadas. Mas, antes, você precisa afastar uma doença cardiovascular. ‘Não é nada’ é um diagnóstico que não existe.
Um outro fator nas mulheres é que, além dos fatores de risco que o homem também tem, como hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo, estresse, a mulher carrega fatores inerentes ao sexo feminino. É a gravidez, a menopausa, a menarca. Todas essas alterações hormonais têm papel no desenvolvimento das doenças cardiovasculares.
E uma última questão é que o coração mata hoje uma pessoa a cada 90 minutos. Esse número pode ser revertido? É o grande desafio da cardiologia neste momento?
Esse número deve ser revertido, e é um grande desafio. Nós já diminuímos, nas últimas décadas, a mortalidade cardiovascular. Mas ela continua alta. Ela é a maior causa de mortalidade no Brasil –mais do que câncer e acidentes.
A gente vai prevenir a doença cardiovascular fazendo prevenção e promovendo a saúde. É orientando a dieta e a atividade física, combatendo o sedentarismo, o cigarro, o vape, administrando o estresse e fazendo exames periódicos, conhecendo o nível de colesterol, glicose, medindo a sua pressão arterial.
Fonte: VivaBem/UOL
