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Neoliberalismo: como ele molda o trabalho, a vida e até o sofrimento psíquico

Da CLT à pejotização, o neoliberalismo reorganiza o mundo do trabalho e impõe uma moral de desempenho que isola, adoece e enfraquece a ação coletiva

Neoliberalismo: como ele molda o trabalho, a vida e até o sofrimento psíquico

Você já ouviu alguém dizer que “todo mundo tem as mesmas 24 horas”? Essa e outras frases parecem motivacionais, mas carregam uma visão de mundo bem específica: a ideia de que a vida é uma competição individual e que, se algo dá errado, a culpa é sempre de quem perdeu.

Essa lógica que transforma desigualdades em “falta de meritocracia” e direitos em “privilégios”, está no coração do neoliberalismo.

Só que neoliberalismo não é apenas uma política econômica sobre privatizações ou a ideia ter menos Estado no cotidiano do cidadão comum. Ele é também um jeito de organizar a sociedade através do trabalho, dos serviços públicos, da cultura e até do que a gente sente quando não dá conta do “padrão” imposto.

Não é exagero dizer que o neoliberalismo cria uma moral: a moral do desempenho, da produtividade sem pausa, da competição constante e do sentimento de perda que sentimos quando não “chegamos lá”.

Aqui vamos entender o que é neoliberalismo, como ele se conecta ao individualismo, por que ele intensifica a precarização da vida e do trabalho, e como isso se relaciona com sofrimento psíquico.

O que é neoliberalismo?

O neoliberalismo é uma corrente de pensamento econômico e político que defende a ampliação do papel do mercado na organização da sociedade.

Essa doutrina econômica surgiu como reação ao Estado de bem-estar social e ganhou força global a partir dos anos 1980, com governos como os de Ronald Reagan nos Estados Unidos e Margaret Thatcher no Reino Unido.

A ideia central é simples: o livre mercado, guiado pela competição, seria mais eficiente que o Estado para resolver problemas sociais. Por isso, o neoliberalismo prega privatizações, cortes de gastos públicos, desregulamentação da economia, diminuição do Estado, flexibilização de direitos trabalhistas e redução de impostos — especialmente sobre empresas e ricos.

Mas é importante dizer que, na vida real, o neoliberalismo raramente significa “Estado mínimo”. O que acontece com frequência é um Estado “mínimo” para garantir direitos e um Estado “máximo” para proteger interesses econômicos com o objetivo de manter a ordem e viabilizar negócios.

Ou seja, o objetivo do neoliberalismo nunca será “acabar com o Estado”, mas sim redesenhá-lo para atender outras prioridades.

Neoliberalismo no Brasil

No Brasil, políticas neoliberais foram implementadas em ondas. Começaram ainda no governo Fernando Collor com a privatização da Usiminas, estatal voltada para a produção de aço, em 1991. Logo na sequência, no governo de Itamar Franco, também foram privatizadas a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em 1993 e a Embraer em 1994.

O processo, na verdade, se intensificou no governo Fernando Henrique Cardoso quando a Vale do Rio Doce, uma das maiores mineradoras do mundo, foi privatizada em 1997. Esse clímax da privatização deu abertura para que uma das mais expressivas delas acontecesse em 1998, quando o Sistema Telebrás foi leiloado na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, arrecadando R$ 22,058 bilhões.

Hoje, décadas depois das primeiras privatizações, os efeitos dessas escolhas moldam o cotidiano brasileiro de forma concreta e, em muitos casos, dolorosa. Mas as privatizações foram apenas o início.

A agenda neoliberal no Brasil incluiu também a abertura comercial acelerada nos anos 1990, que expôs a indústria nacional à competição internacional sem preparação adequada, resultando no fechamento de fábricas e perda massiva de empregos industriais.

Nos anos 2000 e 2010, mesmo governos de centro-esquerda mantiveram elementos centrais da agenda neoliberal: uma meta de manter as contas públicas no azul e concessões de infraestrutura pública para o setor privado sem refletir, necessariamente, na melhora dos serviços ofertados.

Na foto, Fernando Collor de Mello durante a posse da presidência. Imagem: Arquivo Nacional 
Na foto, Fernando Collor de Mello durante a posse da presidência. Imagem: Arquivo Nacional

Neoliberalismo e CLT

Durante décadas, a CLT foi considerada uma das legislações trabalhistas mais abrangentes do mundo.

Mas por que, então, direitos trabalhistas passaram a ser tratados como obstáculos ao desenvolvimento? A resposta está na ofensiva neoliberal que, desde os anos 1990, vem tentando desmontar proteções sociais sob o argumento de que elas “engessam” a economia e “impedem” a geração de empregos.

No dossiê Reforma Trabalhista em Foco, o professor da Unicamp e especialista em relações de trabalho, José Dari Krein e a doutora em desenvolvimento econômico e professora da UFES, Ana Paula Fregnani Colombi, fizeram algumas considerações sobre a Reforma Trabalhista de 2017. Para os especialistas, ela se mostra como um instrumento de desconstrução de direitos, fortemente impulsionado por políticas ultraneoliberais.

Por que direitos viraram alvo? Porque, na lógica neoliberal, proteções trabalhistas são vistas como custos que reduzem a competitividade das empresas. O trabalhador deixa de ser sujeito de direitos para se tornar “recurso humano” cuja flexibilidade deve ser maximizada.

A CLT, que protege quem vende sua força de trabalho em uma relação desigual de poder, passou a ser pintada como a vilã que “atrapalha” o crescimento econômico.

  A CLT virou alvo do neoliberalismo porque direitos trabalhistas passaram a ser vistos como “custo”, e não proteção. A Reforma Trabalhista foi aprovada durante o governo de Michel Temer, em 2017 Crédito: Antônio Cruz/Agência Brasil
A CLT virou alvo do neoliberalismo porque direitos trabalhistas passaram a ser vistos como “custo”, e não proteção. A Reforma Trabalhista foi aprovada durante o governo de Michel Temer, em 2017 Crédito: Antônio Cruz/Agência Brasil

Neoliberalismo e precarização da vida

Quando falamos sobre neoliberalismo, também precisamos falar sobre a gradual precarização da vida e do trabalho com a nítida ascensão do capitalismo em suas formas mais perversas ao longo dos últimos anos.

Uma delas sendo, por exemplo, o aumento de trabalhos informais ou até a “pejotização” do trabalho como um todo. Dessa forma, o neoliberalismo não precariza apenas contratos de trabalho, mas a vida como um todo.

Essa é a tese central da socióloga Ludmila Costhek Abílio, uma das principais pesquisadoras brasileiras sobre o tema. Segundo ela, em seu artigo, Uberização e plataformização do trabalho no Brasil: conceitos, processos e formas, a uberização é um novo passo tanto nas terceirizações quanto na redução do trabalhador à pura força de trabalho, disponível, desprotegida, utilizada na exata medida das demandas do mercado.

E os números revelam a dimensão do problema. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no terceiro trimestre de 2024, o Brasil tinha 1,7 milhão de pessoas trabalhando por meio de plataformas digitais e aplicativos, um crescimento de 25,4% em relação a 2022.

Mas o que esses dados escondem é ainda mais revelador: 71,1% desses trabalhadores plataformizados estavam na informalidade, comparado a 43,8% dos trabalhadores tradicionais. O resultado vai além do econômico e atinge a saúde mental e física.

Como apontam pesquisadores, o poder gerencialista neoliberal, obcecado pela rentabilidade financeira e pelo alto desempenho, semeia uma competição brutal. Essa lógica destrói, física e psiquicamente, indivíduos instrumentalizados para a produção, levando ao adoecimento e à morte.

Não se trata apenas de estatística: são vidas precarizadas, famílias sem segurança, futuro sem garantias. A precarização neoliberal transforma trabalho digno em “viração”, direitos em custos e seres humanos em “recursos” disponíveis sob demanda.

Discussão sobre escala 6×1 no Brasil faz parte do debate sobre a precarização do trabalho agravado pelo neoliberalismo. Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Discussão sobre escala 6×1 no Brasil faz parte do debate sobre a precarização do trabalho agravado pelo neoliberalismo. Crédito: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Neoliberalismo e individualismo

Uma das marcas mais fortes do neoliberalismo é transformar problemas sociais em problemas individuais. Se o aluguel está impossível, “falta educação financeira”. Se o emprego sumiu, “falta se reinventar”. Se a pessoa está exausta, “falta disciplina”. Esse mecanismo de responsabilização individual tem nome e história.

O filósofo Michel Foucault, ao analisar o neoliberalismo em seus cursos no Collège de France no final dos anos 1970, identificou a emergência de uma nova concepção de ser humano: o homo oeconomicus neoliberal deixa de ser visto como parceiro de troca e passa a ser entendido como “empresário de si mesmo”, alguém que deve investir em si próprio como se fosse uma empresa, sendo “para si mesmo seu produtor” e “sua própria fonte de renda”.

Na prática, isso significa que cada pessoa passa a ser tratada como uma empresa individual que precisa se gerir, se otimizar constantemente e assumir todos os riscos de suas escolhas.

Os pensadores Pierre Dardot e Christian Laval, em A Nova Razão do Mundo, explicam que o empresário de si é o indivíduo que “procura maximizar seu capital humano em todas as esferas”, buscando “transformar-se continuamente, aprimorar-se, tornar-se sempre mais eficaz”.

Esse discurso tem um efeito político enorme porque troca a pergunta “por que a sociedade funciona assim?” pela pergunta “o que você fez de errado?”. E assim, a crítica vira culpa. Tornando o resultado desse movimento, na essência da palavra, perverso: pessoas que trabalham em mais de um emprego, que estudam à noite depois de jornadas exaustivas, que fazem de tudo para “se reinventar” como mandam os Coaches da Internet, acabam se culpando quando não conseguem sair do lugar.

O sistema que produz desemprego estrutural, que concentra riqueza nas mãos de poucos e precariza o trabalho fica isento de responsabilidade e a culpa recai sobre quem não conseguiu “ter sucesso suficiente” em uma sociedade que não facilita o acesso ao mesmo.

O neoliberalismo não é apenas um conjunto de políticas econômicas discutidas em gabinetes ou aprovadas no Congresso. Ele é uma forma de organizar a vida que penetra o cotidiano, molda subjetividades e redefine o que entendemos por sucesso, fracasso, mérito e culpa.

Quando transformamos problemas estruturais em responsabilidades individuais, quando normalizamos a precarização como “modernização” e quando aceitamos que direitos são custos, estamos reproduzindo uma lógica que beneficia poucos à custa do sofrimento de muitos.

E é por isso que os efeitos do neoliberalismo não ficam restritos ao salário ou ao contrato de trabalho. Eles aparecem no corpo, no sono, no medo do futuro, na ansiedade de não conseguir pagar as contas e na sensação constante de frustração.

A precarização do trabalho e a precarização da vida se tornam duas faces do mesmo projeto: retirar proteções, empurrar riscos para o indivíduo e vender essa insegurança como “liberdade”.

Ao transformar direitos em custos e problemas coletivos em falhas individuais, o neoliberalismo enfraquece o que existe de mais poderoso para qualquer mudança social: a capacidade de enxergar o sistema, nomear a violência estrutural e reconstruir laços de solidariedade.

Porque quando todo mundo se sente sozinho na própria derrota, ninguém consegue se unir para mudar as regras do jogo.

Se existe um passo decisivo depois de entender tudo isso, precisamos aprofundar a análise: como essas ideias se espalham? Como elas moldam comportamentos coletivos? Por que momentos de crise viram terreno fértil para discursos autoritários e para a normalização do sofrimento?

Fonte: ICL Notícias