O drama de 8,7 milhões de jovens entre estudar e sobreviver
8,7 milhões de jovens brasileiros não completaram o ensino médio em 2024, não estou falando de quem nunca teve acesso. Estou falando de quem entrou, se sentou na cadeira, viu o quadro negro, e saiu.
Isso não é estatística. É gente.
Um ponto que impulsiona a evasão é a necessidade de trazer dinheiro para casa, 42% dos jovens que abandonaram a escola disseram ao IBGE que precisavam trabalhar. Não queriam. Precisavam.
A pergunta que ninguém faz é: trabalhar para quê? Para comer. Para pagar a conta de luz. Para a mãe não perder o barraco. Enquanto o Brasil discute se o problema é falta de vaga, a periferia está dizendo outra coisa, o que não existe é condição de ficar.
Permanência para quem?
O abandono escolar é oito vezes maior entre os jovens mais pobres do que entre os mais ricos. Oito vezes. Não é um pouco mais difícil. É outro país.
E tem mais, 72,5% dos que abandonaram são pretos ou pardos. O recorte de raça não é coincidência. É estrutura.
A escola foi desenhada para um tipo de família, pai e mãe empregados, comida na mesa, livro na estante, wi-fi funcionando. Na periferia, a realidade é outra. É mãe solo com três filhos. É casa de um cômodo. É celular dividido entre quatro pessoas. É operação policial que fecha a escola por 10 horas e deixa 8 mil alunos sem aula, como aconteceu na Maré e no Alemão.
Nesse contexto, bolsa é paliativo. Necessário, sim. Mas paliativo.
O problema não é só dinheiro. É tempo. É segurança. É sentido.
Os dados do IBGE mostram que a falta de interesse nos estudos é o segundo maior motivo de evasão, com 25%. Mas o que significa “falta de interesse”? Significa que o jovem olha para o currículo e não vê a própria vida ali. Significa que a escola fala de um mundo que não existe a sua volta. Significa que ninguém identificou o que de fato ele precisa aprender.
Entre as mulheres, 23% abandonaram por gravidez. Não é falta de educação sexual. É falta de perspectiva. Quando a escola não oferece futuro, o corpo oferece maternidade. É brutal, mas é real.
A escola que não escuta, expulsa.
A educação que funciona na periferia não é a que dá acesso. É a que cria pertencimento.
Pertencimento é o professor que conhece o nome da mãe do aluno. É a escola que oferece refeição de verdade, não biscoito com suco. É o currículo que fala de empreendedorismo, de economia criativa, de tecnologia, coisas que o jovem da favela já faz no dia a dia, só que sem diploma.
Pertencimento é a escola que entende que se o menino faltou na segunda-feira, talvez seja porque teve tiroteio no domingo. E que não pune, mas acolhe.
O Brasil perde R$200 bilhões por ano com a baixa escolarização. Não é gasto social. É prejuízo econômico. Cada jovem que abandona a escola é um profissional que não vai se qualificar, um consumidor que vai ter menos renda, um cidadão que vai ter menos voz.
A conta é simples, investir em permanência é mais barato do que remediar evasão.
O que funciona?
Não é teoria. É o que a gente vê funcionando.
Funciona escola de tempo integral quando ela oferece mais do que aula, oferece alimentação, esporte, cultura, acompanhamento psicológico. Funciona educação profissional integrada ao ensino médio, que mostra para o jovem que estudar pode virar emprego. Funciona busca ativa, quando o poder público vai atrás de quem sumiu da sala de aula em vez de esperar que volte sozinho.
O Paraná reduziu a evasão no ensino médio em mais de 80% em dez anos. De 6,8% para 1,3%. Como? Infraestrutura digital em todas as escolas, educação técnica, acompanhamento próximo. Não é mágica. É política pública que entende que o problema não é só abrir a porta, é segurar a mão de quem entra.
A pergunta que fica
Quando a gente fala de educação em favelas, o discurso oficial sempre começa com “acesso”. Mais vagas. Mais escolas. Mais matrículas.
Mas matrícula não é educação. Matrícula é promessa. Educação é o que acontece depois, ou não acontece.
8,7 milhões de jovens estão dizendo para o Brasil que a promessa não se cumpriu. Que a escola não foi feita para eles. Que entre estudar e sobreviver, a escolha é óbvia.
A resposta não é mais bolsa. A resposta é escola que entende que permanência é mais difícil que acesso. Que periferias precisam de políticas diferentes porque enfrentam problemas diferentes. Que educação de verdade não é favor, é direito. E direito se garante com estrutura, não com discurso.
Enquanto a gente não mudar essa lógica, vai continuar perdendo gente. Não para a ignorância. Para a falta de condição.
A cadeira está lá. A pergunta é, quem pode sentar?
Fonte: Coluna Joildo Santos no UOL
